“Rabhia”, o rosto da sobrevivência

O que ainda não se escreveu sobre o amor? Pode ter sido esta a pergunta que, inconscientemente, despertou a imaginação de Lucílio Manjate ao escrever o seu novo livro, Rabhia, que vai oscilando entre uma estória de amor e de sobrevivência. Na verdade, o livro é uma estória de amor trágico que se vai transformando em sobrevivência à medida que vários incidentes intrometem-se no percurso de Boanar e Rabhia, os escolhidos pelo autor para sustentar a ficção. Com efeito, tendo aquelas duas personagens no centro das suas motivações, Manjate mexe – mais uma vez – com as cicatrizes de uma História cuja trama é feita de eventos paralelos, no entanto, igualmente importantes na estruturação de uma memória que cabem todas verdades. Por isso, temos nesta Rabhia uma descrição constante do submundo que sustenta o dia-a-dia das pessoas, com a atenção de quem sente a dor de uma ferida.

Como calha em A legítima dor da dona Sebastião, outro livro seu, em Rabhia, Lucílio Manjate volta a enveredar pelos caminhos da ficção policial – novamente com o agente Sthoe, agora com um estagiário –, inserindo no enredo um jogo de interesses suficientemente arrojados para destruir o amor em troca da verosimilhança estúpida de que se tece a rotina quotidiana. Por essa razão, Rabhia afirma-se como um retrato de todos os que são obrigados a ter de cicatrizar as feridas dos seus sonhos fracassados. Aliás, a partir da personagem que intitula a obra, o escritor liberta a hipótese de se estabelecer um conjunto de comparações entre Rabhia e Moçambique, afinal, ambas as entidades são vítimas de circunstâncias que as prostitui. No texto, enquanto a personagem tem amor imaculado, que a alimenta incondicionalmente, prospera com a beleza de ser essa muthiana de uma província abençoada. Logo, em Manjate, Rabhia – assim como o país – é exemplo de terra fértil, com tudo para gerar vida enquanto contar com um homem que a quer bem e a orienta. Não obstante, contra todas as expectativas, num ápice, o destino baralha as cartas de outra forma e o objecto do amor de Rabhia – como sucede com Moçambique – desvanece-se e os que aparecem em substituição retiraram-na a honra, obrigando-a a ser o rosto da sobrevivência por ter de se adaptar às novas realidades e por reflectir essas mesmas realidades. Então, sem opção, a narrativa ganha uma prostituta, obrigada a manter-se nessa condição pelos que gozam por pagar pela desgraça, os mesmos que, ao fartarem-se dela, matam-na. Esta narrativa gira à volta dessa morte, com analepses incríveis e um discurso do narrador convincente, típico dos bons escritores, o que faz da escrita de Manjate um produto muito apreciável – o prémio foi muito bem atribuído.

Escrevendo sobre o que Rabhia passa, Lucílio Manjate, sempre apaixonado pelo bairro Luís Cabral, para muitos, de outros tempos, Xinhambanine, leva-nos consigo a questionar as acções dessa mão invisível que sempre a condenamos, sem a conseguir amputar. Como consequência disso, ler este escritor é uma forma de também compreendermos o que se passa nas cabeças dos sobreviventes, dos corruptos e dos que adoram dar ordem a tudo, menos à Mãe que Craveirinha amou.

 

Título: Rabhia

Autor: Lucílio Manjate

Editora: Edições Esgotadas

Classificação: 16.5


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