Do Fim da História ao retorno do debate...

Quando se deu por terminado o período da Guerra-Fria em 1989, depois de intensos anos de rivalidade entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas (URSS), representando o bloco Capitalista e Socialista, respectivamente, vozes apareceram a tentar descrever o que seria a Nova Ordem Mundial (NOM) sob ponto de vista de actores, estrutura do Sistema e Agenda Internacional. Dentre estas vozes, destacam-se de três autores, Fukuyama, Huntington e Kissinger. Para este artigo, interessa questionar o primeiro e provavelmente o mais peremptório na descrição da NOM.

Fukuyama em seu artigo “O Fim da História?” escrito em 1989, que culminou com a publicação do livro “O Fim da História e o Último Homem” publicado em 1992, procurou desenhar aquilo que para ele seria o fim do processo evolutivo da humanidade, e tal, seriam a Democracia e a Economia Liberais.

Em sua obra, Fukuyama baseia o seu pensamento nos debates de Hegel e Karl Marx, filósofos que abordaram também esta questão usando a terminologia fim da história, no sentido em que, este fim da história seria quando a humanidade tivesse satisfeito os seus profundos e mais fundamentais desejos. Para Hegel, o fim da história seria o Estado Liberal, enquanto para Marx, seria a Sociedade Comunista.

 Fukuyama, tendo visto estas duas formas de governo digladiarem-se durante a Guerra-Fria, e tendo visto a Democracia Liberal se sair vencedora, teria concluído categoricamente que este seria o fim da história, portanto colocando fim ao debate dos seus predecessores. Para a nova era, Fukuyama previu um mundo que, sob ponto de vista de actores, teria vários actores, ou seja, seria multipolar. Contudo, haveria uma predominância dos Estados Unidos da América (EUA), no sentido em que, as fragilidades dos outros actores irão perpetuar o domínio dos EUA, que é a maior Democracia Liberal existente.

Sob ponto de vista de Paz e Segurança, Fukuyama trouxe-nos a visão Hegeliana da luta pelo reconhecimento, que na ordem normal conduz os Estados à uma luta generalizada pela supremacia. Mas com o liberalismo promovido pelos EUA, esse simples desejo pelo reconhecimento condutor à conflitos, é substituído pelo desejo irracional de ser reconhecido igual diante dos outros, pelo reconhecimento da legitimidade por outros Estados. Com isso, Fukuyama viu a Nova Ordem Mundial como uma boa nova, pelo facto de haver uma universalização destes valores liberais, o que seguindo a lógica de Kant e reiterada pelo próprio Fukuyama, é positivo, dado que as democracias liberais não se digladiam.

Com a eclosão do Corona vírus, ou Covid-19, em Janeiro de 2020, uma pandemia de nível mundial com origem em Wuhan, na China, que até finais de Abril já havia atingido mais de 1 milhão de pessoas e morto cerca de 64 mil, tendo como países mais afectados os EUA, a itália e Espanha, foram sendo reveladas as ineficiências do sistema liberal, os problemas de solidariedade liberal existentes e permitiu o reposicionamento da China e da Rússia como as principais referências de uma liderança global depois de muito tempo de dominação dos EUA e dos países europeus, contrariando totalmente o que Francis Fukuyama vaticinara em 1992.

A crise do modelo liberal de economia e de vida é de longe uma consequência do Corona Virus. Os seus problemas já se vêm revelando desde as arbitrariedades da invasão americana ao Iraque em 2013 e se prolongaram até à invasão à Líbia em 2011, deixando para trás nada mais do que rastos de destruição em Estados que apesar de problemas nos seus modelos de liderança, conheciam níveis de vida muito melhores do que de democracias liberais consolidadas. A hipocrisia revelada ao estabelecer relações de amizade com autocracias como da Arábia Saudita, é prova das incorrespondências entre o discurso e a acção da maior liderança do modelo liberal, os EUA. Fazendo vincar a máxima realista de que os Estados guiam-se puramente por interesses e pelo desejo de domínio ou exercício de poder sobre os demais Estados, e quando for favorável, aliam-se à qualquer tipo de regime.

A crise económica eclodida em 2008, que afectou as principais economias Ocidentais, as crises internas nos Estados Ocidentais, o contínuo envolvimento em conflitos, seja de forma directa ou indirecta, sem dúvidas levantaram questionamento não só da natureza pacifista do modelo liberal mas também da sua sustentabilidade. Sobretudo num período em que a China, por outro lado, ia aumentando e consolidando a sua influência global através da Estratégia de “Ascensão Pacífica” enunciada em 2003, e catapultada pela iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” que se materializa através de investimentos e desenvolvimento de infra-estruturas em mais de 70 países.  

Os EUA, acordando para esta inevitável conquista chinesa do mundo, iniciou um processo revisionista liderado pelo presidente Donald Trump, que consistia em rever os principais acordos comerciais dos EUA, já começando pelo banimento do Trans-pacific Partrnership (TPP) em 2017, revisão dos acordos comerciais com o Canadá e Mexico, bem como com a União Europeia e com a China. Com este último deflagrou um conflito comercial que gerou muita perda económica aos dois Estados e ao mundo no geral. Está subjacente neste revisionismo a ideia de que os EUA precisavam tornar a América grande novamente, mas isso começaria por emendar as relações comerciais que estavam a ser feitas às expensas dos mesmos. Ainda neste processo, os EUA exigiram maiores direitos na Organização das Nações Unidas (ONU), sendo que são o principal financiador.

Todas estas manobras iniciadas por Trump eram na tentativa de adiar o inevitável, a perda significativa do poder americano no mundo, atrelada à crise do modelo neoliberal como principal referência de crescimento das economias, que nos últimos anos produziu mais diferenças sociais do que benefícios para os seus povos – no contexto do corona vírus mais de 10 milhões de pessoas foram levadas ao desemprego nos EUA. Portanto, o que para Fukuyama parecia certo, era que este modelo continuaria a prosperar garantindo paz e desenvolvimento para todos os Estados do mundo. Entretanto, o que se vê hoje em dia é o modelo misto de Estado centralizado e economia liberalizada adoptado pela China e pela Rússia a florescer e a conquistar progressivamente o mundo.

Na conjuntura actual em que vivemos, a China e Rússia não só mostraram resolução e liderança global para lidar com uma pandemia que tinha potencial de atingir proporções gigantescas nos seus territórios, como também revelaram os desajustes e incompetências existentes nos seus pares ocidentais para salvaguardar os seus nacionais. E isto justifica-se pela evolução rápida das infecções e mortes nos EUA, Itália e Espanha. Actualmente, assumindo o papel antes assumido pelas potências ocidentais, a China e a Rússia prestam apoio ao mundo e aos seus mais directos contendentes, como os EUA e Estados europeus. Ademais, países na sua linha de orientação apresentam sinais claros de capacidade para apoiar os demais Estados do eixo-ocidental, é o caso da Cuba a prestar apoio à Italia e ao Reino Unido, enquanto a Itália reclama indiferença dos seus pares da União Europeia na oferta de assistência básica para o combate ao Covid-19. Portanto, se em 1992 Francis Fukuyama vaticinou o fim da história, a história nega-se a vergar à sua própria condenação, mostrando que à ela não se lhe pode colocar ponto final, pois ela é cíclica e o ciclo de domínio do modelo neoliberal a nível global parece estar a conhecer os seus piores momentos, senão o seu fim.

 

Rufino Sitoe: Analista político, docente e pesquisador da Universidade Joaquim Chissano

 


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