A bailarina

Das diversas incursões efectuadas à estação de comboio de Mapai com o intuito de adquirir um bilhete de passagem na segunda classe fracassaram. O bilheteiro alegava que não conseguia falar via rádio com os seus colegas em Chicualacuala para saber se existiam vagas.

Olhei para o relógio analógico aparafusado numa das paredes, eram 13h30min, o comboio só chegaria às 14h30min segundo o chefe da estação.

O princípio da tarde dominical era típico de um povoado do interior de Moçambique, completamente dormente.

Voltei para a residencial onde havia passado a noite, e aí fiquei na esplanada a berma da única estrada asfaltada. Perscrutava o lugarejo que por vezes era visitado por um carro que passava velozmente em direcção a Chicualacuala; viajantes caminhavam com as suas trouxas para a estação, das minhas averiguações fiquei a saber que vinham de Massangena, Páfuri e outros lugares.

O apito do comboio soou, duas vezes, arrepanhei a minha mochila, chamei pela servente, saldei a minha conta e rumei apressado para a estação.

O bilheteiro disse-me que poderia embarcar na carruagem de segunda classe e averiguar com o revisor se havia lugar.

A carruagem que buscava não havia parado na plataforma, perscrutei e a vi; apressado alcancei-a, segurei o corrimão, quando balançava para subir, o assistente de bordo, um homem grandalhão, indicou-me a carruagem de 3ª classe, julgando que eu me enganara na escolha.

“Não há lugares?”

“Há” – respondeu

“Então!”

Afastou-se da porta da carruagem e embarquei.

Pelo julgamento precipitado do assistente de bordo este concluíra, pelo meu aspecto meio desmazelado, que eu não tinha como pagar para usufruir das comodidades da classe.  

Esperei no corredor pelo revisor enquanto apreciava a movimentação dos passageiros que corriam para embarcar maioritariamente na 3ª classe, este chegou e indicou-me um compartimento com seis beliches ocupada por três mamanas, atirei a minha trouxa para a beliche de cima e voltei para o corredor.

O comboio voltou a apitar e depois um abanão sacudiu a carruagem, as grandes rodas de ferro rolaram na via-férrea, continuei debruçado na janela desfrutando da paisagem que se oferecia. A locomotiva circulava vagarosamente paralela a estrada asfaltada. Depois de dez minutos parou!

Desconfiei da demora neste apeadeiro e então apercebi-me que se procedia ao carregamento de estacas no vagão para esse fim.

Voltamos a rolar, agora com mais velocidade, ainda debruçado na janela da carruagem sentia a brisa beijar-me o rosto.

Decidi explorar a locomotiva, foi então quando escalei a carruagem contígua, “eureka!” celebração introspectiva, acabava de encontrar o melhor lugar no comboio, a carruagem- restaurante e bar.

Clientes hospedados nas mesas desfrutavam de suas bebidas, engoli um seco a cada vez que eles enjeriam o precioso líquido, busquei por uma mesa vaga, mas não encontrei, então fui apreciando ora o movimento do restaurante-bar ora a paisagem, esperando uma mesa ficar livre.

Uma espevitada senhorita, que eu conhecera aquando da viagem Maputo-Mapai, irrompeu carruagem adentro, saudamo-nos como amigos de longa data, trajava uma saia curta, as pernas grossas lhe ficavam salientes, era baixinha e tinha a carapinha curta que enaltecia a sua tez clara.

Vagou uma mesa e sentamo-nos, eu meio carrancudo porque estava desprovido de niqueis para usufruir de uma bebida enquanto ela gaba-se eloquentemente das suas proezas de vendedeira ambulante da rota Chókwè-Chicualacula, continuou armada de sua oratória desarmando seus ouvintes que tentavam expor um e outro facto do seu quotidiano.

 Um desconhecido juntou-se-nos na mesa, arrancou uma cerveja que guardava no seu alforge, e prontamente ofereceu-me uma, engoli um seco só de ter a lata na mão.

Um processo de mercantilização tácita foi celebrado quando cedo a minha atenção para o desabafo dos seus dissabores e ela faz com que não me falte cerveja, chego mesmo a pensar que ela gasta os lucros do seu negócio para ganhar a minha atenção.

A intromissão repentina de um indivíduo desarmando-a de algo que ela falara deixou-lhe momentaneamente perplexa, até processar o reconhecimento do senhor septuagenário que é mecânico de Chókwè, seu amigo, que também é viajante assíduo do trajecto Chókwè-Mapai-Chókwè. A nova personagem que se juntara a mesa era também cheia de retórica.

Discursos instigados pelo álcool animam a viajem, a nossa mesa tornou-se o cerne da atenção da carruagem, ela espevitada expõe seus dotes femininos e quando confisca a atenção masculina, levanta-se pousa a perna direita no banco, puxa a diminuta saia, e numa posse expõe a coxa torneada, não queria deixar seus dotes femininos nas palavras que pronunciara a esse respeito.

Uma pequena turba vai-se acercando do pequeno palco onde a nossa actriz vai dando seu espectáculo, contracenando com o velho mecânico de Chókwè que procura contraria-la sempre que ela fala dos seus atractivos femininos.

Um toque de emoção leviana assaltou-lhe a mente e ela pula para o banco onde antes pousara as pernas, ginga o rabo para esquerda depois para direita, bate a nádega majestosamente, é ovacionada com ululos e assobios que combinados com o som produzido pela locomotiva dão ritmo a viajem.

Buscou-a de relance e percebo que ela procura dissipar o seu sofrimento, depois de tudo que me contara não passa de uma infeliz que encontrou uma oportunidade de afugentar o mal.

Olhos masculinos, endiabrados pelo álcool fustigam a dançarina que vai marrabentando ao ritmo da cantiga que ela mesmo entoa, auxiliado pelo coro popular.

O afrouxamento seguido de apitadelas dá-nos conta que estamos próximos de um apeadeiro, os ânimos amainam à medida que o comboio vai parando.

“Mabalane” – comunica um dos espectadores.

Este anúncio desarma a nossa bailarina, um cavalheiro auxilia-a a descer do palco, continuamos a nossa cavaqueira enquanto o público vai-se retirando gradualmente.

Ela conta muitas estórias “da árvore mágica que expele uma luz” no troço Cungumuni-Mabalane, e o velho mecânico gaba-se também de seus dotes de reparador de motores daquelas bandas, “sou o melhor mecânico de Gaza”.

São 19h30 min quando a locomotiva se imobiliza por completo na estação de Mabalane.

O papo começa a frear, peço licença e desembarco rumo a estação, a minha amiga dançarina incube-me de adquirir umas cervejas no bar da estação pois garante-nos que são relativamente mais baratas que as da carruagem-bar.

Reembarco antes do comboio apitar e apercebo-me que estou meio ébrio, divagamos ainda no papo enquanto terminamos de beber as cervejas, a locomotiva reinicia a marcha.

Combalidos pelo cansaço, despedimo-nos depois de trocarmos os números de telefone, convidam-me a vir a Chókwè onde desembarcariam e residem.

Cada um ruma para a sua carruagem quando entro na minha, encontro as minhas colegas de viajem dormindo, trepo para a beliche evitando produzir qualquer ruído, então lembro-me que as senhoras são zimbabueanas e se dirigem à Maputo em negócios. Resgatei da mente uma estória que se contava nas grandes cidades sobre os vendedores zimbabueanos que não se importavam de deixar ficar o seu produto mesmo sem o conhecer o domicílio do cliente, prometiam vir buscar o dinheiro no dia prometido. E, assim faziam. As mentes mais férteis garantiam que eles eram fantasmas a serviço do seu senhorio.

O embalo da locomotiva e os mililitros de cerveja mesclados combinam um perfeito sonífero. Horas depois acordo assustado pelo efeito da luz do crepúsculo matinal que entra pela janela do compartimento e a vozearia das senhoras que se arrumam. O comboio experimentava um novo afrouxamento, espreito para averiguar em que estação estamos, “Manhiça”. Espreito o relógio de pulso para descobrir as horas, são 5h00 da manhã.

Depois de esfregar os olhos com as mãos, redescubro as minhas companheiras de viajem, um alento sossega meu espírito, afinal de fantasmas elas não têm nada. Elas desembarcam sem despedir, pelo menos sei que são antipáticas é única coisa que sei até ao momento.

O comboio volta a apitar e as rodas de ferro abraçam a linha, a locomotiva geme, o destino está próximo, lembro-me da bailarina com saudades.

 

 


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