A África responde a Sarkozy

(Dedicado ao dia de África – 25 de Maio)

 

A 26 de Julho de 2007, o então Presidente da França, Nicolas Sarkozy, efectuou uma visita de trabalho ao Senegal, durante a qual proferiu um discurso na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, cujo conteúdo, contra todas as expectativas, foi considerado insultuoso, arrogante e racista, para a memória e inteligência africanas.

Um grupo de reputados intelectuais, sob a coordenação de MAKHILY GASSAMA, distinto e reconhecido pensador, responde ao Presidente Nicolas SARKOZY, face ao aludido discurso, que pode ser consultado, no site da presidência da República francesa, no seguinte endereço:

http://www.elysee.fr/documents/índex.php?mode=cview&press_id=261&cat_id=7&lang=fr

Diz-se igualmente que o discurso de Sarkozy teve, pelo menos, duas versões, uma pronunciada na Universidade e outra distribuída à imprensa. Esta outra versão, onde consta a famosa frase que fez correr muita tinta: “Foram Africanos que venderam aos traficantes de negros outros Africanos”, mas que não foi dita na Universidade, pode-se consultar no endereço:http://www.africara.com/index.php?page=contenu&art=1841&PHPSESSID=044c45260248abdddc803752c41a52cfV.

“A ÁFRICA RESPONDE A SARKOZY Contra o discurso de Dakar”, 2010,  (Edição angolana, INIC – Luanda, tradução de Idalina Morgado, 488 páginas), é uma obra colectiva de 23 intelectuais africanos de diferentes áreas de conhecimento, entre escritores, filósofos, sociólogos, economistas, juristas, historiadores, politólogos, linguistas, designadamente, Makhily Gassama (coordenador), Zohra Bouchentouf-Siagh, Demba Moussa Dembélé, Mamoussé Diagne, Souleymane Bashir Diagne, Boubacar Boris Diop, Babacar Diop Buuba, Dialo Diop, Koulsy Lamko, Gourmo Abdoul Lô, Louise-Marie Maes Diop,Keetly Mars, Mwatha Musanji Ngalasso, Patrice Nganang, Djibril Tamsin Niane, Théophile Obenga, Raharimanana, Bamba Sakho, E. H. Ibrahima Sall, Mahamadou Siribié, Adama Sow Diéye, Odile Tobner e Lye M. Yoga.

Na introdução do livro Makhily Gassama começa por dizer que “A ideia de dedicar uma importante obra colectiva ao discurso que o recém-eleito Presidente da República francesa pronunciou em Dakar, em 26 de Julho de 2007, na Biblioteca da Universidade Cheikh Anta Diop, brotou como que espontaneamente no meu espírito enquanto escutava o orador da nova direita francesa, a direita dita ‘descomplexada’.”

“Quando se trata de tentar proteger a dignidade de um continente, não há zelo possível: qualquer agitação é assim inútil e ridícula, mesmo prejudicial à acção. Levamos assim tempo a reagir às resoluções do Chefe de Estado francês, ao importante discurso que, certamente, ficará inscrito nos arquivos da descolonização; a nossa modesta ambição é a de fazer acompanhar esse precioso documento, o discurso de Dakar, na sua viagem no tempo e no espaço, pela obra colectiva que apresentamos.” (p.9/10)

Face às acusações tendenciosas e infundadas de Nicolas Sarkozy, dirigidas ao povo negro africano, Gassama reconhece, contudo, que não estamos inocentes perante os sofrimentos intoleráveis que o povo africano continua a suportar, como guerras fratricidas, genocídios, ditaduras, corrupções, esbanjamento e devastação dos nossos recursos, má governação, persistência do pacto colonial. Mesmo quanto àqueles males provocados e sustentados por forças exteriores, por indivíduos e grupos de interesses estrangeiros. “Contudo, é difícil deixar passar acusações, expressões de uma violência inesperada, dirigidas não aos tiranos de África, àqueles que reduziram África à mendicidade, mas ao ‘homem africano’, ao ‘negro’, à raça.” (p.11)

Makhily Gassama intitula seu artigo (que é o primeiro do livro) de “A Armadilha Infernal”, onde começa por dizer que “É necessário remoer o passado já que desejamos ser donos do nosso destino, dominar o presente e construir o futuro, já que os sinais precursores de uma recolonização de África se manifestam nas nossas relações actuais com a Europa.” (p.15)

Gassama prossegue acusando Sarkozy de ter profanado um Santuário do saber - a Universidade de Dakar – “porque ela constitui a nossa obra, o nosso orgulho, um dos raros símbolos de êxito da África das independências. Com talento, com tenacidade, com amor, com enormes dificuldades materiais e financeiras, (...) foram os jovens do continente que fizeram brilhar esta instituição pelo mundo fora, elevando-a ao nível dos grandes templos do saber.” (p.21)

Retorquindo aos que acusam a África de não ter história, acrescenta que a África já teve uma idade de ouro, para grande desgosto dos revisionistas e dos negacionistas de diferentes planos, e daqueles que se esforçaram, no decorrer dos séculos, por demonstrar desastrada e ridiculamente o contrário, querendo abalar, por assim dizer, através de meios artificiais, “os fundamentos autênticos da História do Homem, com a única preocupação desmedida, impertinente de manter o negro sob domínio dos outros grupos étnicos! A idade de ouro, para nós, existiu. Não é um mito. Está cientificamente provado.” (p.24)

“É a história dos homens, seja profana ou religiosa, que nos engana, desde Noé, desde a origem dos tempos. Não temos necessidade de ‘entrar na História’ já que somos o pulmão da História da humanidade. Não foi a civilização muçulmana, nem a colonização, ao contrário do que foi pretensiosamente referido pelo Presidente francês em Dakar, ‘que abriu os corações e as mentalidades africanas ao universal e à História’ “. (p.27)

Gassama cita o rei dos Belgas, Leopoldo II que, dirigindo-se aos missionários de partida para o Congo, discurso esse imbuído numa filosofia que é autenticamente, sem a menor dúvida, a da colonização, faz um apelo: “Pastores, ides seguramente para evangelizar, (...) O objectivo principal da vossa missão não é ensinar os negros a conhecer Deus. Eles já o conhecem desde os seus antepassados [...] Quero com isto, por conseguinte, dizer que interpretareis o Evangelho de um modo que Sirva para melhor proteger os nossos interesses nessa parte do mundo. Para o fazer, tereis que, entre outras coisas, desinteressar os nossos selvagens negros das riquezas que abundam no seu subsolo, a fim de evitar que eles se interessem por elas ou que nos façam uma oposição mortífera, sonhando um dia em nos expulsar antes que enriqueçamos. O vosso conhecimento do Evangelho permitir-vos-á encontrar textos que recomendam e que fazem amar a pobreza.” (p.28)

Gassama acusa também a francofonia de ser uma mentira grosseira. No lugar de ser “de dar e receber” a França resiste a qualquer troca franca, a qualquer abertura séria às culturas dos parceiros. Aliás, Gassama toca num problema que, em minha opinião, é de quase todas as antigas potências coloniais, pois assistimos isso em muitas áreas de cariz cultural nas nossas relações diárias com essas antigas potências coloniais, principalmente naquelas áreas de inteligência criativa, onde este “dar e receber” parece tender mais para o “dar” e menos para o “receber”.

Por seu turno, ZOHRA BOUCHENTOUF-SIAGH, no seu texto intitulado “Duplicidade e Tráfico da História”, acusa o discurso de Sarkozy de ser dum estilo, já de per si, afectado e mal escondendo a indigência do pensamento, “citações mordazes sem referência aos outros, desconhecimento assombroso da história dos povos e das culturas do continente africano mas, acima de tudo, uma incrível presunção do-que-sabe-tudo e vem dar lições!” (p.57)

Deixo aqui um pequeno trecho do tal abominável discurso de Nicolas Sarkozy:

[O drama de África é o homem africano não ter entrado o suficiente na História. O camponês africano, que há milénios, vive ao ritmo das estações do ano, cujo ideal de vida é estar em harmonia com a Natureza, só conhece o eterno recomeço do tempo ritmados pela repetição dos mesmos gestos e das mesmas palavras. Neste imaginário onde tudo recomeça sempre, não há lugar para a aventura humana, nem para a ideia do progresso. Neste universo, em que a Natureza domina tudo, o Homem escapa à angústia da História que atormenta o homem moderno, mas o Homem mantém-se imóvel no meio de uma ordem imutável onde tudo parece estar escrito com antecedência. O Homem nunca se lança para o futuro. Nunca lhe ocorre sair da repetição para inventar um destino para si.]

Mas que bobagem! Zohra entende que “O estudo do passado das sociedades e dos povos africanos (como de qualquer outro povo do planeta), a vontade de entender este passado com os meios habituais das ciências sociais, tal como são ensinados nas instituições, por todo o mundo, é uma ‘cisma’ inútil. Mas o que faz ele, no entanto, perante o seu auditório? Ele inventa, ‘conta histórias’ sobre todo um continente, histórias que se alongam por milenares, desde a alvorada dos tempos, sem nos dizer como e com que ferramentas teóricas e metodológicas o faz e de quem as obtém.” (p.65)

DEMBA MOUSSA DEMBELE, com o seu texto “Desconhecimento ou Provocação Propositada?”, começa por acusar Sarkozy de mostrar uma ignorância abismal da História de África e das suas relações com o resto do mundo, especialmente com a Europa. E acrescenta que, “Se o Sr. Sarkozy tivesse estudado um pouco a história do capitalismo, saberia que o aparecimento e desenvolvimento deste processo são feitos com o sangue, o suor, e os recursos dos povos africanos. No livro I do Capital, Karl Marx explica como a escravatura transatlântica tinha contribuído para o que ele chamou de ‘acumulação primitiva do capital’ “. (p.81)

O que África quer, no dizer do Dembele, é que a deixem definir a sua própria visão do que deve ser o seu desenvolvimento, assim como o caminho e os meios para lá chegar. E aconselha: “Os povos e os dirigentes africanos têm de libertar as suas mentalidades, descolonizar o seu espírito, para encontrarem a sua dignidade o seu orgulho para dirigirem com determinação o seu próprio destino.” (p.109)

MAMOUSSÉ DIAGNE com o texto “A Ignorância não Desculpa Tudo” diz que Sarkozy chegou, falou, mas não convenceu. Acrescenta que tal discurso não fazia sentido em nenhuma Universidade com o nome do ilustre Cheikh Anta Diop. Isto é, Sarkozy e o seu discurso foram pequenos demais para uma Universidade daquele calibre!

Em relação aos africanos, Mamoussé dispara: “Ora, o que lhe é dito imediatamente sobre a História e o balanço da colonização tem como objectivo culpabilizá-los (a responsabilidade deles na sua própria infelicidade), e atenuar a acusação que eles estariam tentados a fazer ao colonizador.”

Sintetizo Diagne, na sua resposta a Sarkozy, no apelo que ele faz aos africanos: “Os africanos e os amigos de África em geral devem manter um confronto permanente contra as potências e os ditadores, assim como contra os seus cúmplices exteriores. É a condição para que África mantenha com os seus parceiros, em particular com a França, ligações proveitosas, longe da visão construída sobre a história conjunta falsificada pelas necessidades de causas que não são as dos nossos povos.” (p.125)

“FRANÇÁFRICA: O REI NÃO VALE NADA...” é o título do artigo de BOUBACAR BORIS DIOP. Este começa por escrever que “ainda que ele tenha pretendido dirigir-se a toda a África, Sarkozy não é ingénuo ao ponto de pensar que a voz do seu pais chega tão longe como a Johanesburgo, Mombaça ou Maputo. Se os intelectuais desta parte do continente prestaram, por sua vez, atenção ao discurso de um Presidente francês, foi porque se lhe tinha anteriormente resumido o conteúdo. Depois disso, eles descobriram-no por si próprios com estupefacção, em simultâneo com as realidades Françáfrica.”

Diop continua escrevendo que a ciência política talvez se interesse um dia por este caso único: um Presidente estrangeiro a acusar todos os habitantes de um continente, intimados a atreverem-se finalmente a rejeitar a natureza, para entrarem na História humana e inventarem um destino para si. “É um insulto à memória das vítimas e uma relativização infame da violência fundamental do comércio triangular. “Nunca, em toda a história da humanidade, uma nação oprimiu outra sem ter beneficiado da cumplicidade, até mesmo do zelo das elites do país conquistado.” (p.140)

GOURMO ABDOUL LÔ responde a Sarkozy através do texto “A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE UM AMIGO LEAL SINCERO” DE ÁFRICA. Lô diz que realçar, até ao absurdo, a singular morte do outro é uma necessidade prática vital desta abordagem que, é preciso sublinhar, está nos antípodas da abordagem do reconhecimento da riqueza e diversidade do mundo. “Porque o outro não é uma parte completa, embora exótica, de si, mas o negativo de mim.” (p.209)

Lô diz que, a França, tendo perdido, com as colónias, uma parte essencial da sua autoridade intelectual do mundo, a soberania absoluta e déspota dos juízos de valor assente em si mesmos e nos outros, os príncipes deste mundo antigo ainda se apoiam, com a energia do desespero, nas sombras e nas imagens de Épinal (cidade francesa de nascimento de Émile Durkheim, o pai da sociologia, e de Marcel Mauss, pai da antropologia francesa) dos seus próprios delírios.

“A direita europeia, especialmente a da França, nunca fez o luto da sua versão canónica da História de África, há tanto deitados por terra os seus argumentos por alguns dos melhores pensadores europeus, principalmente ao longo dos séculos XIX e XX, sem falar dos autores africanos de todas as origens e de todas as áreas, doravante senhores do seu destino e livres na busca da verdade da história.” (p.213)

Gourmo continua referindo-se à queda da União Soviética e o desaparecimento gradual das zonas de influência exclusiva das potências tradicionais, a emergência de novos polos de desenvolvimento, em especial a China, as fraquezas estruturais das grandes economias ocidentais, tudo isto vai contribuir para a mudança gradual mas cada vez mais evidente do lugar do continente e da sua imagem no resto do mundo.

“Paralelamente a este vento irresistível da História, por toda a África, muitas vezes na confusão e no sofrimento, erguem-se, há muito oprimidas, forças de mudanças políticas, económicas, sociais, culturais... que reforçam constantemente estes novos factores de desenvolvimento e de progresso nas relações internacionais.” (p.220)

THÉOPHILE OBENGA com “AFICANISMOS EUROCENTRISTAS: FONTE PRINCIPAL DOS MALES EM ÁFRICA” diz que a epistemologia enaltecida pelo africanismo eurocentrista pretende subtrair aos africanos qualquer ideia de dever e de responsabilidade na história humana. No Magrebe, este paradigma propõe uma aliança privilegiada com a União Europeia: a União Mediterrânea. Na África subsariana, este mesmo africanismo eurocentrista decide, unilateralmente, a Euroáfrica. São só estratagemas políticos, e isso é o que faz pior.

“Não houve uma palavra, nem mesmo uma rápida alusão, da parte do Presidente da República francesa, sobre a União Africana, o Pan-africanismo, o Renascimento Africano, o Estado federal africano continental, o patriotismo africano.” (p.351/352)

“Todas as epistemologias africanistas eurocentristas contemporâneas provêm de Montesquieu, Voltaire, Hume, Kante e Hegel. O Presidente da República francesa, em Dakar, a 26 de Julho de 2007, retomou, por sua iniciativa, toda a ideologia ocidental africanista e racista. (...) O Presidente inclui-se assim, por si mesmo, na longa tradição dos preconceitos e da ignorância da Europa dos séculos XVIII e XIX em relação a África e aos negros deste continente.” (p.356)

RAHARIMANANA em “O SILÊNCIO FRANCÊS” diz que cada geração em África teve de integrar na sua dor a da sua antecessora, teve de assimilar, ingerir o trauma dos seus antepassados  para encontrar forças  para enfrentar a opressão sempre presente. As independências não expeliram necessariamente estes sofrimentos nem encerraram esta transmissão da experiência colonial.

“O trabalho de memória, sabemos disso, não reúne sempre a restituição histórica com o acontecimento traumatizante. É antes de mais uma tentativa de viver com a sua dor, de exprimir o estupor que o abalou no momento dos factos, o indizível que o rebaixou na dignidade humana.” (p.376)

Raharimanana remata o seu artigo afirmando que a imensa maioria dos africanos não espera da França (e nem de qualquer lugar, isso digo eu) nem desculpas nem arrependimentos.  Há muito tempo que perdoou... Os nossos dirigentes são muitas vezes crocodilos que tentam representar a palavra dos peixes! Não acreditem que é por vivermos no mesmo rio que respiramos o mesmo ar! O que África quer é o fim da ocultação dos fatos históricos. (p.387)

ADAMA SOW DIÉYE com “CONSTERNAÇÃO” interroga-se, face à afirmação gratuita, testemunho de um erro que roça o desprezo, aquela que evoca o camponês africano, que vive ‘há milénios ao ritmo das estações do ano’, se será que por acaso o camponês da Beauce não vivia ao ritmo das estações do ano? Haverá por ventura da parte do camponês africano rejeição da modernidade, dedicação selvagem aos instrumentos arcaicos ou recusa de qualquer conforto? (p.455)

ODILE TOBNER responde com “A VISÃO DE ÁFRICA PELOS PRESIDENTES DA QUINTA REPÚBLICA FRANCESA “. Rememora Charles de Gaulle que, antes de se tornar o primeiro Presidente da Quinta República, descobriu África quando a França metropolitana foi invadida pelos Alemãs. Fundou, com efeito, a resistência da França livre no seu império colonial, forçando-o pesadamente a contribuir com homens, finanças, matérias-primas, no esforço de guerra dos aliados.

“(...) Em 1958, depois de duas guerras coloniais sangrentas, e perante o aumento das aspirações à liberdade dos povos colonizados, ele propõe uma reconciliação da União Francesa da Comunidade Francesa, desta vez com executivos locais. Esta proposta será recusada por Sékou Touré, para grande ira de De Gaulle que o fará pagar caro na Guiné.” (p.463/464)

“Com a chegada da esquerda ao poder em 1981, muitos africanos acreditaram que a relação neocolonial terminaria. A desilusão não se fez esperar. François Mitterrand, de quem não se esperava de qualquer forma grande coisa devido ao seu passado e às suas declarações políticas – ‘A Argélia é a França’, ‘a única negociação é a guerra’ -, nada mudou no sistema paternalista em vigor desde as independências.” (p.468/469)

Como se pode depreender, deste livro, “A ÁFRICA RESPONDE A SARKOZY”, apenas citei textos de alguns autores atrás arrolados, uma vez que quase todos convergem no mesmo sentido. São textos de fundo que esgrimem argumentos científicos “Contra o discurso de Dakar” e sobre a História de África e dos seus povos.

Como africano que sou, e em homenagem ao dia de África – 25 de Maio, através desta “releitura”, quis juntar a minha voz à esta reacção colectiva de indignação face ao insulto protagonizado por um dirigente estrangeiro e em solo africano. É toda África que foi ultrajada na sua História e na sua dignidade. Realmente a ignorância não tem fronteiras. Alguém me perguntava certa vez por que razão os intelectuais de direita eram propensos a “entrar no mato” sempre que se falasse da história e das sociedades? Ao que retorqui dizendo que era por causa do Capital, do individualismo exacerbado que, muitas das vezes, tende a obstruir a mente através do véu do preconceito, da subjetividade, da alienação. Duma forma geral, é o modo de ser e estar da burguesia. Rimo-nos.

George Luckács, em  “Existencialismo ou Marxismo”, diz que “Para compreender a História, a análise marxista remonta aos fundamentos materiais da acção humana, à produção e à reprodução materiais da vida humana.” A ciência, por conseguinte, não se compadece com os interesses individuais e/ou de grupo. Ou é ciência ou não é! Por isso, os africanos jamais admitirão que, depois da espoliação material e espiritual a que foram sujeitos ao longo de séculos, ainda lhes sejam roubados o seu passado e a sua história.

Ademais, todos esforços visando adquirir ou manter vantagens e ou privilégios, ainda por cima, resultantes de truques, maquinações, ilicitudes, resvalam sempre na incoerência analítica, discursiva e científica. “O problema da objetividade do conhecimento só é resolvido pela teoria dialéctica da consciência humana que reflecte um mundo exterior a existir independentemente do sujeito.” Lukács, 1947.

Por isso mesmo, a África não pode esperar da Europa ou do ocidente, ou de qualquer outro lugar, lições sobre a sua História e muito menos sobre como construir o seu próprio destino. O método científico em todos os campos do saber está ao alcance de toda a humanidade. Estamos no século XXI. Avante África!

 

 

 

 

 


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