50 dias de escrita e uma suspensão, e depois?, 5 mil euros para Sérgio Raimundo

50 dias de escrita e uma suspensão, e depois?, 5 mil euros para Sérgio Raimundo

Sérgio Raimundo “suspendeu” um Poeta Militar que vivia dentro de si, desde muito novo. Por isso, largou os versos por tempo indeterminado. A prioridade do autor que se apresentou às letras como poeta passou a ser a narrativa, sobretudo agora que acaba de vencer o tão importante Prémio INCM/ Eugénio Lisboa. Mas como tudo aconteceu? O que a ascensão de Sérgio Raimundo na ficção tem a ver com a suspensão do Poeta Militar, seu pseudónimo?

50 dias antes de o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa encerrar as candidaturas, Sérgio Raimundo começou a escrever o seu A Ilha dos mulatos, texto com o qual venceu a 3ª edição daquele concurso literário. O anúncio foi feito esta sexta-feira. Antes de se tornar quase “viral” no facebook, a informação foi dada ao autor por alguém da Embaixada de Portugal em Moçambique, através de uma ligação telefónica. Presente de Natal antecipado. Cinco mil Euros zás… no bolso do escritor… sem aviso prévio.

Parece que estava escrito em algum lugar que 2019 seria o ano de Sérgio Raimundo, afinal, há quatro meses nasceu o seu primeiro filho, que se encontra de baixa no Hospital Central de Maputo. Bem dito, o escritor ficou a saber que era o vencedor da 3ª edição do Prémio INCM/ Eugénio Lisboa momentos depois de ter sido informado pela mulher que a cirurgia do filho já não aconteceria no dia previsto. Houve um adiamento. Então, a notícia do prémio veio-lhe colorir o dia cinzento: “Foi um momento único. Naquele instante tive uma felicidade enorme”, afirmou Raimundo, clarificando a seguir que o seu texto, na verdade, é uma carta de amor à Ilha de Moçambique, onde se passa a maior parte da história.

Ora, além de ser essa carta, A ilha dos mulatos ficiona a actual realidade moçambicana, retratando situações como ataques em Cabo Delgado, o racismo, a homossexualidade e os efeitos de algumas doenças: a surdez, a síndrome de Down e alzheimer, que afectaram pessoas próximas ao autor.

Essencialmente, a história premiada é sobre uma família luso-descendente, que vive na Ilha de Moçambique, em vias de desaparecer. No enredo há mortes e investigação que aproximam a narrativa a um policial. “Além disso e de aspectos filosóficos, quis inserir na história mais elementos, mas ao fim de mais ou menos um mês e duas semanas tive de submeter o texto ao concurso”, disse o escritor, adiantando que na sua história cada personagem é dona da sua própria narração.

Sérgio Raimundo vem da poesia. Há muitos anos adoptou o pseudónimo Poeta Militar. Inclusive, chegou a publicar um livro de poemas: Avental de um poeta doméstico. Entretanto, quando menos esperava, perdeu o pai, um dos seus principais leitores. Com a morte do pai, o autor sentiu como que tivesse perdido um colectivo de leitores. E como o azar não vem só. Logo a seguir contraiu tuberculose, o que lhe custou seis meses de cama. Ultrapassada essa fase péssima da sua vida, o poeta teve necessidade de contar coisas. Aí, então, decidiu “suspender” o Poeta Militar” por tempo indeterminado. A vez agora é do escritor, que até possui mais projectos de ficção. Mas clarifica: “O poeta ainda existe dentro de mim, até porque a minha prosa tem lá muita poesia”. Logo, Sérgio Militar ainda se vê a escrever poesia, mas não tão já.

De acordo com o júri, constituído por Mbate Pedro (Presidente), Sara Jona e Paula Mendes, a atribuição do Prémio INCM/Eugénio Lisboa a A Ilha dos Mulatos tem como explicação o “facto de o autor entrelaçar criatividade e originalidade, com a gestão da polifonia e de fluxos de consciência, numa narração que convoca à preservação da memória sobre a Ilha de Moçambique”.

Nesta edição do prémio, com 12 candidaturas, houve duas menções honrosas para os textos O homem que vivia fugindo de si, de Japone Agostinho [Arijuane] e O amor que há em ti, de Néusia Pelembe.

Portanto, o Prémio INCM/Eugénio Lisboa premeia trabalhos inéditos no domínio da prosa literária. Além dos 5 mil euros (cerca de 350 mil meticais) atribuídos ao vencedor, o concurso contempla a publicação das obras distinguidas em cada edição, sempre com o propósito de estimular a produção literária moçambicana.

Sérgio Simão Raimundo nasceu em Maputo, em 1992. É licenciado em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane e actua como colunista, jornalista, crítico de literatura e cinema. Em 2015, publicou Avental de um poeta doméstico.

 

 

 

 

 

 


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