Samora Machel na memória do povo e do mundo (cultura: sol que nunca desce)

Vou descrever, em forma de testemunho, a minha experiência e vivência cultural na relação com o Presidente Samora Moisés Machel, seus ensinamentos sobre o papel e a importância da cultura na criação de uma sociedade nova. Escolhi propositadamente o termo “testemunho”. Em certa medida, o termo descreve toda uma geração que ganhou consciência de si própria num momento bastante especial, nomeadamente no momento da criação e formação duma nação. A minha geração nasceu numa terra que não era a sua pátria porque invasores estrangeiros haviam definido essa terra duma forma jurídica que tornava a maioria da população estrangeira na sua própria terra. Quando em 1975 se proclamou a independência nacional pela voz inconfundível de Samora Machel criou-se também uma bandeira ao abrigo da qual a geração apátrida ganhou nacionalidade.

Nascida em período colonial, essa geração foi tecnicamente um nado-morto. Proclamada a independência, porém, essa geração também renasceu. O que importa enfatizar neste contexto é o que liga os dois momentos, isto é o momento do nado-morto e o momento do renascimento. O que liga os dois momentos é a cultura num sentido muito profundo do termo. A consciência de sermos estrangeiros em própria terra levou ao desconforto, o qual, por sua voz, levou à resistência por alguns dos melhores filhos dessa terra usurpada. Tal como disse Amílcar Cabral, ícone da libertação de Cabo Verde e Guiné, mas também de toda a África, o acto de resistência é um acto profundamente cultural. Nele se afirma uma identidade e uma identidade é o compromisso com valores que precisam dum espaço próprio para se afirmarem. Neste sentido, a proclamação da independência nacional criou um espaço cultural que precisava de ser preenchido. O testemunho que presto neste texto é ao papel de Samora Machel na criação de condições para que a veia artística que dormia no leito da humilhação colonial despertasse e preenchesse o espaço aberto representado pela independência.

 

O meu enfoque vai incidir, especialmente, sobre:

  • a) Cultura na concepção teórica da Frelimo;

 

  • b) Estratégias adoptadas na construção da nova República;

 

  • c) Criação de instituições e a promoção de intercâmbios culturais;

 

  • d) Festivais Nacionais;

 

  • e) Companhia Nacional de Canto e Dança - CNCD;

 

  • f) Diplomacia Cultural através da Companhia Nacional de Canto e Dança – CNCD.

 

1- A CULTURA NA CONCEPÇÃO TEÓRICA DA FRELIMO

 

Desde a Luta Armada de Libertação Nacional a cultura foi sempre definida como uma das questões centrais para o triunfo do projecto de criação duma nação moçambicana. Vimos, ainda que brevemente, porquê: a resistência em si foi um acto cultural. E não só. A Frelimo, ela própria, é um fenómeno cultural. Primeiro porque ela significou o despertar duma consciência suficiente soberana para reclamar o seu espaço no concerto das coisas. Segundo porque ela resultou da conjugação de esforços e vontades de pessoas de diferentes sensibilidades em prol da libertação. Os três movimentos que procuravam, cada um à sua maneira, combater o colonialismo eram vontades que testemunhavam a energia que há muito se constituía para dar à luz uma nacionalidade.

Ao articular o desiderato de liberdade e soberania a Frelimo documentou que a ideia de Moçambique se alimentava duma cultura viva, prenhe de valores e sedenta de ocupar o espaço dentro do qual ela podia se realizar em pleno. A Frelimo trouxe o conceito de Nação e da Unidade de todos os moçambicanos na luta contra a colonização. Ela trouxe também a convicção segundo a qual com a unidade do povo seria possível lutar e sair-se vitorioso. Em certa medida, portanto, podemos dizer que com os conceitos de Unidade Nacional, de Nação, de Povo, de Emancipação da Mulher, os fazedores da nossa nacionalidade constituíram fenómenos culturais novos que, até hoje, requerem atenção especial de toda a sociedade moçambicana, das forças políticas e da sociedade civil.

É neste sentido profundo que a Luta Armada, ao engajar todo o Povo, sem descriminação de raça, da tribo, da religião, na luta contra o colonialismo, constituiu, em si, um acto libertador da cultura moçambicana. Foi daqui que nasceu o que foi conhecido na altura como, e se pretendia que fosse a Revolução Cultural ou Cultura Revolucionária, orientada no sentido da construção do Homem Novo, livre dos aspectos negativos que caracterizavam o sistema colonial e o sistema tradicional-feudal. É importante, talvez, salientar que estamos a falar dum período bem específico da nossa história. Ele não só se caracterizou pela formação da nossa nacionalidade como também pelas condições em que essa nacionalidade devia ser formada. Os que fizeram a luta pela liberdade e proclamaram a nossa independência fizeram-no animados de ideias políticas bem precisas inspiradas num vocabulário marxista. Esse vocabulário foi preponderante na articulação não só do que a cultura moçambicana devia ser como também na definição das fronteiras ideológicas dessa cultura.

É por esta via que devemos, por exemplo, ler o Programa do Partido Frelimo aprovado pelo III Congresso. A dado passo ele diz: “A cultura constitui uma arma de grande valor na educação revolucionária do nosso Povo e por isso mesmo na luta ideológica” (referência). Ou por outra, a cultura, naquele contexto, não seria apenas a libertação duma criatividade condenada durante séculos ao cativeiro da negação cuja única forma de manifestação no contexto colonial era apenas pela via da folclorização. A cultura tinha um papel instrumental na materialização do programa político e ideológico dos libertadores da pátria.

Para o efeito, fez-se apelo ao que se considerou ter sido a simbiose cultural adquirida nas Zonas Libertadas e o despertar impetuoso do resto do País. Dois anos após a Independência verificava-se um avanço qualitativo muito significativo no conteúdo de certas manifestações culturais, como canção, dança, teatro e poesia.

Essas mudanças foram na altura atribuídas às transformações revolucionárias que se considerava estarem a ser operadas nos sectores económico e social e ao trabalho de educação política desenvolvido pelo Partido. Estas mudanças incidiam na transformação da visão do mundo e da vida, algo fundamental para um projecto de renascimento com forte cariz político e ideológico. Isto também se deveu ao tipo de manifestações referidas que foram aquelas que mais respondiam à espontaneidade da expressão popular e, quanto mais a que, tradicionalmente, se aprendeu.

A criação de novos conteúdos das nossas manifestações culturais podia ser fruto de mobilização. Mas só a mobilização não é suficiente para dar conteúdo ao espaço cultural anunciado pela independência. É preciso também que haja conhecimento e um certo domínio técnico. O reconhecimento desta distinção levou à criação de instituições vocacionadas para o ensino de arte.

Este introito serve para situar o contexto histórico que influenciou a visão de Samora e a teoria cultural da Frelimo que orientou o País no período em análise. Talvez mais do que ninguém, Samora Machel não só viu a independência em si como uma grande manifestação cultural, mas também como uma oportunidade para que cada um de nós, tal e qual ele também fez consigo próprio, fosse ainda melhor do que o seu lugar no contexto das coisas permitia que fosse. Há na evolução da cultura em Moçambique um traço forte da maneira como Samora Machel entendia os desafios da independência. Para ele a independência não era o fim da caminhada, mas sim o seu início. Caminhar não significava chegar ao destino porque esse, no processo de formação duma nacionalidade, não existe. Caminhar significava trabalhar em nós mesmos para sermos melhores do que nós próprios.

O nado-morto que a minha geração foi renasceu acima de tudo porque se reinventou como cultura. Para mim, como fazedor de cultura, esse renascimento significou descobrir a minha vocação profissional. Tive a sorte de estagiar no “Berliner Ensemble” de Bertold Brecht e, desse modo, responder ao desiderato do poder da altura de introduzir profissionalismo na produção cultural nacional. Brecht, como se sabe, inaugurou uma nova forma de fazer teatro, nomeadamente o “teatro épico”. Esta forma teatral misturava o dramático e o épico para criar um distanciamento crítico do espectador em relação ao que acontece no palco. O objectivo não era de criar emoções no espectador. Isso fazia o teatro que na altura era, pejorativamente, chamado de teatro burguês. Não, o objectivo era de suscitar no espectador a vontade de transformar a sociedade. Neste sentido, o teatro épico enquadrava-se perfeitamente na concepção política dominante. Foi esta forma de teatro que aprendi e apliquei em obras teatrais como "A Bonda de Deus e a Miséria do Povo", "O Jovem André" e "A Fruta da Riqueza" assim como em bailados como "NTsay", "A Noiva de Nha-Kebera" até "Sonhadores". Com estas obras não me integrava apenas no discurso político dominante. Eu também transformava a minha própria biografia em retrato singular, ainda que isolado, da epopeia da liberdade. Samora Machel também foi isto para muitos da minha geração: um facilitador da reconciliação entre o talento e a nacionalidade.

 

2- ESTRATÉGIAS ADOPTADAS NA CONSTRUÇÃO DA NOVA REPÚBLICA

 

Como corolário da luta vitoriosa contra o colonialismo foi criado, em 1974, aquando do governo de transição, o Ministério da Educação e Cultura dirigido por dois destacados Quadros da Frelimo, nomeadamente Guideon Ndove e Graça Simbine. A sua tarefa era de criar condições para uma tranquila transição e transferência de poderes para as novas estruturas criadas ou a criar no período após a Independência.

A grande maioria das instituições criadas nessa altura tinha uma base de referência a partir das estruturas coloniais. Na área da cultura, não havia muita coisa que pudesse servir de referência. Isto obrigou a que tudo fosse criado a partir do quase nada. Havia alguns serviços espalhados em diferentes instituições, como: CIT- Centro de Informação e Turismo, RCM- Rádio Clube de Moçambique, JAST- Junta de Acção Social no Trabalho. Porém, o essencial dos serviços, como os da autorização de espectáculos, estavam centralizados numa secção do Departamento da Educação que trabalhava em estrita ligação com a PIDE/DGS (Comissão de Censura). Era nessa secção onde se remetiam os documentos de pedido para a realização de espectáculos, onde deviam constar os temas de músicas ou peças teatrais que iriam ser interpretadas e o resumo explicativo, em português. Essa era a forma de acautelar se as letras das canções ou peças de teatro tinham ou não conteúdos subversivos.

Esta situação muda radicalmente em 1974 com a entrada em acção dos Grupos Dinamizadores. Estas estruturas de base da Frelimo garantiram na altura que em todos os sectores da vida política, económica e social, houvesse manifestações culturais, pelo menos de canto e de dança. Nas escolas agregavam-se o teatro e a poesia. As canções revolucionárias e a poesia de combate ensinadas nas reuniões dos grupos dinamizadores e nas escolas massificaram-se de tal modo que as reuniões populares não podiam iniciar e terminar sem que se entoassem canções revolucionárias como: KANIMAMBO FRELIMO, TIYENDE PAMODZI ou outras que se mostravam oportunas, de acordo com os assuntos a tratar ou tratados nessas reuniões.

É neste contexto que Samora, ele próprio, se torna num dos dirigentes conhecidos no mundo como aquele que usou a canção como veículo de mobilização e de transmissão de mensagens educativas. Antes de iniciar com as grandes reuniões populares, baptizados de comícios, ele sempre entoava uma canção revolucionária que, prontamente, era acompanhada por um coro de milhares de vozes, cerca de 10 a 15 mil pessoas que acorriam voluntária ou coercivamente aos seus comícios. Eles duravam entre 3 a 4 horas e não eram cansativos devido às mensagens dos discursos proferidos que, por vezes, eram por ele interrompidos para entoação de canções revolucionárias. Para Samora, a canção era um veículo privilegiado para transmissão de directrizes da sua governação. As canções tinham por objectivo motivar o povo em torno da causa que ele havia definido como sendo nacional, em vários domínios políticos, económicos e sociais.

O seu apego à cultura, conhecido desde a Luta Armada, onde sempre incentivou a prática das manifestações culturais, quer em Nachingweia, quer nos Centros Educacionais de Tunduru e outros, (incentivou a) através de criação de grupos culturais em todos os sectores da esfera social e económica do País. Isto foi porque entendia que as manifestações culturais e os festivais eram uma grande contribuição para a unidade nacional e para o desenvolvimento da cultura moçambicana. São dele as seguintes palavras, ditas no período da Luta Armada da Libertação Nacional: (...) na arte se procura combinar a forma antiga com o conteúdo novo e depois se origina a forma nova”.Que a dança, a escultura, o canto, tradicionalmente cultivados, se junta a pintura, a literatura escrita, o teatro, o artesanato artístico. Que a criação de uns se torne a criação de todos, homens, mulheres, jovens e velhos do Norte e do Sul, para que de todos nasça a nova cultura revolucionária e moçambicana.

Repare-se neste trecho o que escrevia mais acima sobre a resistência como acto cultural. É, na verdade, este espírito que alimentou e galvanizou o movimento artístico e cultural do pós-Independência. Em termos teóricos este espírito, no período em análise (1974-1983), pode ser sintetizado no poema intitulado “A Cultura”, escrito pelo próprio Samora Machel:

A CULTURA

A cultura é criada pelo Povo,

Não a criam os artistas.

A burguesia não produz arte:

Falta-lhe a terra,

Falta-lhe a inspiração.

O Povo inspira-se todos os dias.

Vejam os camponeses...

A sua música fala da sua vida,

Da lavoura, das colheitas, da rega.

Conta como foi colhido o arroz,

A cabaça, a maçaroca...

Quando esta a trabalhar, a suar sob o sol,

O camponês canta.

Volta a casa

Com um cântaro de água na cabeça,

Pensa que tem de fazer fogo para cozinhar,

Vive a vida e canta a vida.

Nas noites, nas horas de descanso,

Quando a Lua-cheia o ilumina,

Canta o seu trabalho, conta as suas penas,

Seus sofrimentos, suas esperanças...

Canta a felicidade,

Canta a dança,

Pode ser triste ou alegre,

Uma referência a história

Ou um episodio quotidiano,

Mas, seja como for,

Tem um significado real.

Define um inimigo

E como lutar contra esse inimigo.

 

3- CRIAÇÃO DE INSTITUIÇÕES E A PROMOÇÃO DE INTERCÂMBIOS CULTURAIS

 

Com a proclamação da Independência Nacional houve uma consequente expansão à largura e extensão do País, do que era tido como o conjunto das experiências das zonas libertadas. Houve também uma explosão das manifestações culturais nos bairros, nas escolas, nos quartéis, nas empresas e nas instituições do Estado. Estas dinâmicas obrigaram o Governo a criar instituições apropriadas bem como a realizar intercâmbios internos e externos. Isto permitiu que o Povo desse vazão a sua criatividade e trocasse experiências entre si e também com o resto do mundo.

Assim, entre outras, regista-se a criação da Direcção Nacional da Cultura - DNC, Instituto Nacional de Artes e Cultura - INAC, Instituto Nacional de Cinema – INC, Instituto do Livro e do Disco – INLD, Centro de Estudos Culturais - CEC, Companhia Nacional de Canto e Dança- CNCD, Escola Nacional de Dança - END, Escola Nacional de Música - ENM, Museu Nacional de Arte - MUSART, Serviços Provinciais da Cultura, Casas de Cultura e muitas outras instituições que subsistem até aos dias de hoje.

Assim foi porque constituía preocupação do Governo de Samora Machel encontrar métodos apropriados de enquadramento de talentos que já se revelavam. A ideia era que se acumulasse uma experiência organizada de trabalho conjunto. Essa experiência deveria conduzir à criação de embriões de organização de grupos polivalentes, grupos profissionais e organizações de artistas (Músicos, Escritores) e outros.

Para responder à directiva do Partido de “orientar e estimular a actividade artística no seio das massas populares” e ir ao encontro da necessidade de ligar os artistas com as camadas juvenis, principalmente nas escolas, o Governo também formou um amplo movimento de Animadores Culturais espalhados por todo o País. Ao fazer isso cumpria uma vez mais uma recomendação do Presidente Samora Machel, segundo a qual “O artista de hoje deve estimular o nascer do artista de amanhã”. Isto acrescia-se à formação de artistas profissionais, quadros e técnicos da área da cultura, levado a cabo pelo CEC e escolas de formação artística. O seu objectivo era de dinamizar as actividades culturais.

Quanto à crença generalizada na altura, segundo a qual cultura seria apenas música, canto, dança e teatro, importa notar que ela derivou do facto de nos primeiros anos da Independência o esforço de desenvolvimento da actividade cultural ter sido obra das populações. Estas limitavam-se aos campos artísticos que eram mais do seu domínio.

Para o Partido e Governo era importante aprofundar e explorar essas manifestações culturais na generalidade no seio das massas populares, para que de tradicionais e regionais se impregnassem valores considerados na altura verdadeiramente revolucionários, se constituíssem património cultural nacional e um forte instrumento de unidade do Rovuma ao Maputo como era o desiderato da ordem política nessa altura.

Não obstante, do mesmo modo que havia preocupação em dar resposta à manifestação cultural de massas, também havia preocupação pela preservação do Património Cultural material e imaterial. Para o efeito, foi desencadeada, ao nível nacional, a Campanha Nacional de Preservação e Valorização Cultural para responder às necessidades urgentes de se proceder à recolha da tradição histórica e a recolha da tradição cultural. Dada a ausência de pessoas preparadas para efectuar esse trabalho, os Serviços Nacionais de Museus e Antiguidades formaram um grupo de jovens designados Agentes de Preservação Cultural para dinamizar esse processo em todo o País. Com a recolha e o registo fiel dos elementos recolhidos, criaram-se, em todo o País, o que foi conhecido por Depósitos Museológicos, cuja primeira preocupação foi de depositar os materiais recolhidos para posterior estudo e interpretação. Este trabalho incluía, igualmente, a inventariação, preservação e conservação do património físico local, como monumentos, sítios, florestas sagradas, edifícios e bases da Luta Armada, etc. Foi esta Campanha que ditou, mais tarde, a criação do ARPAC – Arquivo do Património Cultural que, mais tarde, se transformou em Instituto de Investigação Sócio- Cultural.

 

4- FESTIVAIS NACIONAIS

 

O momento mais alto da política cultural, inspirada e orientada por Samora Machel e referente ao Intercâmbio Cultural Nacional, foi a realização dos Festivais Nacionais de Dança Popular, em 1978, e de Canção e Música Tradicional, em 1980.

A necessidade da realização destes eventos pode ser resumida no teor de um dos comunicados emitidos, na altura, pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC, que passo a citar: “...Hoje o nosso Povo é livre e soberano, exerce os atributos da sua soberania e do seu poder cultural, impulsionando e organizando as diversas formas de expressão dos seus sentimentos e aspirações através da sua cultura e arte.”

Por isso, a realização do 1ºFESTIVAL NACIONAL DE DANÇA POPULAR será, antes de tudo, um acontecimento político alcançando, entre outros, os seguintes objectivos:

Reafirmar a necessidade da Revolução Cultural, dirigida pela aliança de operários e camponeses, como factor decisivo de transformação da sociedade, como exigência do processo de transição para o socialismo;

Reforçar as bases materiais e culturais da Unidade Nacional;

Promover o conhecimento da riqueza e diversidade do nosso Património Cultural;

Manifestar a nossa vontade firme de assumir a defesa intransigente da Revolução;

Manifestar a nossa vontade inabalável de combater todas as forças de divisionismo – tribalismo, regionalismo, racismo e elitismo;

Afirmar a justeza e correcção da linha política definida pela FRELIMO nosso PARTIDO DE VANGUARDA;

Testemunhar a nossa determinação de construir o HOMEM NOVO, votado a causa do socialismo, do progresso e da paz;

Desenvolver a consolidação da personalidade moçambicana.

 

Importa referir ainda que este festival foi um dos maiores movimentos culturais de massas realizados até aos dias de hoje. Decorreu de Janeiro a Junho de 1978 e movimentou milhares de praticantes, artistas, músicos e participantes e público espectador, a partir da fase das localidades, seguida da fase das capitais Provinciais, através de um processo competitivo, destinado a apurar a melhor representação de cada nível. Foram registadas cerca de 250 danças diferentes em todo o País. Por isso se afirma que a dança é o maior espólio cultural que o Povo e o País possuem e que exprime, de forma mais profunda, a diversidade e a riqueza do mosaico cultural moçambicano. A cerimónia de abertura da sua fase final, onde desfilaram 600 artistas, representando as 10 províncias, foi no majestoso Estádio da Machava. Estava completamente lotado e contou com a presença do Presidente Samora Machel, principal mentor destes eventos.

Em 1980, dois anos depois do Festival de Dança, realizou-se o 1º. FESTIVAL NACIONAL DE CANÇÃO E MÚSICA TRADICIONAL, o que colocava Moçambique no top dos Países africanos que mais investiam na cultura popular, apesar de ser um País recém-independente. Este festival, na sua fase final, incluiu uma componente internacional como parte da grande festa. Para além dos artistas nacionais, actuaram igualmente artistas vindos da Argélia, dos EUA, integrados numa orquestra Zimbabweana – Dumi and Marere Marrimba Ensemble, e a famosa cantora sul-africana Miriam Makeba. Foi nesta ocasião que ela interpretou, pela primeira vez, a canção “Moçambique a Luta Continua” em reconhecimento e homenagem a Samora pelo seu comprometimento com a cultura e com a libertação e solidariedade com outros Povos, ainda sob jugo colonial ou na sua luta contra o imperialismo.

A preocupação de Samora pelo Intercâmbio nacional e internacional era de aproximação e promoção da amizade entre os Povos. Foi isto que o levou a assinar Acordos de Amizade com vários países do mundo, onde se incluía a cooperação nos domínios da cultura. Foi nesse âmbito que Moçambique enviou delegações culturais para várias partes do mundo e também recebeu delegações culturais de outros países que actuaram em vários pontos do País. Também acolheu técnicos e professores de diferentes disciplinas artísticas vindos do continente africano e da Europa, da Ásia e da América. Todos eles participaram na formação de moçambicanos nos vários domínios da arte e cultura.

A Frelimo, desde o período da Luta Armada, sempre participou, com delegações culturais, em Festivais Culturais Internacionais, realizados em vários pontos do mundo, como forma de divulgar e mobilizar a opinião internacional sobre as causas da luta pela independência e atrair apoios da comunidade internacional para essa causa. Como um dos exemplos temos: o VII Festival Mundial de Juventude e Estudantes, realizado na antiga República Democrática de Alemanha em 1973, onde Moçambique, representado pela Frelimo, se exibiu de uma forma excelente e atraiu muita solidariedade e simpatias das delegações dos países presentes no Festival.

Após a proclamação da Independência Moçambique seguiu na mesma direcção, usando diplomacia cultural, para promover a imagem do País e estreitar relações de amizade com outros Povos. Assim, em Janeiro de 1977, o governo decidiu enviar uma delegação numerosa, chefiada por Gabriel Simbine, então Director Nacional da Cultura, para participar no FESTAC- Festival Pan-africano de Artes e Cultura, realizado em Lagos, Nigéria.

Desde então, a diplomacia cultural conheceu grandes desenvolvimentos protagonizados por vários artistas de todas as disciplinas que, com frequência, visitavam vários países, sobretudo, de orientação socialista. Nessas viagens de pintores, músicos e escritores, o destaque vai para a Companhia Nacional de Canto e Dança, sobre a qual gostaria de tecer algumas considerações especiais em virtude de ter feito parte da sua epopeia.

 

5- COMPANHIA NACIONAL DE CANTO E DANÇA

A Companhia Nacional de Canto e Dança, um dos maiores estandartes da cultura moçambicana, é considerada um dos projectos culturais muito bem-sucedidos do pós-independência. Foi recentemente galardoada com a medalha Eduardo Chivambo Mondlane de Primeiro Grau, uma das mais altas condecorações da República de Moçambique. CNCD foi a paixão e ao mesmo tempo um dos sonhos de Samora.

É por todos conhecida a paixão de Samora pelo canto e pela dança, que o fazia sempre empolgar sempre quando algum artista ou grupo se exibisse de uma forma que o impressionasse. Por essa razão, ele acarinhou muitos artistas e grupos culturais. A CNCD foi um destes grupos que ele acompanhou desde a sua criação, com a qual registou muitos factos interessantes.

Os antecedentes da criação da Companhia não fogem à regra. O ponto de referência vem do período de Luta Armada. Existiram nessa altura dois grupos muito importantes, entre vários, alguns inclusive constituídos pelos próprios combatentes da luta de libertação nacional. O Grupo Cénico das FPLM- Forças Populares da Libertação de Moçambique, baseado em Nachingweia, e o Grupo Cultural da Frelimo, baseado em Tunduro.

O Grupo Cénico das FPLM formado em Nachingweia, por combatentes jovens com experiências no mundo da música, teatro, canto e dança, depois de Assinatura dos Acordos de Lusaka, reconstituiu-se, já na cidade de Maputo, e produziu e apresentou peças que serviram de referência para o emergente movimento teatral de Moçambique, com temas como: “Três de Fevereiro” “Resistência Histórica, do Monomotapa a Independência” “Javali, Javalismo” e “Sagrada Família”, foram algumas das peças que arrastaram muito público da capital e espevitaram o interesse de muitos jovens por esta arte de representação.

O Grupo Cultural da Frelimo baseado em Tunduro, maioritariamente constituído por estudantes e professores, representou Moçambique em diferentes festivais na Europa e em África. Foi este grupo que inspirou a criação do Grupo Polivalente da DNC, por Gabriel Simbine, em 1976. Por sua vez, o Grupo Polivalente da DNC serviu de embrião para a criação do Grupo Nacional de Canto e Dança, criado por Carlos Jorge Silia, em 1979.

Os Grupos Cénico das FPLM e Cultural de Tunduro não só foram responsáveis pelo surgimento e expansão do movimento artístico do pós-independência como também forneceram os primeiros quadros que dirigiram a cultura nesse período.

Gabriel Simbine foi o primeiro Director Nacional da Cultura e fundador do grupo da DNC; Carlos Jorge Silia foi Director do Instituto Nacional da Cultura e fundador do Grupo Nacional de Canto e Dança; Salomão Júlio Manhiça, um dos autores do rico hinário da Frelimo, incluindo o Hino da Mulher Moçambicana e o Hino Nacional Pátria Amada, foi Director Nacional da Cultura a partir de 1978 e, tendo chegado, mais tarde, ao cargo de Vice-Ministro do mesmo pelouro em 1995. Todos os mencionados aqui eram provenientes desses dois Grupos.

Silia e seus correligionários do Grupo de Tunduro eram exímios artistas à batuta do Mestre Simbine. Tendo em conta as suas experiências, a então Ministra da Educação e Cultura, Graça Machel, fez o possível para juntar estes Mestres e cumprir com a directiva máxima da Frelimo de “o artista de hoje deve(r) estimular o nascer dos artistas de amanhã”. A estes Mestres juntaram-se Aurélio Le Bon, Moreira da Silva, José Bragança e eu próprio, David Abílio, primeiros quadros séniores não provenientes da Luta Armada, integrados na Direcção Nacional da Cultura.

A missão deste grupo de primeiros quadros da cultura a nível central foi justamente a de fazer a transferência da experiência do grupo do Tunduro, que no seu performance representava o mosaico cultural do País, para o grupo de estudantes recém-formados, e que ficou conhecido com o nome de Grupo Cultural da DNC- Direcção Nacional da Cultura, instituição responsável por este grupo. Este grupo era constituído, inicialmente, por 400 estudantes das Escolas Secundárias de Maputo e foi criado em 1976 para celebrar o primeiro aniversário da Independência Nacional.

Devido ao seu elevado nível técnico, artístico e organizacional o grupo, que se dedicava à dança, teatro, poesia e canto coral, tornou-se, muito cedo, num modelo de referência para todos os grupos polivalentes criados em todas as Províncias do País. Foi este grupo que serviu de base para a montagem das delegações culturais que visitaram Nigéria, Cuba, Swazilândia e Tanzânia, para além das digressões pelo País, onde actuava nas capitais provinciais, nas sedes distritais e em algumas localidades, principalmente, nas Aldeias comunais.

Com a extinção do 6º e 7º ano do Liceu para dar lugar à formação de professores e de outros quadros e técnicos que o País necessitava o grupo da DNC, constituído maioritariamente por estudantes, ficou afectado. Muitos dos seus membros foram atingidos por esta medida e tiveram que sair do grupo. A experiência técnica, artística e organizativa adquirida no trabalho com este grupo de estudantes permitiu que, em 1979, fosse criado o Grupo Nacional de Canto e Dança, que mais tarde tomou o nome de Companhia. Foi constituído por bailarinos e músicos vindos das Organizações Democráticas de Massa, Empresas e combatentes das FPLM, sem incluir estudantes.

O Grupo Nacional de Canto e Dança hoje denominado Companhia Nacional de Canto e Dança – CNCD, criado em 1979, e herdeiro das experiências de inúmeros grupos que o antecederam, materializava assim o pensamento de Samora, referente à orientação no domínio da cultura. O nado-morto renascido com a independência profissionalizou-se. A cultura continuou algo espontâneo como toda a manifestação cultural deve ser. Mas também ganhou um carácter mais profissional equilibrando o desiderato político da época com a necessária liberdade criativa sem a qual a verdadeira cultura morre. Nisso também era evidente a assinatura de Samora como grande impulsionador da cultura que foi.

 

DIPLOMACIA CULTURAL ATRAVÉS DA COMPANHIA NACIONAL DE CANTO E DANÇA – CNCD

A criação e a trajectória da CNCD corresponde à ideia e à importância que Samora atribuía à “Diplomacia Cultural”. Coube a este grupo a missão de divulgar a cultura moçambicana, promover a imagem de Moçambique no exterior e contribuir para o estreitamento das relações de amizade entre os Povos. É nesta senda que a Companhia se exibiu em cerca de cem cidades espalhadas nos cinco continentes do mundo e colheu muitos louvores e, de igual modo, críticas especializadas e trouxe para o País muito prestígio e prémios pelas suas actuações.

Aquando da sua criação em 1979, a CNCD tinha uma missão pela frente. Era de responder a uma promessa feita por Samora Machel a alguns países das Caraíbas, nomeadamente, Cuba, Jamaica e Guiana, que ele visitou quando regressava de Nova Iorque, onde participou pela primeira vez na Cimeira de Chefes de Estado da ONU.

Aclamado nesses Países como Líder e Chefe de Estado mais carismático de África, ele prometeu enviar um grupo cultural para que esses Povos tivessem algum conhecimento sobre o Povo que eles apoiavam e admiravam desde o tempo da Luta Armada. Samora tinha a consciência de que os artistas podiam fazer melhor o papel de Embaixador porque a mensagem e o impacto das suas actuações podia atingir mais gente, de todos os extractos e de uma forma directa, para além de divulgarem através dos órgãos de comunicação social ao fazerem referência aos seus espectáculos.

Por isso, ele teve sempre o cuidado de acompanhar de perto as suas actuações, quer em todas as galas que eram oferecidos aos Chefes de Estado que visitavam o País, quer em cerimónias no Palácio da Ponta Vermelha. Conversava com os artistas, corrigia determinados movimentos mal executados e até cantava com eles como aconteceu na Roménia, onde casualmente nos encontramos quando estava de visita aquele País. Preocupava-se em saber sobre a situação dos artistas, como aconteceu, por exemplo, em Berlim, onde mandou um valor para reforçar o dinheiro de bolso para as ajudas de custo.

Estimulava os artistas sempre que fizessem actuações extraordinárias. Isto aconteceu, por exemplo, com o espectáculo de gala do 10º aniversário da Independência em 1985 intitulado “Em Moçambique o Sol Nasceu” da minha autoria. Para além do prémio que atribuiu a CNCD e ao seu autor, organizou um jantar para os artistas no Hotel Polana, com a presença de algumas ilustres figuras, como foi o caso do Eusébio Ferreira da Silva. Muitos dos artistas entravam pela primeira vez naquele hotel e outros tiveram o privilégio de sentarem na mesma mesa com um Chefe de Estado. Era tanto o carinho que Samora nutria pelos artistas.

A CNCD fazia, muitas vezes, parte da equipe de avanço das visitas que ele efectuava. Isto aconteceu, por exemplo, com a sua primeira visita a Portugal, em 1980, que foi antecedida por actuações brilhantes deste grupo, numa Semana memorável da cultura moçambicana.

Estes exemplos, particularizados aqui, testemunham o profundo amor e reconhecimento do papel dos artistas na construção de uma nova Nação, o seu contributo para cimentar e reforçar os laços da Unidade Nacional, na promoção da moçambicanidade, no resgate e consolidação da auto-estima e também a sua contribuição para o entendimento e estreitamento de amizade e solidariedade entre os Povos.

Pintores como Malangatana ou Naguib, escritores como Rui Nogar ou José Craveirinha e bandas musicais como Ghorwane, os artistas idos das Províncias como Obadias de Chókwe, Yuphuru de Nampula, Mbanguia de Cabo Delgado e tantos outros poderiam desfilar e legitimar histórias e testemunhos sobre o papel de Samora no resgate da cultura e promoção da auto-estima dos moçambicanos.

 

CONCLUSÃO

Esta contribuição é um testemunho. Testemunha a irradiação cultural que nasce do acto de içar uma bandeira. Essa irradiação não se reduz apenas aos propósitos políticos do momento. Ela é também a descrição da energia que a independência libertou. A energia de se afirmar uma identidade assim como a energia de criar condições para que essa identidade se realize no empenho pessoal. É difícil pensar o significado da cultura sem incluir nessa reflexão Samora Machel e o que ele representou naquela altura em termos do projecto político que se seguia.

Não é toa que o slógan que acompanhou a produção e afirmação cultural em Moçambique sempre foi “Cultura: Sol que nunca desce”. Nascida oficialmente no dia 25 de Junho de 1975 depois de concebida e fecundada na resistência anti-colonial a cultura despontou como o sol, subiu e fixou residência no seu zénite. O seu lugar é lá em cima para irradiar a liberdade, a auto-estima, a dignidade que nos foi roubada e que por conta das atribulações de todo o processo de formação de nação nos roubamos a nós próprios, assim como a nossa vontade de mantermos a nossa soberania como nação. Esse sol não pode descer porque se desce é o fim da epopeia. Seria uma traição ao ideal de liberdade de Samora, homem que soube que ao acarinhar a cultura e seus fazedores mais não fazia senão manter acesa a chama da independência. Hoje em dia, o conceito de cultura é mais plural, não é mais refém duma ideologia política. Não obstante, o que e essencial nela continua a ser o que Samora nela viu, nomeadamente a celebração da nossa dignidade assim como a afirmação do nosso compromisso com a necessidade de honrarmos o nosso talento. O talento dum indivíduo pode ser artístico, académico, artesanal, político, económico, etc. O talento duma nação, porém, é a sua capacidade de se rever na sua cultura. Samora entendeu isto mais do que qualquer outro.

Espero que este testemunho cubra o sentimento de todos os artistas que viveram no tempo de Samora Machel.

 

 

*Texto de 2016, pela primeira vez publicado na imprensa.


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