A casa

“Nossa casa é onde as pessoas pensam em nós”

Naruto

 “Como vamos vencer esta guerra, se somos todos refugiados?”

Valete in (Refugiados)

 

Dizem que nunca é longe o caminho de volta para casa. E, de facto, não o é, quando a gente considera casa não um conjunto ordenado de tijolos com um tecto, mas uma família, um lar, uma terra natal onde jaz o nosso mais incontestável sentimento de pertença. Quando se trata de um lugar aonde a gente pertence nunca é deveras longo o caminho de volta. Cada passo dado é uma penumbra para alma. A sensação que nos invade é aquela de quem, finalmente, está prestes a encontrar o seu lugar no mundo.

E por quê nos apartarmos da nossa casa, quando esta é o único lugar no universo que encerra as nossas origens? Compreende-se que os fenómenos como guerra, pobreza e deportações sejam factores dominantes para saída das pessoas dos seus locais de origem para o mundo afora, mas é injusto que os exilados tenham de escapar à responsabilização pelo estado em que a sua casa se encontra, pois todo o habitante tem o dever natural de defender o seu habitat, sob o risco de tornar-se um eterno pária.

Deste modo, a todos os africanos migrantes, que arriscam as suas vidas no mediterrâneo em direcção à Europa, são convidados a uma reflexão: quem vos salvará a casa, enquanto estiverdes na diáspora? Que paz buscais nas terras do estrangeiro, quando vossos irmãos são martirizados dia pós dia aqui, em África? Estas inquietações estendem-se também aos cérebros africanos que buscam prosperidade material fora do continente e não mais regressam para melhorar as condições da casa.

Longe de eu defender o banimento do direito ao asilo, julgo que devia haver uma responsabilidade moral dos homens perante a pátria quando esta se encontra numa situação crítica, e fugir não é a solução. O dever dos homens enquanto seres residentes é de defender o seu local de origem, quando este se encontra em risco de ser conquistado, ainda que isso implique que os homens se abeirem da morte.

A história política como narrativa de conflitos civis e internacionais nos revela este espírito de pertença geopolítica por meio de lutas de resistência entre os nativos e os invasores. Desde os primórdios do estado natural que os homens se sentem no direito de defender a integridade da sua propriedade habitacional contra as forças da conquista. A defesa do território permeia a história da humanidade de tal forma que deve ter sido preponderante para o advento do contrato social. O direito à habitação é tão natural que foi determinante para existência das civilizações, e os homens sempre colocaram em risco as suas vidas para defender ou reivindicar o seu habitat. Uma prova disso foi a expansão mundial que desencadeou o colonialismo que, de todas as formas, teve de ser um processo violento, porquanto toda a conquista territorial constitui uma violação a um direito natural que é o direito à casa. Todos os povos colonizados sentiram esta invasão imperialista como um assalto à casa ao ponto de eles se posicionarem para morrer a lutar.

O colonialismo é o mais rico exemplo histórico de que o sentimento de pertença é inolvidável. Longos séculos de subjugação colonial não foram capazes de fazer que os africanos e outros povos colonizados se esquecessem de quem era casa. A luta pela descolonização denuncia a imortalidade do sentimento de pertença. Seria preciso apagar-se definitivamente a memória de uma geração sobre as suas origens para que não mais houvesse sentimentos de rebeldia relativos à reivindicação territorial.

Enquanto não houver um mecanismo que permita que os povos se sintam integrados e, sobretudo, mais autónomos no seu espaço territorial, jamais cessarão as reivindicações de independência do povo da Cabinda em Angola, da Ambazónia nos Camarões, da Catalunha na Espanha, dos curdos no Médio oriente e dos Ucranianos perante a Rússia. Mesmo nas Américas, ainda continuam a se ouvir resmungões dos índios sobre a terra que há séculos lhes foi usurpada com massacres europeus e hipnoses da igreja católica. 

Mas se o terror e a ideologia foram incapazes de lhes arrancar da alma o sentimento de pertença, isto significa que a casa é um assunto sério da condição humana. Sem ela, a humanidade fica ontologicamente amputada como se houvesse perdido as raízes. As três perguntas onto-existenciais (Quem sou eu? Donde eu vim? Para onde eu vou?) tornam-se descabidas, na medida em que a segunda pergunta permanece sem a resposta, quando já não se tem um lugar que se chama casa. Defender a casa é, portanto, um nobre acto de proteger uma identidade. E apartar-se desse dever significa, no entanto, afastar-se da responsabilidade moral que tem para consigo como um ser social. Ante tais responsabilidades, a luta pela casa torna-se um desafio irrecusável para um homem que se julgue patriota.

O direito a refúgio deveria caber a mulheres e crianças pela sua natureza menos audaz para enfrentar batalhas sanguinárias. Os homens que preterirem a defesa da casa e juntarem-se a fila dos refugiados incorrem no risco de serem chamados cobardes. O refúgio só se torna justificável quando nos servir de um lugar de reabastecimento das forças para continuarmos a luta. Mas se fizermos do refúgio uma nova casa, então, temos de aceitar ser um novo ser, sem mais nada a reclamar da nossa antiga casa que encerra as nossas raízes. Mas isso se afigura impossível quando não podemos esquecer definitivamente a casa donde viemos, pois o passado ganhou um espaço na memória do mundo.  Enquanto o passado continuar a caçar-nos, seremos incapazes de ser um novo ser, senão um ser camuflado.

O melhor lugar do mundo será sempre a casa. Estaremos convictos disso, todas as vezes que enfrentarmos resistência para integrarmo-nos numa casa alheia, pois não há nada mais incómodo que estarmos num lugar onde não somos bem-vindos. Como bem observou Hannah Arendt, chega a ser preferível viver perseguido a forçar a sua presença num meio de aversão. Este apelo vai para todos aqueles que se encontram na diáspora, especialmente, os africanos: não vos esqueçais da vossa casa. Ela ainda precisa de vós, portanto, retornai assim que possível. Lutando pela melhoria da vossa casa, vós lutais pela melhoria do mundo. Enquanto a casa não estiver em paz e arrumada para se morar, vós no exílio estais proibidos de esquecê-la. E lembrai-vos. A casa alheia onde vós vos refugiastes teve, em tempos, que ser cuidada a sangue e suor para que ficasse limpa e cômoda como a vedes. Lutando pela melhoria da vossa casa, vós lutais pela melhoria do mundo.

 


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