Dos eventos avulsos nas proximidades da cantina do Chilepfane...*

Introdução

O lugar onde os eventos narrados no conto “Os ossos do Tio Elias”, publicado no primeiro volume destas memórias, faz parte de um universo suburbano que cercava a cidade de Lourenço Marques, e era então denominado bairro Chilepfane.

Como era, e ainda é, tradicional em aglomerados populacionais desta natureza, as áreas habitacionais tomavam o nome do “cantineiro” (ou a sua alcunha), proprietário da mercearia mais importante das proximidades. Assim era no Chilepfane, no bairro Zanza, no Tinga, no Cordeiro, no Mateus Serra, no bazar do Adelino, eu sei lá!

Pois, a casa da família do Tio Elias encontrava-se situada no coração do bairro Chilepfane, e tinha as seguintes coordenadas: do lado nascente corria a (então) recém-inaugurada Avenida Craveiro Lopes (actual Avenida Acordos de Lusaca). (Será que alguns dos leitores têm ideia de quem foi o Presidente Craveiro Lopes?). Esta via tomava início na 7ª Esquadra da Polícia e terminava no Aeroporto Gago Coutinho (Mavalane). A sul, o mesmo bairro fazia fronteira com a Lixeira Municipal, mais conhecida por Bucaria, lugar de estórias de moluenes, de vagabundos, de escavadores de restos de alimentos e doutros “ tesouros”, e em cujas valas se descobriam corpos de cidadãos assassinados nos becos dos caminhos. A norte, e para quem caminha em direcção ao Aeroporto, já sufocava de fregueses e de vendedores a miniatura do bazar do Adelino, onde se mercavam produtos desembarcados do nwamalata (comboio da cinco horas da manhã) proveniente de Marracuene e da Manhiça, carregado de mercadorias (lenha, carvão, fruta variada e hortícolas, cabritos, frangos) e passageiros-mão-de-obra na ponte-cais (Estiva), nas empresas da capital, ou apenas portadores de sonhos de ir viver na cidade-luz, na prostituição, na residência dum colono como empregados domésticos, ou de passagem para o El-Dourado que era (e ainda é) o Djone. A leste existia outro aglomerado chamado Justo Menezes, que era uma grande empresa  que se dedicava ao comércio de artigos eléctricos, ferragens e motorizadas. Defronte desta empresa, e paralela à Craveiro Lopes, corria (e ainda corre) a Avenida de Angola.

Entre as várias “secções” deste enorme subúrbio cruzavam-se ruelas, becos obscuros sem nome, nas esquinas dos quais se entrechocavam os habitantes; onde baldes excrementos transbordavam e eram viveiros de moscas e de focos de doenças.

Maioritariamente os habitantes destes povoados eram emigrantes do campo para a cidade. Para aqui vinham render a sua vassalagem à omnipotência da luz, àquilo que supunham ser o desenvolvimento. Consigo traziam parte das suas famílias, não haveres porque não os possuíam, mas o sonho longínquo de ser bem-sucedido, feliz e próspero. O Tio Elias fora um desses, parte dessa multidão anónima, apostada em dar-se de todo para possuir alguma dignidade na vida.

Era nesses fogos que pulsava o quotidiano desses cidadãos, com as suas alegrias, efémeras muitas vezes, com as suas aspirações, com as suas artimanhas que garantiam a sobrevivência (molhinhos de tomate, de couve murcha, de bolos caseiros à porta dos quintais, onde se fecundavam amizades, – e inimizades, porque não? –, de burlões vendedores de ilusões, de foragidos surpreendidos a assaltar uma casa alheia, de amantismos mal sucedidos que culminavam em esfaqueamentos, onde se dançava de embriaguez nas rodas do uputso, do xicadju, do ukanhu e se festejava a sorte de se estar vivo, mas que marcavam, afinal de contas, dia-sim, dia-sim, o pulsar da vida do que eram os subúrbios da cidade de Lourenço Marques.

   Iniciemos então este roteiro ciceroneados pela imaginação e pela memória que, ao longo do mesmo, espero não nos irão atraiçoar. O ponto de partida é mesmo – como poderia ser doutro modo? – a cantina do Chilepfane.

 

...dos eventos avulsos nas proximidades da cantina do Chilepfane...

 

O senhor Chilepfane era um homem barbudo, de cara redonda como uma lua cheia negra. Era bondoso; porém, tinha algo de malvadez se lhe deviam nos créditos ou se lhe azedassem os humores. O seu nome era Pedro, uma pedra no sapato dos vigaristas e dos zaragateiros que rondassem ou provocassem distúrbios nas proximidades do seu estabelecimento. Que o digam os mabandido que, vindos da cidade, em grossas quadrilhas, sempre a trote ligeiro a caminho do Mavalane, lá nas traseiras do Aeroporto Gago Coutinho, para se matarem à pancada; enfim, para ajustar contas, que nem sequer as havia, mas acertar rivalidades entre emigrantes de diferentes grupos étnicos que trabalhavam nas casas dos colonos como empregados domésticos. Porque daqueles havia os naturais de Chibuto, mais conhecidos por Chimbhutso Muzaya, os tais que derrubavam troncos de árvores sólidas à cabeçada e pagavam seus lobolos com folhas daquelas, e aquelas eram todas do mesmo tamanho!; os da Macia, tropa de Bilene-Macia, com a poupa xivika-ndhuku característica, os mesmos que assopravam a mesma, sempre a mesma canção, de gaitas desafinadas; os do grupo de Mavekane, oriundos de Mabunganine-Manjacaze, cowboys lourenço-marquinos que envergavam camisas de gola-marinheiro, franjadas nos peitilhos e calções justos de cujos bolsos traseiros espreitava sempre um pente pronto para alisar a crista de galo que era o cabelo.

O Tio Pedro Chilepfane, que era assim como gostava que o chamassem, punha-se à frente destes grupos que afugentavam a clientela da frontaria da loja, de cavalo-marinho em punho. E este “entrava de serviço”, como ele dizia. Desferia golpes certeiros sobre essas turbas com uma violência tal que deixava estatelados os mais valentes. O resto sabe-se_ cada um por si e Deus por todos! – era um salve-se quem puder. À uma, atravessavam a estrada em debandada a proferir injúrias e promessas de vingança, doridos e amassados. Não havia quem se não atemorizasse com os golpes de cavalo-marinho do Chilepfane. A partir de uma determinada altura os mabandido, logo que farejassem as proximidades da cantina, atravessavam a estrada e utilizavam o passeio do lado oposto. E lá iam, a trotar, a esgrimir murros no ar, em gestos de falsa valentia. 

   Os mabandido conquistaram um estatuto triste e singular: eram os donos e senhores dos habitantes e instilavam pânico nos lugares por onde passassem ou que frequentassem. Que o digam os residentes dos bairros de Xipamanine, do Tlavane, das Lagoas, da Bela Rosa, da Malhangalene e doutros mais. Eram quadrilhas de terror. Preencheriam livros volumosos as narrações dos episódios protagonizados pelos mabandido. E não resisto, nem me coibo a relatar aqui algumas estórias que ilustram quão abusivos esses indivíduos podiam ser.

Alguém lembra-se das Lagoas? Pois é, todos lembramo-nos, e muito bem. Tal como o Matlotlomane da Mafalafa, a Zona Perigosa no Chamanculo, eram lugares de iniciação sexual dos rapazes, muitas vezes à custa duma gonorreia ou duma sífilis, adquiridas ao preço de vinte escudos, ou de dez, se o cliente calhava ser estudante. Porque sempre havia espaço de manobra para negociações e descontos para casos especiais.

Naquela tarde dum sábado, um sujeito pacato, já entradote em anos repousara o seu cansaço junto ao balcão duma leitaria. Leitaria era o nome que se dava aos barracos onde se vendia leite fresco, chocoleite e masse, que era uma espécie dum yogurt. Grande parte da clientela achava este produto tonificante e afrodisíaco. Era comum dele se abastecerem e consumirem antes de se aventurarem para as intimidades com as “mulheres da zona”. Assim, aquele sujeito pediu uma garrafa de chocoleite, ao que foi servido com prontidão e delicadeza pela rapariga do balcão. Enquanto sorvia a bebida com evidente gosto e calma, nisto senta-se a seu lado um homenzarrão vestido à moda que não deixava dúvidas sobre as suas qualidades pugilísticas. Mirou o cliente franzino com desprezo e soltou o vozeirão para dizer:

“...quando acabares a tua garrafa de chocoleite vais pagar esta também...”. Referia-se ao “masse” que consumia, com uma suspeita serenidade.

“...mas eu não te conheço...”, balbuciou o outro, com o corpo a esfriar de medo.

“...não me conheces, mas conheces este aqui!...”. Este aqui era o punho direito, enorme, que balouçava erguido no ar, do qual podiam distinguir-se algumas escoriações frescas e cicatrizes que cruzavam os dedos em todos os sentidos, provas de muitas e violentas contendas.

O cliente franzino não quis esperar por mais detalhes. Depositou uma moeda de zuca sobre o balcão e, sem pedir pelos trocos, desmontou do banco e pôs-se a andar sem mais demoras. Acautelado, virava e revirava a cabeça para a leitaria a ver se o valente o seguia.

Noutra ocasião, isto sucedeu numa tarde dum Domingo, ia aquela jovem, desprendida e distraída, à compra de qualquer coisa na cantina do Mussa, perto do bazar de Xipamanine. Mas eis que, na dobra dum beco, é envolvida por um bando de homens a trote a caminho do Espada. Sem perceber como nem porquê, vê-se levantada do chão, nos braços de dois matulões. O mínimo que lhe fizeram foi transportá-la assim no ar, no meio de muitas gargalhadas, a ela e ao cesto onde ia meter as compras, até à portas do lugar que era o seu destino, isto é, aos portões do Zundap, defronte do recinto do Espada. Quanto mais ela esperneava e gritava, mais alto eles se riam. A moça viu o inferno em pleno dia e achou que o momento da sua morte acabava de chegar. Ela tinha sido carregada nos braços daqueles mastodontes mais de quinhentos metros. Não a molestaram, apenas perguntaram-lhe se tinha gostado da boleia!

Eram estes alguns dos exemplos das inúmeras demonstrações do poder de avassalamento dos mabandido à população.

Naquele lugar, ao lado da loja do Chilepfane havia um largo caminho que comunicava o bairro da Bela Rosa com a Bucaria, uma espécie de passadeira invisível que, a existir na realidade, cruzaria o asfalto da Avenida Craveiro Lopes. Quem viesse da Bela Rosa e desejasse ir, por exemplo, ao forno crematório ou ao Bairro Indígena, teria de transpor aqueles quase cinquenta metros de asfalto. O problema era o tráfego. Muitos peões, na maioria crianças da escola, eram ali atropelados por veículos que sempre tinham pressa de chegar aos seus destinos. Durante as férias escolares aquelas acorriam à varanda da loja do Chilepfane para comprar guloseimas tais como chewingas, matortor, badjias, e tifiosse. Aí perdiam vidas ou ficavam gravemente feridas no curso daqueles acidentes. Alguns bêbados não conseguiam chegar ao passeio oposto da estrada. Eram violentamente arrancados da vida, vítimas dos seus descuidos e da falta de atenção dos motoristas. Mães que vinham de compras especiais do mercado de Xipamanine eram ali esmagadas por camiões e por machimbombos. Era um lugar assombrado. Não passava uma semana sem que ocorresse algum acidente fatal. Infelizmente, não havia outra solução senão correr o risco de morte sob o rodado daqueles veículos. Os historiadores da zona diziam que naquele chão havia cadáveres de antepassados sepultados. Ou se os não houvessem, os espíritos das vítimas dos acidentes deambulavam por ali e ofuscavam a visibilidade aos motoristas.

 

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.


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