As dimensões da palavra em Armindo Mathe

 As dimensões da palavra em Armindo Mathe

Quero partir a palavra aos pedaços para que volte a ser inteira
JR

A escrita literária ainda é o ocaso que conduz a uma peregrinação além do espaço. E nessa peregrinação inusitada quanto fascinante, tudo é feito em várias simetrias, como acontece em Romaria: três dimensões do vento, de Armindo Mathe (autor duas vezes distinguido na edição passada do Prémio Literário TDM, na categoria de Poesia e Conto). Na verdade, a colectânea de poemas de Mathe é um produto que soa como algo gerado pela natureza, explorado com os contrastes da palavra de modo a causar sentidos de um escrita ambulante por percorrer lugares (sólidos, líquidos e intangíveis) que não deveriam ter gente, talvez porque poeta reivindica a solidão como fecundidade de qualquer concretização poética com efeito.

De facto, Romaria é um livro constituído por três dimensões, as quais, em conjunto, vão configurando com que estado de espírito os versos foram escritos. Na primeira parte, a poesia apelativa de Mathe faz das dificuldades oportunidade para renovar a confiança, o empenho em relação a um por vir, daí que os textos “Angelina”, Marinheiro” e “Apocalipse” funcionem como modelo do que se deve ser para que tudo valha alguma coisa. Aqui a versificação traduz caminhos conducentes a um destino enigmático, com sonhos e insónias gerados por uma “obsessão” focada na ansiedade pelo amanhã. Nesse jogo, os sujeitos de enunciação associam-se à grandeza da natureza para recuperar um estado de pureza instaurado logo no primeiro texto do livro: “Natural”.

Como se estivessem numa marcha contínua, em que se escolhe o que interessa e exclui-se as redundâncias, na segunda parte do livro, as vozes dos poemas afastam-se da artificialidade com que se constroem certos saberes, produtos típicos dos trapezistas, agentes da encenação barata? Provavelmente, porque neste campo nada é certeza, mas causas da saga que a este nível tem no país o palco desencantado, onde o amor esfuma-se nas entrelinhas do sorriso. Esse impulso é feito com esse sentido de ser ave: “Não gosto nada disto, definitivamente, detesto fronteiras. Quebro as grades que me circundam. Sou mar, sou rio e sou ave na azul reverberação dos céus, doutra espécie. Não pretendo ser ninguém além da liberdade que sou” (p. 53).

A terceira parte do livro apresenta outras particularidades, atinente à saudade de um tempo feito da inocente sinceridade de um sorriso infantil, suportado por desejos do que é ideal, como ter um espaço insular: “Quero uma ilha desabitada/ onde não possa mais nada ver/ nem saudações inférteis de amor,/ nem sorrisos imprecisos” (p. 67). Do natural ao artificial, nesta dimensão, Armindo Mathe quer é esbanjar-se no desejo ideal, conciliando um cocktail de ingredientes que adocicam a escrita num patamar onde a poesia merece e deve estar.

Armindo Mathe escreve como quem recolhe sentimentos de modo a vendê-los depois de manufacturados. O efeito disso acaba numa obra que nos desliga de quem somos enquanto a leitura dura. Com isso, o poeta leva-nos aonde quer e bem entende, numa romaria cujo propósito é fazer de nós peregrinos da palavra sugerida e repartida.

Título: Romaria: três dimensões do vento
Autor: Armindo Mathe
Classificação: 15,5

 


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