A caminhada

Os ventos ciclónicos foram-se. Ficaram as árvores, a escola e as barracas caídas. O rio voltou a comprimir-se. Para o seu leito levou tudo o que o vento deitou abaixo: a minha palhota, a minha capoeira, o meu celeiro, as minhas panelas e as roupas que o meu falecido marido trouxe da última vez que veio da África do Sul, antes de ser queimado vivo nas malhas de um pneu xenófobo.  

Na machamba, o milho vergou. As espigas repousam quietas no chão. Os dias de submersão transformaram a maçaroca, que promissora despontava, num engodo para lavras nauseabundas.

Os ventos e a água tiraram tudo de mim, mas deixaram-me com o que de mais importante tenho na vida. A razão do meu ser. A essência da minha existência como mulher: as minhas duas filhas. Ambas adolescentes.

Até porque o sol hoje nasceu. O seu brilho não evita que a fome encha as nossas barrigas. Mas a solução não está nos campos de produção, porque não existem. Tudo passa por seguir a voz do helicóptero que atravessa os céus em marcha lenta para o poente.

Sei que a aeronave transporta a farinha, o leite, o açúcar e até a água para beber, que não chega à minha aldeia. Ergo os olhos e fito-o. Calmamente observo o rodopiar da sua hélice, que corta mecanicamente os ares, alimentando ilusões de um amanhã que se quer sem fome. Prendo-me a este pássaro de aço prenhe do sonho que consome os meus anseios imediatos de subsistência: a comida.  

O helicóptero segue o seu rumo até se perder por detrás do horizonte antes de pousar na sede do posto administrativo. Só há uma forma de buscar alimento para as minhas filhas: seguir no encalço da aeronave. Serão muitos quilómetros de caminhada. Mas não tenho opção “B”: ou vou, ou vou.

Amarro a capulana e deixo-me levar pelo atalho. Para trás, ficam as minhas meninas maticando a nossa palhota reconstruída sem mão masculina. Esqueço-me que um dia fui dona de uma enorme machamba com milho a perder de vista, mandioca e batata doce a transbordar do subsolo e verduras para a época toda. Vivo a fome de hoje.

Caminho. Cada passo que dou afaga-me a mente. Estimula-me. Mostra-me que a vida não é um mar de rosas. É luta. Perseverança. Crença. Capacidade de acreditar que há mais mundo para além da nossa vista. Os obstáculos são para serem enfrentados. As batalhas, para serem ganhas. O meu obstáculo é a caminhada. A batalha é contra a fome. Minha e das minhas filhas.

Caminho. Abstraio-me das frustrações da vida. Elas não estimulam. Atrofiam. Não guardo mágoa contra a mãe-natureza. Quem seria eu para tanto? Deus assim o quis. Com uma mão dá e com outra retira. Foi-se tudo o que construi com labor e sacrifício. Mas do que importa? Para o além iremos todos de mãos a abanar. O que agora quero são viveres. Para mim e para as minhas filhas.

Caminho. Levarei horas para chegar à sede do posto administrativo. Sei que os sacos de comida cuspidos pelo helicóptero desaguam numa escola primária sem alunos e de paredes enegrecidas pelas poeiras e lama. Sei que encontrarei milhares de almas iguais a mim, ávidas de receber o seu bocado para alimentar a família. Irei encontrar gente, que como eu, tem falta de tudo: roupa, água e albergue. Gente sedenta de levantar a cabeça, espreitar o amanhã e acreditar que sorrir é possível.     

Caminho. Um casal de corvos está por cima de mim. Voa aos círculos e canta. Aos meus ouvidos são sons de esperança que disfarçam o suor que me banha o corpo e os músculos e articulações que começam a ceder ao cansaço, à hipoglicemia e à desidratação.  Falta-me saliva na boca para continuar a molhar a garganta e o ar quente que inspiro seca-me as narinas.  A única coisa que não muda é o meu foco: a comida!

Caminho. O casal de corvos dá mais um giro pelos céus e desiste de mim. Bate as asas e afoga-se no mundo da vida dos pássaros. Pudera pendurar-me nas suas asas e voar não para o destino dos corvos, mas sim para o meu mundo. E o meu mundo é a sede do posto administrativo. O meu mundo é a comida que me falta. 

Caminho. Parece haver um protocolo amistoso no controlo dos ares sobre a minha cabeça. Os corvos cederam lugar ao helicóptero que volta a roncar nos céus. Está na rota contrária, para a nascente, de regresso para a cidade grande. Provavelmente para Beira. Ergo o pescoço, arregalo os olhos e contemplo-o. As minhas faces, já enrugadas pelos contornos da vida, ensaiam um sorriso. Não é de alegria. É de sarcasmo. Em poucos dias demos tanta cambalhota que até a terra deixou de nos dar de comer. É dos céus que chega a comida que não plantamos. Os mesmos céus que transportaram o ciclone que nos deixou nesta sombra do abismo.

Caminho. Deixo o helicóptero passar. Fito o horizonte. Esculpem-se, distantes, os contornos das casotas da sede do posto administrativo. A comida para as minhas filhas está mais perto, mas as minhas forças são cada vez mais escassas. 

Caminho. É agora uma caminhada de esforço enquanto subo a última ladeira para alcançar a sede do posto. Está difícil revigorar-me. Difícil estugar o passo, mas insisto em seguir a voz do vento. Quero achar o cheiro da esperança. 

Já não mais caminho. Cambaleio.  Sinto algum movimento intenso em meu redor e vozes dissonantes povoando-me os tímpanos. É o prenuncio da chegada à sede do posto administrativo.  As pernas não mais me querem obedecer. Os meus olhos ainda vão a tempo de descortinar uma pequena placa indicativa. Quero sorrir e alegrar-me por ter logrado percorrer distância tão longa, mas o escuro domina-me. Não consigo articular as feições. Falta-me ar nas narinas e na boca. Falta-me força nos membros. Tudo está aos círculos.

Lembro-me de tombar de joelhos. Tento gatinhar. Fraquejo. O corpo já não me obedece, abandona-me e deixa-se estar na areia poeirenta. Os meus sonhos apagam-se num poço de escuridão sem fim.

Quando volto a enxergar a luz da vida, dou comigo deitada numa pequena maca artesanal, feita à base de estacas, e com o braço direito ligado a soros.

«Vais ficar bem!», diz uma voz suave. Uma mão tranquilizadora afaga-me a testa. Lembro-me das minhas filhas. Quero dizer algo, mas a mesma voz poupa-me do esforço:

«As tuas filhas estão bem. Vais ter comida para levar de volta para casa.» As minhas faces esticam-se pelas bordas secas das bochechas. É sim um sorriso. E volto a deixar descansar as minhas pesadas pálpebras…

 


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