A treinar também se educa

Quando o mister Miguel Guambe convidou-me para apresentar a sua primeira obra “Educar e treinar Basquetebol”, interroguei-me logo: porquê eu?

É certo que comecei o jornalismo no desporto, fui um atleta de basquetebol. Aliás, Miguel Guambe foi o meu primeiro treinador do Basquetebol federado, no Costa do Sol. Mas não fui nem um lustroso atleta, nem sequer treinador para fazer, com autoridade, uma leitura crítica de uma obra que é um verdadeiro manual teórico e científico sobre o processo de treinamento do Basquetebol.

Mas o Miguel lembrou-me que eu também sou um professor, e que, como o demonstra no livro, há uma relação histórica entre o Basquetebol e a educação, porque este jogo nasceu no contexto escolar; o treinador é um professor e o campo de jogo uma enorme sala de aulas, delimitada, não por paredes, mas por linhas em toda a sua extensão, e as tabelas são os barómetros da avaliação, que determinam as aprovações (leia-se vitórias) e as reprovações (leia-se derrotas).

O treinador tem, assim, a obrigação de utilizar o jogo como um meio prático de educação ou quanto muito como uma alternativa educacional.

Estamos, portanto, em presença de um livro didáctico, que como afirma o seu autor, tem o objectivo de satisfazer as necessidades de quem quer melhorar o seu desempenho e educar através do treinamento das técnicas e tácticas do jogo de Basquetebol.

Através deste livro, o mister Miguel compartilha as suas vivências de décadas como treinador e professor, focalizado em dois públicos-alvo: a) o primeiro - dos professores-treinadores, que lidam com as crianças e adolescentes desde a fase da sua iniciação desportiva até à fase de aperfeiçoamento dos fundamentos e princípios do jogo. b) O segundo - dos treinadores que se focam na fase de especialização dos processos técnicos e em que o foco é a obtenção de resultados. A fita Alta Competição.

Estruturação do livro
O livro está estruturado em 7 capítulos, designadamente: O que nos fala da relação da história do Basquetebol com a educação. O que estabelece relação entre educar e ensinar Basquetebol. O que nos fala da função do treinador. O que nos fala dos fundamentos técnicos do Basquetebol. O que nos fala dos conteúdos tácticos de um jogo. E finalmente o que trata da planificação e programação do Basquetebol como actividade basilar para o sucesso.

No primeiro capítulo, o autor discorre pela história do Basquetebol, desde a sua fundação, no final do século XIX, com a particularidade de nos lembrar que o basquete nasceu na escola, tem uma dimensão pedagógica profunda. Ensina-nos os valores da entreajuda, do sacrifício, da superação, do aprender a viver com a derrota para poder chegar à vitória. A centralidade do Desporto na educação do homem.

No segundo capítulo, o autor centra-se sobre a necessidade de o treinador fazer uma selecção criteriosa do conteúdo e método do treino para facilitar aprendizagem do jovem jogador, elucidando-nos de três fases cruciais. a) A de iniciação desportiva, cujo foco devem ser actividades lúdicas, participativas e alegres. Considera-a mesmo ideal para ensinar a técnica. b) A fase de aperfeiçoamento. Aqui, sugere o autor, o treinador deve proporcionar ao atleta a oportunidade de praticar os fundamentos aprendidos e automatizados em situações que se aproximam do jogo, da competição. Por isso, deve ter exercícios em maior grau de dificuldade no desenvolvimento dos fundamentos, privilegiando resistência, força, velocidade, flexibilidade, coordenação, agilidade, etc. c) Especialização - aqui o foco é a obtenção de resultados.

No terceiro capítulo, o mister debruça-se sobre a função do treinador, realçando a dimensão humana de um mister. Com efeito, Miguel Guambe lembra-nos que um treinador é simultaneamente líder e gestor. Líder porque ele deve ser inspirador, agregador, mobilizador e ter o inequívoco reconhecimento dos próprios jogadores que lidera. Gestor porque a sua função é rentabilizar os activos que são os jogadores, obtendo deles o melhor rendimento possível. APROFUNDAR

No capítulo 5, o autor propõe-nos os fundamentos técnicos do Basquetebol. Apresenta-nos, com o labor de um treinador com sensibilidade para lidar com atletas principiantes, passo a passo, os principais movimentos e gestos a realizar no trabalho do domínio do corpo, a técnica de movimentos para execução de paragem a dois tempos, a forma como se deve pegar e dominar uma bola de basquetebol em varias situações de jogo, nomeadamente em pressing; a técnica de demarcação, recepção, passe, lançamento, drible, ressaltos, bloqueio. Neste capítulo estão os fundamentos técnicos mais elementares do conhecimento na área do treino, que nenhum treinador deve dispensar no processo de treino.

No capítulo 6, o autor apresenta-nos a dimensão activa do jogo, destacando o contra-ataque como o conteúdo táctico mais determinante, por ser a primeira forma de ataque de que dispõe uma equipa a partir da altura em que tem a posse da bola. Apesar de o autor nos propor o desenvolvimento do contra-ataque em múltiplas nuances tácticas, nomeadamente dois para zero; três para zero; quatro para zero e cinco para zero, sublinha que deve e pode ser realizado com a participação dos cinco jogadores de campo, requerendo a aposta na rapidez e na execução e organização colectiva.

Para além do contra-ataque, o autor apresenta-nos outras ideias tácticas suas sobre o jogo, nomeadamente os ataques contra defesas posicionais à zona, nos sistemas ofensivos, a recuperação defensiva, a defesa homem a homem e a defesa à zona, isto nos processos tácticos defensivos.

No sétimo e último capítulo, o autor escreve sobre a pedra angular de qualquer actividade que desenvolvemos, seja ela um jogo de Basquetebol ou de outra modalidade, ou o nosso trabalho ou ainda a nossa vida quotidiana: a importância da planificação e da programação.

O mister Miguel lembra-nos que também no processo de treinamento, o sucesso depende de boa rigorosa planificação e programação. Sem ela, nenhuma técnica ou táctico alcança resultados.
Como afirma numa das passagens da página 87, o entusiasmo do treinador contribui para o sucesso do exercício da sua função, mas é fundamental que o trabalho por si desenvolvido não fique exclusivamente entregue às suas emoções nem aos seus impulsos. A boa sessão está dependente da organização que o treinador introduz no seu trabalho, da programação da actividade por si dirigida, sempre com os interesses e as necessidades dos praticantes e da equipa. Por isso, o autor desperta-nos para a
necessidade de definição de metas colectivas e ou individuais para cada período da época como ponto de partida do trabalho de um treinador, a necessidade de especificar o trabalho e conteúdos a serem trabalhados no processo de treino, de saber se os jogadores estão preparados o suficiente para o que se lhes propõe, etc.

Aliás, um aspecto que este livro deixa evidente é o papel dos jogadores no trabalho do treinador. Já ouvimos falar de treinadores que dizem “Quero, posso e mando”. Os jogadores que os suportem!
O mister Miguel mostra-nos, neste livro, que não é assim como as coisas funcionam. Os atletas não são meros receptáculos das decisões do treinador. Este tem que contextualizar toda a sua acção de concepção, planeamento e implementação da sua ideia de jogo com e para os jogadores. Isto é, focalizando sempre os interesses e as necessidades dos atletas, afinal, o centro do jogo.

Esta é uma obra inovadora entre nós.
Não é comum entre nós um treinador decidir transpor para livro os seus conhecimentos teóricos, científicos e práticos sobre o treinamento no Desporto. Por isso, o mister Miguel marca território nisso. Valoriza o título de treinador, ainda visto, entre nós como alguém que trabalha em improviso.

Por isso, todos os que se interessam em desenvolver as suas capacidades intelectuais no campo do treino e da interpretação do jogo, não hesitem em ler esta obra. Leiam-na para aprender, mas também para a enriquecer. Porque não há nenhuma obra acabada. Como defende Vincent Jouve (2002:56), a leitura é uma actividade de antecipação, de estruturação e de interpretação. Ou como nos ensina Imbert (1986:56) a leitura de um texto é um exercício interpretativo, que encerra o ciclo do processo criativo iniciado no autor. Este livro vem mostrar que, ao contrário do que se possa pensar, há ciência por detrás da acção de um treinador e o sucesso de uns e de outros não é um mero acaso de a bola entrar ou bater no espigão.

O mister Miguel provoca os outros treinadores e estudiosos do Desporto a criar e enriquecer a nossa doutrina, com esta valiosa e poderosa ferramenta de trabalho.

Numa era em que o conhecimento é a trave mestra, talvez esta obra nos faça despertar para o que o Prof Chico da Conceição escreve no prefácio: que a qualidade de jogo e os progressos nacionais e internacionais que pretendemos alcançar, a formação de atletas de alto nível técnico, táctico e físico, que amiúde apressadamente pretendemos formar, continuarão a ser uma miragem se passos importantes e significativos não forem dados pela generalidade dos nossos professores de Educação Física e treinadores das várias modalidades, à escala nacional.

Que passos são esses? interrogar-se-ão alguns: e responde esta obra. Pensar o Desporto como uma disciplina científica e cujo resultado depende, em muito, do método que escolhemos seguir no nosso trabalho. 
 


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