Breve memorando da poesia de Carlos Nejar

 

*(Texto introdutório da conversa sobre autores brasileiros no Centro Cultural Brasil – Moçambique, 19/09/19)

 

Carlos Nejar é um dos poetas brasileiros que marcou de alguma maneira a minha vida de leitor, ou mais precisamente, de consumidor inveterado de poesia. Tenho em mim dois personagens literários: um leitor e um poeta. Eis-me aqui portanto na pele de um simples leitor.

 

O meu primeiro encontro com o poeta Carlos Nejar foi nos finais dos anos 80 do século XX, numa livraria algures, em Lisboa, por via de um livro que me caíra às mãos, assim ao acaso, retirado de uma das prateleiras dedicadas à literatura brasileira. Era uma antologia poética intitulada “Obra poética (1), 1980, Nova Fronteira  - que incluía alguns dos livros do autor até aí publicados -. Daí em diante fui descobrindo mais trabalhos deste autor incluindo ensaios e ficção.

 

Mas o que me marcou realmente neste poeta foi a forma como os seus versos vibravam em mim. Por exigência minha, não são muitos os poetas capazes de criar um efeito destes no leitor que sou. Eu tenho o hábito de, à primeira, ler um livro de poesia folheando-o de forma aleatória e, neste caso, à medida que o ia lendo, fragmentos de versos ficavam reverberando em mim como uma música ao sabor da brisa crepuscular daqueles dias semi-áridos. Por muito tempo esses versos ficaram-me, por assim dizer, encravados na memória pela sua doçura, simplicidade, profundidade e, em alguns casos, pela sua densidade e espontaneidade. Repare-se neste poema:

 

A IDADE

 

Falou e disse um pássaro

dois sóis, uma pequena estrela.

Falou para que calássemos

e disse disse disse

a idade da eternidade.

 

Nessa altura eu já conhecia a maioria dos poetas emblemáticos do espaço da língua portuguesa, verdadeiros monstros da arte do bordado das palavras; falo dos “outsiders” do mundo africano, designadamente, portugueses e brasileiros, entre os quais Sophia de Mello Andersen, António Osório, Eugénio de Andrade, Carlos Drumond de Andrade, Vinicius de Morais, entre outros. Portanto, a descoberta do poeta Carlos Nejar foi uma espécie de dádiva para mim, ao constatar que estava perante uma das vozes mais esclarecidas da poesia em língua portuguesa.

 

E quando é que um determinado texto marca um leitor? Eu próprio tenho dito, em jeito de resposta, que é quando o mesmo está incompleto nos seus contornos absolutos, mas paradoxalmente perfeito na sua arquitetura relativa. Sim, é quando induz o leitor à necessidade de sua continuidade, complementaridade, acabamento, de acordo com os preceitos e necessidades interiores do próprio leitor. É o mesmo que acontece comigo quando leio algo que me marca, como um bom poema, um bom conto, um bom romance, em suma, um bom texto literário.

 

CÂNTICO

 

Limarás tua esperança

até que a mó se desgaste;

mesmo sem mó, limarás

contra a sorte e o desespero.

 

Até que tudo te seja

mais doloroso e profundo.

Limarás sem mãos ou braços,

com o coração resoluto.

 

Conhecerás a esperança,

após a morte de tudo.

 

 

É gratificante quando na nossa caminhada pela vida cruzamos com poetas da estirpe de Carlos Nejar, por intermédio dos seus escritos poéticos, quanto a mim, emblemáticos, porque vibrantes na sua tessitura e no seu conteúdo. Nejar tem uma forma peculiar de estar na poesia que ultrapassa os limites da própria contenção da palavra, consubstanciada na escolha do vocábulo certo no momento e contextos próprios. É justamente nas escolhas que ele faz que se revela como testemunho fiel da sua vida, em todas as suas contingências e magnificências. Desde as metáforas ou imagens, passando pelos vocábulos, até mesmo na rigorosa cadenciação dos versos, acabam emprestando à sua poesia aquela configuração musical que lhe é característica. Na poesia o verso deve ser, em rigor, “... denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si” diria Sophia de Mello Andersen.

 

Os escritos poéticos de Carlos Nejar são grosso modo intemporais como, aliás, toda boa poesia, o que significa que a experiência da vida e do tempo vivido criou nele a consciência de si próprio ante as contradições e contrariedades existenciais que, por sinal, são universais. A poesia em geral contesta o axioma da reprodução afunilada ou do olhar passivo perante o mundo pois, na essência, ela é simultaneamente questionamento e explicação da realidade consentida. A missão do poeta é, em última análise, a de propor novos territórios igualmente possíveis de serem habitados pela humanidade. Assim, a poesia é também resultado das contradições internas tanto do sujeito poético quanto do mundo em que este está enclausurado.

 

Deixo aqui um outro poema intitulado “Inscrição”:

 

Aqui estou,

aberto o pórtico.

Serei breve no amor e no transporte.

O óbolo está pago, o dia resgatado

E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.

 

Aos deuses não ouso nada,

nem compro,

senão o intervalo

de meu próprio espanto.

 

Carregai-me, barca

E ainda canto.

 

A questão que me foi colocada como pretexto para este reencontro foi se, eventualmente, havia algum poeta brasileiro que me tivesse marcado de alguma maneira. Como poeta, e depois do que falei antes sobre a poesia de Carlos Nejar, a resposta a essa pergunta certamente que só pode estar com os meus leitores. Nisso eu não queria interferir pois, como fazedor de versos, a minha missão começa e termina na criação. Todo escritor, pelo menos daquilo que eu saiba, é sempre um mau leitor de si próprio. Contudo, penso eu que, qualquer que seja um texto literário, neste caso, da lavra dum poeta, inegavelmente haverá nele marcas da sua vivência literária e social.

 


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