Algumas vozes femininas na poesia moçambicana do século XXI (cont.)

   Deusa d’Africa, uma voz das entranhas

Deusa d’Africa nasceu em 1988 em Xai­?Xai e é co­?fundadora do grupo cultural Xitende (Núcleo Literário do Xai­?Xai). Organizou em colaboração uma colectânea poética de autores de Gaza e Niassa (2014), uma obra na área da ficção intitulada Equidade no Reino Celestial (Editora das Letras, S.A, 2014) e publicou os livros de poemas A Voz das Minhas Entranhas (com um prefácio de Paulina Chiziane, 2014) e Ao Encontro da Vida ou da Morte (Editora das Letras, S.A, 2014).

O segundo livro de poemas que vou analisar com mais pormenor, atrás referido, tem uma epígrafe da autora que porventura já orienta filosófica e tematicamente o leitor: “Os homens são o que são, e os leões apenas feras inocentes”. Ou seja, à partida a autora descredibiliza a condição humana, a sua prática predatória consciente.

A obra está organizada em quatro partes, designadas: Ao Encontro da Vida, A Cidade Adormecida, A Des­truição da Cidade, Ao Encontro da Morte e encontramos 25 longos poemas intitulados “Confissão”. Esta insistência no título remete de imediato para um conteúdo religioso e de encenação autobiográfica.

Na história literária temos pelo menos duas obras com este título, uma de Rousseau e outra de Santo Agostinho. A confissão aponta para uma dimensão pessoal e colectiva nos poemas de Deusa d’Africa, pseudónimo com que a autora se assume como sujeito, que enaltece de imediato a forma transcendente de uma presença feminina, tutelar africana. E que inclusive ganha estatuto de personagem dramática em alguns dos poemas.

Assistimos a vários auto-retratos nas confissões/poemas, que podem ser lidos como representação da figura feminina de África, ainda hoje neo­?colo­nizada, ou da cidade suburbana, ou ainda da mulher subalternizada e dependente; alegoricamente há uma voz que se apresenta como interpeladora e denunciante dos males que esta personagem colectiva de mulher enfrenta, em estrofes que redundante e oratoriamente apelam o leitor/ouvinte.

Os sete dias de um casamento, ao invés dos sete dias da criação, mostram a progressiva destruição das ilusões femininas, e a rede de obrigações em que a mulher, enquanto ser, fica presa, na dependência familiar e no quadro dos preconceitos que a prendem socialmente:

“(…) Sétimo dia pós casamento/ Céu nublado e com câmeras/ Fotografaram a precipitação das entranhas/ Dum e outro em casa no final­?de­?semana/ Raiva ao ver roupas rasgadas/ Para coser e lavar sujas, obrigação de uma dona de casa (…) Como se ele pudesse a devolver, só por não parir o filho almejado, / Finalmente consegue amá­?la até à última página e devolve à estante/ Preparando­?se para comentar com os amigos sobre novas garotas a conquistar.” (62)

Lemos de forma constante na poesia de Deusa d’África uma denúncia crítica sobre a situação feminina e sobre as relações de género.

Há por vezes na sua escrita um ritmo de abundância no verso que se excede sem margens limítrofes, como a subida inesperada de um rio, que leva consigo o que está à frente. Este vozear das entranhas da poesia, que por vezes se aparenta à palavra de pregação, ou de anunciação, mostrando uma relação intertextual com os textos de origem bíblica, trata de muitos assuntos, como por exemplo da História de Gaza, da dominação colonial, da religião, do amor, das relações homem mulher, do desejo de liberdade para as mulheres, da miséria e injustiça sociais, das iniquidades humanas. Os poemas pontuam, revelam, a perplexidade da interrogação e o testemunho moral de uma condenação/ confissão. A dramaticidade, a mistura de géneros, irrompe no texto de Deusa d’África, como uma complexa teia de discursos que se fazem ouvir, ou com entrada em cena de outras vozes:

“Ngungunhane: Minha menina Deusa d’Africa/ Que fizeste em África/ Teu povo continua com repugnância de si mesmo/ E ainda clama pela independência sendo escravo de si mesmo/ Quantos jovens vestiram sua nudez/ Exaltando a música americana/ Quantas vezes lembraram vossos ancestrais e pediram o Pangolim/ Quantas vezes te ocupaste na plantação de swithokozelos (…)” (64­?5)

Eminentemente purgatória e crítica a escrita de Deusa d’Africa apresenta-se como uma exploração ambivalente e desmesurada de uma voz que se espirala de múltiplas outras vozes, que deseja encontrar/reclamar elementos culturais e linguísticos próprios, nativos, mas que, simultaneamente, demanda a modernidade da poesia ocidental através de muitas das dedicatórias. Uma escrita em processo e polivalente nas escolhas de ritmos e temas.

 

Lica Sebastião, uma voz irónica e reflexiva

Lica Sebastião nasceu em Maputo em 1963. Publicou Poemas sem Véu (Alcance Editores, 2011) Ciclos da Minha Alma cidade, sol e vento a palavra é uma máscara (Chiado Editora, 2015), De Terra, vento e fogo (Kapulana Editora, 2015).

Estamos perante um voz aparentemente confessional, diria serena, que escreve poemas quase como anotações de uma página de diário, ora num verso prosaico, ora encenando um sujeito lírico, que vai reflectindo sobre as suas emoções e as dos outros, sobre a escrita, o quotidiano.

Observamos no primeiro livro Poemas sem Véu, que a voz de Lica Sebastião é finamente irónica e o seu olhar de espectador ora se aproxima ora se afasta daquilo que o verso descreve, como se pode ler no poema Saudade: “vou juntar todos os pedacinhos de ternura/ que me deixaste no corpo e na memória/ e com eles alimentar o meu coração./ Depois no sossego do meu ser,/ vou adormecer” (9). Há neste livro um conjunto de poemas que trata da ausência e dos sentidos que ela desperta, trata também da espera, e por assim dizer, do amor; a voz do sujeito vai dissecando a emoção que resulta de tudo isto.

Vejamos o poema Resquícios de ti: “Lavei­?me toda com fragâncias de alfazema;/ Todavia, o acre da tua essência,/ o acrílico das tuas telas/ não se desprenderam dos meus sentidos,/ Troquei o Sim Card.// Em vão” (19).

As (in)confidências de Lica Sebastião encenam a sinceridade, de uma maneira surpreendentemente tranquila, sem entusiasmos, quase à maneira de uma abnegada resignação pessoana:

Meu silêncio/ mais não é temor do atrevimento, da vaidade fútil.// Pouco emotiva não sou.// Encanto­?me com risos verdadeiros,/ aplaudo adeptos de sobrevivências,/ viajo sonhos de adolescência e de plenitude.// Desaponto­?me com a incompreensão de mim./ Vivo emoções.”(22).

 

Eu diria que Lica vive e, depois, desconstrói as suas emoções…. com sabedoria:

“Sabes lá dos sonhos que sonhei esta noite./ Posso mostrar­?te o atalho que percorri/ até desembocar na praia deserta /e quantas mãos toquei imaginando serem as tuas…// mal soletras as duas sílabas do meu nome.” (44).

A forma como a poeta pensa a língua é também finamente narrativizada com a ironia de quem observa: “O meu professor de português tinha um ritual;/leitura, interpretação e, depois, gramática.// Apaixonei­?me pelo adjectivo:/ qualificativo de cores, odores, paisagens, políticos,/ gente (56).

O segundo livro da autora Ciclos da Minha Alma cidade, sol e vento a palavra é uma máscara reúne um conjunto de breves poemas ora descritivos da cidade e dos elementos, ora das emoções, e anota no título a simulação da escrita, a consciência da teatralidade.

Poeira,/ sol,/ céu branco, sem luar,/ calca­?se o chão da cidade;/ passos indecisos. (p. 27). Dá­?me um mapa do teu palpitar// O que plantar nas tuas encostas?/ Papoilas?/ Cravos?/ Pés de maracujá?/ Tudo.// Vou colher cores, sabores, sem conta. (p. 65).

Fiz um poema para o meu amor./ Versos arejados, sem tom, sem rima./ Veio a resposta: “não gostei”.// Enviei­?os a dois amigos/ Ofereceram­?me um sorriso morno,/ e guardaram­?nos como segredo. (63).

No seu livro De Terra, vento e fogo (2015), que contém poemas em que a voz poética se adensa, Lica continua perseguindo a ironia apegada à emoção, a escrita como esgrima dos sentidos e edificação do amor: “Os versos que te escrevo,/ porque outro recurso não tenho de tos dizer,/ edificam uma moradia/ para as minhas emoções” (69).

A auto­?ironia e o jogo entre emoção e reflexão lê­?se também nesta espécie de auto­?retrato:

Sou tão forte e audaz./ A minha magreza é temperada de terra, vento e fogo./ Grito à chuva impropérios,/ descalço os pés sobre a lava,/ enfrento os demónios do tédio,/ troço das minhas próprias fraquezas,/ ofereço o silêncio perpétuo aos que mal me querem.// Perante ti desfaleço. (p. 49).

A escrita de Lica Sebastião é de uma serenidade inquieta, polida de ironia constante, um verso que nos sorri evasivo.

 


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