A aparência deficiente

Já que estamos no ‘Black History Month’ aqui no Reino Unido, deixem-me contar-vos o que me sucedeu na semana passada.

Conforme sabem, sou consultora freelancer – trabalho em vários escritórios de advogados, um de cada vez. Convém-me muito que assim seja. Mas como devem imaginar, existem períodos em que não tenho projectos. Embora nunca seja motivo de grande preocupação, é natural que roa as unhas (durante estes períodos), ansiosa por um próximo projecto.
 
Como estou a fazer o meu Mestrado em Tradução (inglês-português-inglês), decidi que não queria ter períodos de roer unhas. Um contrato mais longo, preciso com um permanente, seria o ideal, embora recebesse menos.
 
Uma das agências com a qual trabalho, por telepatia propõe-me uma vaga num bom escritório de advogados (como sempre) e eu aceito o desafio, mas com pouca obsessão, por saber que, para tal posição, de certeza que iriam querer alguém que tenha estudado cá, Direito Inglês e tal.
 
“Foste seleccionada para uma entrevista e os sócios em questão são (...) e eles mesmos irão conduzir a entrevista contigo”
 
Vou a correr “checar” os perfis deles e os acho muito “cromos” e britânicos – rígidos – pelas fotos e brilhantes percursos acadêmicos e profissionais. Direito em linha recta!
 
Ligo à minha agência e explico a consultora que sou uma gaja de esquerda e que aqueles dois pareciam maningue conservadores, e por tal, estava receosa de perder o tempo de todas as partes envolvidas. Além do mais, não tinha, não podia demonstrar o entusiasmo que ela tanto exigia que eu demonstrasse.
 
“Mas qual entusiasmo? Não tenho nenhum, lamento imenso! Fretes faço por um curto período”.
 
A agente desesperadamente vende o seu peixe (não era bem o da firma de advogados em questão) e, entredentes manda-me ir à entrevista.
 
Leio a página do escritório de advogados, vejo ali um registro de esquerda. Gosto mas aqueles perfís dos sócios com quem teria de trabalhar directamente, não me convenceram, mas vou lá, resoluta em apontar os seus maravilhosos feitos.
 
Chego lá e constato que o sócio sénior, com mais de 30 anos de brilho, é deficiente. Uma deficiência que afectou a fala, as mãos e o andar. E ele é tido como dos advogados mais brilhantes na sua área de actuação e, numa firma de topo.

Houve momentos em que a sua sócia teve de me esclarecer o que ele dizia.
 
Emocionei-me ao rubro e pensei logo que, nele residiria o meu entusiasmo. Eu queria poder trabalhar para ele e perceber como ele fazia as coisas e alcançava tanto.
 
Os dois foram muito hospitaleiros. Quando eles me perguntaram do porquê de eu escolher a firma deles, eu disse-lhes que a maioria as suas áreas de actuação eram diferentes das que se repetiam noutras firmas e que pela primeira vez, via um grande escritório, a ocupar-se também, de questões relacionadas com o bem-estar da sociedade, em oposição à money, money, money.
 
“Mas nós aqui fazemos e gostamos de dinheiro também!” – disse o meu novo ídolo, risonho.
 
Fizeram-me poucas perguntas técnicas. Meu ídolo fez perguntas sobre amigos dele num escritório no qual trabalhei. Falamos sobre línguas e eles repetiam, olhando para o meu CV, que eu tinha experiência, em jeito de quem estivesse desarmado. Em tempos da Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa, eu estaria certa de que esta rendição seria vantajosa para mim. Mas neste caso, podia ser que eles tivessem desanimado, por uma gafe insusceptível de recuperação.
 
Fui admitida e estou no sétimo céu, ansiosa por aprender, dando o melhor de mim, para não parecer estúpida, nem... deficiente?


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