A Arca de não é

Gênesis: “Deus, observando o mau comportamento dos humanos, decidiu   inundar a terra e destruir toda a vida.”

A minha vista perde-se na água. Os ventos fortes sacudiram as nossas almas e atiraram o futuro para o fundo das torrentes. As palhotas estilhaçaram-se. Os celeiros dissolveram-se. As espigas de milho borbulham no fundo da água. Será esta a reedição do dilúvio bíblico? Será um novo castigo que o Pai celestial nos quer infligir?

É claro que temos os nossos defeitos. Típicos cá da aldeia. Há sempre algum malandro que assalta quintais dos vizinhos. Há feiticeiros que, na calada da noite, voam nos seus supersónicos e aterram em quintais alheios. Há dias, um garanhão foi amarrado e espancado, quase até a morte, por abusar sexualmente de uma menina. Eu tenho uma machambinha de soruma, bem escondida no mato. Diariamente recebo pessoal da Beira que vem comprar a minha ganza. É das melhores da zona.

Só são esses os nossos pecados. Serão assim tão pesados o suficiente para que Deus nos castigue desta forma? Que tenha misericórdia de nós. Não somos santos. Ninguém o é. Mas somos gajos porreiros. Bons aldeões. Amamos a natureza. Amamos a vida! Sempre na peace!

***

Gênesis: “Deus encontrou em Noé um homem virtuoso e inocente entre o povo de seu tempo. Disse a Noé para fazer uma arca e levar com ele a esposa e filhos. De todas as espécies de seres vivos existentes na terra, levar para a arca dois exemplares, macho e fêmea.”

De Noé não tenho nada. Não sou virtuoso nem inocente. O meu assunto é cabanga. Encharco-me desde que amanhece até que o sol se ponha. Não vale a pena vir aí com ladainhas baratas estilo “veja lá se mudas… blá… blá…”. Sou um incorrigível assumido.

Quis Deus que quando as águas começaram a evadir-se do leito do rio eu estivesse lá por perto. Fazia-se escuro e chovia a cântaros. Eu estava de volta a casa. Em pouco tempo a água galgou-me até ao peito. Vi a canoa do velho Muchanga a baloiçar. Conheço-a muito bem. É a única da aldeia. Ela transformou-se na minha salvação. Atirei-me por cima dela, desamarrei o cabo e comecei a navegar.

Não construí nenhuma arca. Não levei esposa e filhos. Nem sei a quantas eles andam. Muito menos sei se sobreviveram a este dilúvio. Não salvei nenhum macho nem fêmea de bicho algum. A minha cabeça alcoolizada apenas pensou na minha própria pele.

***

Gênesis: “Noé precisou de quarenta dias e quarenta noites de chuva para ver a terra totalmente inundada.”

O tipo teve mais sorte que eu! Eu e a minha arca não tivemos tanta. A água, abraçada a ventos fortes, veio de todos os lados. Em pouco tempo a minha aldeia ficou sem chão. 

Navego à deriva. O meu único destino é a vida. Busco equilíbrio no turbilhão destas águas que transportam destroços e derrubam o pouco que encontram pela frente. A aldeia está totalmente submersa.

O meu papel de falso Noé ganha corpo quando, da copa de uma árvore, reconheço um braço que gesticula em pedido de socorro. É uma árvore que seguramente em pouco tempo passará de albergue a matadouro. Só quando me aproximo mais do que sobra da copa é que descubro que não é apenas um braço, mas várias almas que estão em perigo.  

Aproximo-me para ajudar. Todos querem invadir a minha canoa ao mesmo tempo. Operação muito insegura. Corremos o risco de todos terminarmos no fundo da água. Tem de ser um a um. Ameaço ir-me embora. Eu sou um gajo da “nipa” e toda a gente sabe que eu não hesitaria em “bazar”.

Eles levantam as vozes aos prantos. Para eles é uma questão de vida ou morte. Volto. Puxo a primeira pessoa. É uma criança. Depois mais uma, mais duas e mais três pessoas e até a canoa não poder mais. Depois é só seguir as leis da física: peso e impenetrabilidade.  

Largo este porto em que se transformou a copa da árvore. Os que seguem comigo aconchegam-se uns aos outros. Os que ficam, choram. Em breve os seus gritos serão calados por torrentes de água que os irão asfixiar e ajudar a engrossar as estatísticas deste dilúvio.

Eu sou o capitão. Ainda que o seja por acidente. A minha embarcação avança sobre a água. A chuva que cai é forte. O vento abana-nos por completo. Não é a minha perícia de navegador da ocasião que evita que a canoa se vire. É, sim, a força de Deus. Afinal somos os escolhidos. Assim que a água baixar, a nós caberá a dura tarefa de reerguer e purificar a nossa aldeia. Foi essa a missão dada a Noé. É essa a missão que não me foi dada, mas que me cabe.

O frio atrapalha tudo. Será provação divina? A roupa molhada e a gélida brisa da madrugada deixam todos a tremelicarem. O abraço, uns aos outros, é a solução que nos sobra. A respiração ofegante e desesperada de cada um, insufla o calor que o outro necessita para aquecer uma esperança oca.

O romper da aurora apenas traz algum clarear de num horizonte sem sol. A chuva e os ventos fortes continuam a fustigar-nos. Ainda assim, passamos a ter a real dimensão do desastre. À nossa frente e em todos os lados não se descortina nada de sólido. Tudo o que a nossa vista alcança é água. Água que transporta a dor, a agonia e a morte. É água sem fim. É água que se estende por dezenas e dezenas de quilómetros.

O efeito do álcool começa a dissipar-se da minha mente. Está na hora de tentar reconhecer quem são os meus passageiros. Conhecemo-nos todos na aldeia. Não pode haver surpresas. Enfureço-me quando vejo uma fuça côncava espetada por baixo de uma cabeça com uma crista à Balotelli. É o Tchicho. Ladrão! Como é que fui meter na minha arca precisamente este tipo que, há menos de uma semana, me deu cabo da capoeira inteira?

 « cabrão de merda, fora já da minha canoa!»

Tchitcho arregala os olhos, franze o sobrolho e estremece. Não me comove a sua expressão de pena e continuo:

«Aqui não quero ladrões! Fora já daqui!»

«Para onde queres que vá?», replica.

«Para o inferno. Mas aqui não ficas! Ou saltas para a água ou eu mesmo te atiro!»

O jovem Tchitcho volta-se de novo para mim. Recupera algum brilho nas feições, esboça um sorriso cínico. Apetece-me dar-lhe um soco nessa cara cheia de cicatrizes que testemunham sovas do passado, mas ele antecipa-se e diz:

«Esta canoa não é tua. É do velho Muchanga. Toda a gente sabe disso.»

«Mas eu é que mando aqui!»

Agora sim. Está na hora de calar o ladrão com um punho no queixo. O meu ensaio é suspenso quando vejo a velha Mariana a contorcer-se. Entra em transe. É ela que se quer atirar à água ao invés de Tchitcho. Este segura-a com toda a energia. A canoa baloiça com violência.

«Ela tem o espírito da água. A água chama por ela», grita uma voz esclarecida.

Dizem os saberes antigos que quem tem o espírito da água deve-se manter o mais distante possível de enormes massas como lagoas, rios ou mares. Há sempre um íman oculto que atrai a sua alma para as profundezas das águas.

É preciso evitar que a velha Mariana, famosa na aldeia por ser amiga de todas as crianças, se atire. Tchitcho não a larga. A apreensão é total. A embarcação abana atabalhoadamente, que é uma coisa louca. Tchitcho e a velhota embrulham-se, no diminuto espaço, de forma frenética. Alguém puxa por um cabo, dos que se usam para ancorar a canoa e com o qual se consegue amarrar a velhota e mantê-la sob controlo.

O episódio da velha Mariana amainou a minha briga com o ladrão Tchitcho. Está provado que se nos metermos numa escaramuça a bordo, corremos todos o risco de engrossar o engodo deste dilúvio.

Volto a concentrar-me no nosso percurso. A missão torna-se agora cada vez mais espinhosa. Vale a pena continuar a navegar? Para onde? Deixo a canoa seguir o rumo que as águas querem. Os nossos sonhos eclipsam-se. As trevas dominam-nos. Anima-nos apenas a ideia de continuarmos vivos. Mas até quando? O dilúvio bíblico durou cento e cinquenta dias.

Noé tinha mantimentos na sua arca. Água? Iremos beber desta mesma que nos condena ao abismo. É só abstermo-nos de pensar que é nesta mesma água que pululam detritos diversos. O que importa é continuarmos vivos e acreditarmos em sei lá mais o quê.

Pão? Nem um pedaço. Em breve a fome vai juntar-se ao frio para nos dominar. Começaremos a fraquejar um a um. Seguramente que primeiro serão as crianças. Depois alguns idosos que já mal se aguentam. Cairão um a um até sucumbir. Torço para que Tchitcho, apesar de jovem, seja das primeiras pessoas a tombar. Não ficaremos com cadáveres a bordo até que se decomponham. Atirá-los-emos para fora. Os seus corpos serão moídos pela turbulência, misturados com lama e entregues ao infinito das águas.

***

Gênesis: “As águas começaram a diminuir e os topos das montanhas emergiram. Noé enviou uma pomba, mas ela retornou à arca sem ter encontrado nenhum lugar para pousar. Depois de mais sete dias, Noé novamente enviou a pomba e ela voltou com uma folha de oliva no seu bico e então ele soube que as águas tinham abrandado…a arca veio a descansar sobre o Monte Ararate”.   

Ao quinto dia ainda estamos todos vivos. Para a minha infelicidade, incluindo o ladrão Tchitcho. Estamos agarrados uns aos outros. Emprestamo-nos o calor dos nossos corpos. Respiramos no nariz um do outro.

Na vida real, não há nenhum Monte Ararate, para encalhar. Há sim um verde escuro de terra firme que resplandece no horizonte. Mais do que o verde das árvores, é o verde da esperança. O verde do nosso reencontro com o futuro.

A ansiedade é muito mais rápida que a velocidade da canoa. Para nós, a arca quase que não se move. Mas nada mais se pode fazer do que já estamos a fazer: navegar. Devagar, devagarinho… em direcção a um verde que começa a deixar deslumbrar uma longa tira brilhante no chão. É areia branca. Areia de praia.  

As águas misturaram-se tanto que mal dei conta de estar a navegar em água salgada e com ondas. Em água do mar. Mas em tempos de dilúvio do que importa se a água é do mar, do rio, do charco ou da chuva? Água é apenas água!

Há uma mancha de pontinhos negros junto à praia. O aproximar da canoa prova serem pessoas. Acenam com os braços bem esticados. Cheguei a pensar que fosse mais gente querendo embarcar na nossa arca. Mas cedo descobri ser o contrário. Estes não querem ser salvos. Querem nos salvar.

Sorriem, abraçam-nos e confortam-nos quando nos tiram da canoa. A terra firme é Chiloane. Totalmente arrasada pelo ciclone. É uma terra sem nada para nos oferecer. Apenas o amor das suas gentes respira-se pelos ares. Tchitcho? Esse que me aguarde. Ámen.

 


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