Mandela, filósofo africano*

Pediu-me o Prof. Silvério Ronguane que fizesse a apre­sentação do seu livro “Mandela, filósofo africano”.

Apesar da sua dimensão minúscula, em número de páginas, para aquilo que são os padrões normais das obras que se lançam nos nossos dias, esta é uma obra de uma riqueza profunda.

Primeiro, porque é uma obra de um filósofo africano sobre uma personalidade africana. Enriquece, pois, a historiografia e a biblio­grafia africanas e, no caso vertente, a moçambicana.

Segundo, porque é uma obra sobre uma imensa personalidade africana, uma das raras que ganhou verdadeiramente dimensão universal pelos seus próprios méritos, sem nenhuns favores, nem a habitual complacência que os europeus têm dos africanos.

Essa personalidade é Nelson Mandela. Aqui, o Prof. Ronguane traz-nos a dimensão filosófica do pensamento deste líder africano dos nossos tempos, colocada numa interessante relação dialógica com outra imensa personalidade universal de outros tempos: o in­defectível Sócrates.

Foi o linguista russo Mikhail Bakhtin quem elaborou, pela primei­ra vez, o conceito de dialogismo. É o diálogo de textos, um meca­nismo de interacção textual muito comum na polifonia, processo no qual um texto revela a existência de outras obras em seu inte­rior, as quais lhe causam inspiração ou algum influxo.

O dialogismo está presente tanto nas obras impressas como na própria leitura. Em ambas as esferas, o discurso surge em constan­te acção recíproca com textos semelhantes e/ou imediatos. Este elemento aparece quando se instaura um processo de recepção e percepção de um enunciado que preenche um espaço pertencente igualmente ao locutor e ao alocutário.

No caso da obra em apreço, o Prof. Ronguane coloca o discurso de Nelson Mandela em diálogo com o discurso de Sócrates. É esta a essência deste livro. E também do dialogismo de Bakhtine. Um diálogo de textos, independentemente do seu contexto temporal. Sócrates é do séc. IV AC. Mandela do séc. XX. A despeito da dis­tância temporal, os seus discursos estabelecem, aqui, na presente obra, uma interessante relação dialógica.

O autor refere que foi a transmutação resultante da experiência de luta de Mandela que moldou a sua personalidade, a sua forma de estar na vida, a sua dimensão humana, hoje reconhecida por mui­tos. Afinal, ao longo dos seus quase 100 anos de idade, Mandela foi­-se metamorfoseando de anónimo e pacato jovem da rural aldeia de Mvezo, no interior remoto do Cabo Oriental, sucessivamente em advogado, activista civil anti-Apartheid, guerrilheiro, irredutí­vel prisioneiro mais famoso do mundo, primeiro presidente negro da África do Sul e, mais importante que tudo, em um dos maiores líderes morais e políticos de nosso tempo.

FILOSOFIA AFRICANA

Mas a obra começa por problematizar a existência ou não de uma filosofia africana. Como todos sabemos, muito do nosso conheci­mento foi concebido de fora para dentro de nós. Isso abriu espaço a discussões epistemológicas como: existe um conhecimento afri­cano? Uma filosofia africana?

Ora, o conhecimento é a capacidade de pensar, de organizar e re­criar o mundo de acordo com a percepção do Homem. Quer isto dizer que não há conhecimento europeu, americano ou africano. Há conhecimento. Desde que haja a capacidade de pensar, de or­ganizar e recriar o mundo, segundo a percepção do ser pensante.

Quer isto dizer que a filosofia é algo intrínseco ao próprio homem, não fazendo sentido o questionamento da existência ou não de uma filosofia africana. Como diria Descartes, penso, logo existo. O homem africano, e logo a sua filosofia, existe em função da sua

capacidade de pensar e afirmar a sua própria existência.

Mas outros lembrar-nos-ão de que a tradição dos africanos é emi­nentemente oral, logo, incapaz de sistematizar o pensamento.

Mas, neste livro, o Prof. Ronguane ensina-nos que a escrita não é condição sine qua non para haver filosofia. Que os mitos africanos são veiculadores de verdades ancestrais sobre a organização polí­tica.

O autor informa-nos ainda que usou como matéria-prima para a sua comparação o discurso de Mandela, em 1962, pronunciado no tribunal que o condenaria à prisão perpétua, e o discurso que, no ano 339 AC, é atribuído a Sócrates, também num tribunal, em Hélada, Atenas.

O Prof. Ronguane começa por nos lembrar as diferenças entre Mandela e Sócrates: a separação espacio-temporal: Atenas do séc. IV AC não se parece com nada da África do Sul do Apartheid, do séc. XX; a diferença etária, social e profissional entre ambos à data dos factos. Mas sobretudo motivacional: Mandela responde por uma acusação de carácter penal - atentado contra o Estado. Sócrates responde por uma acusação aparentemente de teor cível e religioso: corromper a juventude e de não crer nos Deuses.

Mas o autor conclui que é, dialecticamente neste extremar de dife­renças que se gera a aproximação entre Mandela e Sócrates.

1º: Tanto um como outro transformam o momento de defesa numa oportunidade para afirmarem reiteradamente as suas ideias, no lu­gar de se vergarem à posição dominante do opressor;

2º: O compromisso político - o discurso de Mandela é uma resposta política a uma questão política. A acusação a Sócrates é igualmen­te política: porque os deuses da cidade na Grécia antiga eram a base do poder do Estado; a queixa de corromper os jovens era de­claradamente política. Visava moldá-los politicamente para mudar o futuro do Estado;

3º: O apego incondicional à verdade e às ideias;

4º: Eram ambos cumpridores das leis humanas, mas tinham o pri­mado da consciência como lei;

5º: Tinham afeição pelo universal na sua ideia de identidade dos problemas humanos, como todos os filósofos, mas não descuravam o particular. Por amor aos outros, distanciavam-se deles próprios.

Na leitura a que nos conduz o autor desta obra, Mandela e Sócrates são, pois, da mesma estirpe, a estirpe dos sábios, dos homens com a consciência do dever cumprido. Dos homens capazes de promover a rebeldia e ao mesmo tempo o acatamento das leis que eles pró­prios combateram.

Mandela e Sócrates convocam-nos para a dimensão ético-moral, pela centralidade da ideia de reconciliação, muito vincada nas suas personalidades, emergindo o compromisso como elemento fun­damental do diálogo. Por acaso, ou talvez não, o maior desafio às lideranças dos nossos tempos...

*Texto de apresentação do livro “Mandela, filósofo africano”, do Prof. Silvério Ronguane


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