A brasa do incêndios

Os filhos são sempre uma amarra forte, que não deixa os velhos afundarem-se quando a desgraça lhes bate à porta.

Rodrigues Júnior

 

In medias res (do latim, no meio dos acontecimentos), ou seja, início do discurso narrativo pelos eventos já adiantados em relação ao princípio da história. Assim começa o espectáculo teatral Incêndios, de Wajdi Mouawad, encenado por Victor de Oliveira, cuja estreia aconteceu sexta-feira passada, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo.

Logo no princípio da peça, com mais ou menos três horas de duração, dois irmãos, Simão Marwan (Bruno Huca) e Joana Marwan (Rita Couto), são confrontados com uma trágica e inevitável realidade: a morte da mãe, Nawal Marwan (Sufaida Moyane, Josefina Massango e Ana Magaia). Nesse momento, além dos dois irmãos, em cena está um hilariante Emílio Jubela (Alberto Magassela), encarregado por ler o testamento deixado pela mulher que foi sua amiga e confidente. A partir daí, logo se percebe que a história da peça não está no princípio e tão-pouco no fim. Por isso, na necessidade de se ir buscar ao passado a origem das coisas, num ímpeto, o espectador é confrontado com uma bateria de questões que o levam a questionar-se sobre as razões, por exemplo, de um filho chamar a recém-falecida mãe de cabra e puta, recusando-se a ceder às suas últimas vontades.

Esse mistério do passado que obscurece a maior parte da peça é revelado, como é característico em histórias que iniciam in medias res, com a instauração de várias analepses (externa, interna e mista). Aí encontra-se um dos fascínios técnicos de Incêndios, pois a história não vale apenas o enlace em si, antes disso, o encanto advém da maneira como o relato é apresentado por personagens pueris, românticas, airosas ou atrozes. Paralelamente, faz de Incêndios um espectáculo absolutamente fascinante a facilidade com que nos embala e faz-nos mergulhar no verdadeiro caos da guerra, esta coisa terrível e abominável, sem nenhum eufemismo. No fundo, e sem hipérboles de qualquer índole, a encenação de Victor de Oliveira (moçambicano residente em Paris há 20 anos, cuja família deixou Moçambique precisamente por causa da guerra dos 16 anos) é uma caracterização do que o homem tem de melhor e de pior. No primeiro caso, claro está, o amor é a beleza das coisas, dos actos, das aspirações, do sentido de partilha que deveria justificar a existência humana. No segundo, muito repugnante, está explícita a intolerância, a incapacidade de uns e outros donos da pátria coexistirem no mesmo espaço sem que se cuspam na cara.

Igualmente, contado a história de uma família como muitas em Moçambique, constituída por uma mãe e dois filhos, cujo pai ausente foi levado para bem longe pela força das circunstâncias evitáveis, Oliveira apresentou no Franco-Moçambicano a origem das grandes adversidades sociais. A mensagem do encenador parece ser muito clara: tornamo-nos selvagens a partir do momento que combatemos o amor. Então, no lugar de brotar a semente do afecto, da fraternidade ou do efeito cor-de-rosa responsável pelas mais nobres sensações da vida, no lugar de tudo isso germina num ápice um embondeiro de sentimentos desprezíveis. Augusto Conrado, esse notável poeta muitas vezes esquecido, quando nos referimos a toda uma geração de importantes autores moçambicanos dos anos 30/40 do século passado, terá sempre razão: “O coração que não ama não tem tom”. Como pode ter tom uma coisa vazia, seca, inútil?   

Certamente, Incêndios é uma história de amor e de rancores. Os dois irmãos que logo a seguir à morte da mãe ficam a saber da existência do pai e de um irmão na terra natal, personalizam, uma (Joana) a eterna esperança nas pessoas, na perspectiva de que ainda se pode reconstruir os fundamentos destruídos pelo ódio; outro (Simão) é o símbolo da descrença, dos conflitos individuais (sociais também, consequentemente). Sendo ambos gémeos, logo se vê, os irmãos Marwan aparecem como duas faces da mesma moeda, a lutarem pelo mesmo objectivo de forma diferente.        

Nunca vi (e aqui tenho mesmo de singularizar o discurso), um espectáculo teatral tão intenso, envolvente e emotivo como Incêndios, na encenação de Victor de Oliveira; ainda não vi um espectáculo teatral cuja história sangrenta de um povo, aquela que nunca deveria ter acontecido, estivesse tão bem contada como se fosse inspirada nesta terra. É o melhor espectáculo teatral que já vi. Concorre para o efeito a trágica e, paradoxalmente, linda história de Nawal e Wahab (Horácio Guiamba); concorre para o efeito a ousada produção justificada no cenário da peça, preparado para, em alguns momentos, o desenvolvimento de acções simultâneas, isoladas pelo tempo ou espaço; mais do que tudo isso, concorre para o efeito a qualidade dos actores, dos quais falaremos a seguir, pois conectaram-se e entregaram-se ao texto com excêntrica dedicação.

Portanto, contando uma história de amor e sobre os seus contornos trágicos, Incêndios devolve à realidade a podridão daí resultante. Esta é uma peça para ver, chorar e aprender a medir as consequências dos nossos actos antes de cometermos asneiras. É um texto para dizermos basta de armas, por isso não poderia ter sido estreada num momento tão oportuno quanto este. Se os políticos pudessem ver este Incêndios, provavelmente, apagariam definitivamente as chamas que incendeiam os seus corações e de todo um povo que apenas quer uma palhota tranquila para amar.

  

À parte – algumas notas sobre os actores/personagens

Alberto Magassela

Pronto. Vi Incêndios acompanhado pela minha mulher, que se encantou por Emílio Jubela (Alberto Magassela). Ainda bem que esse personagem não tem vida fora do palco, anteviam-se problemas lá em casa. Sempre que aquele gajo entrava em cena, vislumbra uma certa nuvem de ciúme no céu cinzento, pois o auditório punha-se a rir divertido mesmo sem ele dizer patavina. E o pior nem é isso. A minha mulher punha-se a repetir quase sussurrando: “este tipo é bom!”. A certa altura fartei-me da frase e disse-lhe: “baby, aqui todos são bons!”. E não estava a mentir. Alberto Magassela fez bem o seu papel (com gestos, caretas e olhares a condizer), tão bem que seguramente divertiu-se em palco. O carácter cómico do seu personagem preservou na peça pretextos para as pessoas descontraírem-se um pouco ao invés de verem a peça de forma sisuda do princípio ao fim. Com Magassela, Jubela foi cómico, mas não vulgar, presunçoso, às vezes, porém nunca ordinário. Então valeu mesmo a pena Victor de Oliveira tê-lo trazido de volta.

Ana Magaia

É a actriz moçambicana que melhor conheço, e, coincidentemente, a que mais aprecio. Também por ela decidi não perder a estreia do Incêndios. Na peça, Ana Magaia interpreta dois papéis. Primeiro, a de Nazira, avó de Nawal. Segundo, a de Nawal com 60 anos de idade. Nos dois casos, as personagens são idóneas, ponderadas e deveras consequentes. O derradeiro momento do espectáculo tem a actriz em palco, que no som das palavras cumpre a promessa de amar sempre, incondicionalmente. Como sábia, mesmo devido às vicissitudes pelas quais é obrigada a passar Nawal, Ana consegue ser o equilíbrio entre o amor e o ódio, entre o perdão e a sentença. Não explode como actriz, nem poderia naquele papel, no entanto, quando intervém, inquieta como se impõe com oscilações emotivas sintetizadas no último discurso de Nawal.  

Bruno Huca

Simão, o inconveniente. Jovem angustiado, essencialmente frágil na sua bravura. Pugilista. Intransigente. Rebelde. Teimoso. Vi o rancor de Simão Marwan nos olhos de Bruno Huca. Já disse uma vez, um actor incrível, artista versátil. Huca é daqueles que não precisa de muito tempo em palco para mostrar o seu valor. No papel exigente interpretado por ele, despiu-se de tudo para encarnar o espírito de um jovem já sem esperança na humanidade, que prefere julgar antes de compreender. Huca foi arrepiante ao manifestar o quão reles o rancor pode tornar as pessoas.

Elliot Alex

Coitado. Teve de morrer duas vezes no palco. A primeira, como miliciano, foi fuzilado por Sawda, a amiga de Nawal. A segunda vez, como fotógrafo, foi igualmente fuzilado, pelo sanguinário Nihad Ibrahim. Não teve papéis para se destacar, nem seria possível tal ventura para todos. Soube portar-se como personagem secundária (sobretudo como António) e morrer.

Horácio Guiamba

Muitas vezes conotado como um actor cómico, em Incêndios interpreta dois papéis: Wahab, o namorado de Nawal na juventude, e Nihad Ibrahim, um guerrilheiro desprezível. São dois papéis totalmente diferentes. No primeiro ama e contribui na reprodução de uma vida no meio da cólera. No segundo, fruto dessa cólera que se mescla com amor, é o causador da morte. Na pele de Nihad Ibrahim Guiamba exibe o seu potencial, personificando o horror dos homens contratados para matar e dos que matam pelo simples prazer de ouvir os outros darem o último suspiro. Nele viu-se, de facto, as guerras fazem os homens ser animais.

Josefina Massango

É das antigas e experientes actrizes moçambicanas. Teve a missão de ser mãe de Nawal e Nawal aos 40 anos de idade. Particularmente, gostei de a ver como mãe. Aí foi rude e dura com verosimilhança, como muitas, quando ficam a saber que a filha está grávida. Como Nawal senti falta de qualquer coisa, se calhar, a exteriorização dessa evolução emotiva de quem perde várias vidas à procura de futuro incerto.

Rita Couto

É sedutora a simplicidade e a devoção de Rita Couto na condição de Joana Marwan, a filha ponderada de Nawal. Como estudante universitária e professora de Matemática, fantástica. Como uma menina sofrida, carente e solitária, contagiante. As discussões que Joana tem com o irmão só não as consideramos reais, pois sabemos estarmos numa peça teatral. A Rita encaixou perfeitamente no papel de Joana que o carácter da personagem pareceu realidade e actriz o inverso. Inclusive, o seu papel teve umas variações interessantes. Na condição de professora, transmitiu uma imagem adulta e na da menina que busca o passado da mãe, mostrou-se mais ingénua. A Rita é uma excelente actriz!

Rogério Manjate

Teve uma meia dúzia de papéis, em geral muito idênticos. De alguns personagens de Manjate depende a pretensão dos irmãos Marwan descobrirem a verdade sobre o seu nascimento. Portanto, essencialmente, os papéis de Rogério Manjate não variam muito. Como Fahim, Malak ou Chamssedine o actor não decepciona a ninguém. Boa interpretação e presença no palco, fazendo apenas o recomendavel. Sem excessos.  

Sufaida Moyane

Sempre que a vejo a actuar lembro-me de Lucrécia Paco. No Incêndios não foi diferente. Pequena, voz juvenil, Sufaida é outro grande talento nesta nova vaga de actores moçambicanos. Na encenação de Victor de Oliveira representa Nawal, entre os 14 e 20 anos de idade. A sua missão é acreditar no amor e desistir do mesmo na primeira grande dificuldade que lhe aparece pela frente. A história trágica, na verdade, começa quando Nawal, ainda nova, é obrigada pela mãe a desistir do filho recém-nascido. Depois vêm o arrependimento e as tentativas de corrigir o erro do passado. Assim sendo, a actriz foi capaz de ser adolescente romântica e jovem amargurada.

Eunice Mandlate

Pulamos a ordem alfabética de propósito, de modo a deixá-la para o fim. Confesso, quando vi o nome na ficha técnica do Incêndios fiquei surpreendido. Não por ela ser má actriz, mas por ainda ter algumas fragilidades que me fizeram julgar que iriam interferir no seu desempenho na peça. Já a tenho acompanhado há uns três anos. A última vez que a vi em palco foi n’A história de um homem honesto, reposta pelo Mutumbela Gogo. Não me agradou. Entretanto, no Incêndios foi completamente diferente. Conheci uma outra Eunice Mandlate, que deixa até a última gota de sangue no palco. Insignificante como Amina, a parteira que fica com o filho de Nawal, é extraordinária representando Sawda. Um papel bem a altura das capacidades da actriz que conseguiu ser meio aparvalhada, transtornada e cheia de fel. Eunice encarnou profundamente a personagem e posicionou-se de forma verosímil no contexto de guerra que chorou no palco como eu nunca tinha visto antes. De repente, a Sawda, numa discussão brava com a amiga Nawal, emociona-se e exprime com as lágrimas o que as palavras já não são capazes. Silêncio total no auditório e no interior dos expectadores. Era a vez de Eunice Mandlate brilhar no meio de colossos e consagrar-se de algum modo. Quem se entregou ao espectáculo como ela, merece a confiança de estar no Incêndios e de ser levada a sério.

 

Título: Incêndios

Encenação: Victor de Oliveira

Teatro

Classificação: 19  

 

 

 

 

 

  


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