Releituras (16) - Paul Éluard

PAUL ÉLUARD (1895 – 1952) foi um dos maiores poetas líricos e surrealistas do século XX.

O meu primeiro contacto com Paul Éluard foi nos primórdios dos anos oitenta do século transato, através do livro “Algumas Palavras” (Dom Quixote, 1977). À semelhança de outros poetas de minha eleição confesso que experimentei, desde então, uma espécie de necessidade “física e espiritual” da sua poesia. É por essa razão que aqui estou relendo e partilhando com os meus leitores alguns dos seus versos:

 

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito

É uma dança de roda e de doçura.

Berço nocturno e auréola do tempo,

Se já não sei tudo o que vivi

É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,

Hastes de brisas, sorrisos de perfume,

Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,

Barcos de céu e barcos do mar,

Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras

Abandonado sobre a palha dos astros,

Como o dia depende da inocência

O mundo inteiro depende dos teus olhos

E todo o meu sangue corre no teu olhar.

 

Se é bem verdade que a lírica de Éluard gravita a volta do amor, da mulher, do vento, do azul, da luz, do mar, enquanto mediadores, digamos, entre ele e o universo consentido, é igualmente verdade que, como homem de esquerda que era, Paul procurou divulgar os seus ideais através da sua acção e da sua poesia. Eu, pessoalmente, tenho dito que não conheço e nem concebo um poeta maior que não transporte consigo uma alma “esquerdista”, quanto mais não seja por força da sua própria poesia; pois a poesia é um instrumento que também concorre para a criação dum mundo cada vez mais humano. De acordo com as memórias de Pablo Neruda, inseridas no seu livro “Confesso que Vivi”, falando de Paul Éluard de quem fora amigo, revela-nos: “Para E?luard, ser um comunista era confirmar com sua poesia e sua vida os valores da humanidade e do humanismo. Na?o se pense que E?luard foi menos poli?tico que poeta”.

Este “Poeta da Liberdade” pertence a uma geração de escritores do século XX cuja militância política foi, fundamentalmente, de cariz literária, uma espécie de engajamento pela “práxis” poética, já que duma forma geral a poesia, de per si, dá aos seus produtores a possibilidade de ser militantes da causa humana mesmo sem “filiação partidária”. E muitos dos escritores desta geração acabaram ou expulsos ou abandonando a sua ligação político-partidária. Temos como exemplos, Sartre, André Breton, o próprio Paul Éluard que, em algum momento, viram-se na contingência de se dissociar do partido comunista francês, mas nem por isso desistiram da sua luta fundamental.

Paul Éluard é autor do famoso poema  “Liberdade” que, durante a segunda guerra mundial, circulou clandestinamente pela Inglaterra, já com a França ocupada pelos nazistas. Pela sua força o poema foi transformado num panfleto antinazista e, por isso, traduzido para várias línguas e depois espalhado por aviões dos aliados na França, e não só, encorajando assim a resistência contra a ocupação nazista. Tem graça que este grande feito deveu-se a um falante da língua portuguesa, o pintor brasileiro Cícero Dias (1907, Pernambuco – 2003, Paris), que secretamente enviara o poema para a Inglaterra. Eis aqui algumas estrofes deste poema:

 

LIBERDADE

 

Nos meus cadernos de escola

Na minha carteira e nas árvores

Nos areais e na neve

Escrevo o teu nome

 

Em todas as páginas lidas

Em todas as páginas brancas

Pedra sangue papel cinza

Escrevo o teu nome

(...)

Nas maravilhas das noites

No pão branco dos dias

Nas estações enlaçadas

Escrevo o teu nome

(...)

Na clara espuma das nuvens

Nos suores da tempestade

Na chuva insípida e espessa

Escrevo o teu nome

(...)

Sobre a saúde refeita

Sobre o perigo dissipado

Sobre a esperança esquecida

Escrevo o teu nome

 

E pelo poder da palavra

Recomeço a minha vida

Nasci para te conhecer

Nasci para te nomear

Liberdade

 

Juntamente com André Breton, Pablo Picasso, Louis Aragon, entre outros, Paul Éluard participou do dadaísmo (movimento artístico dos vanguardistas europeus do século XX, os quais impulsionaram as ideias surrealistas a nível das artes e literatura). Aliás, mais tarde Éluard tornar-se-ia no maior poeta surrealista francês.

Ainda nas memórias de Neruda, pode-se ler o seguinte: “Desfrutei do prazer poe?tico de perder muitas vezes tempo com Paul E?luard. Se os poetas respondessem de verdade a?s indagac?o?es, revelariam o segredo: na?o ha? nada ta?o belo quanto perder tempo. Cada um tem seu estilo para essa antiga actividade. Com Paul na?o me dava conta do dia nem da noite que passava e nunca soube se tinha importa?ncia ou na?o o que conversa?vamos”. Note-se que neste depoimento há uma dose de surrealismo, próprio de quem conheceu e conviveu de perto não só com a obra como também com a pessoa de Paul Éluard.

Paul Éluard morreu em novembro de 1952, e em homenagem a este grande poeta Pablo Neruda escreve o seguinte: “Foi meu amigo de todo dia e perco sua ternura que era parte de meu pa?o. Ningue?m me podera? dar agora o que ele levou consigo porque sua fraternidade activa era um dos mais preciosos luxos de minha vida. Torre da Franc?a, irma?o! Inclino-me sobre teus olhos cerrados que continuara?o me dando a luz e a grandeza, a simplicidade e a retida?o, a bondade e a simplicidade que implantaste sobre a terra.”


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