A casa embriagada

 

A sul

Implantado uma cartografia sem limites

Traço e compasso

Depois da madrugada

Luís Carlos Patraquim –  MONÇÃO

Ao Lulú

Naquela manhã o sol era ainda um passarinho tímido. O frio acariciava com vigor o rosto de quem o enfrentava as primeiras horas do dia. O sono de Amadeu Bassopa foi visitado por mensagens e imagens provocantes de Saugineta. Amadeu não percebia, por vezes se estava a sonhar ou se eram caprichos do seu telemóvel. A nova namorada despertava uma inquietação que enfeitiçava o juízo de Bassopa. Gita exigia-lhe, para além do bilhete VIP para um espectáculo musical, um jantar romântico num hotel junto à marginal. Bassopa estava desesperado. Há dias que esgotara as suas últimas economias. Depois do banho pegou no telefone e ligou ao colega Carlos Panguene, seu cúmplice, mas sem sucesso.

Já no centro social do serviço Bassopa não sabia como resolver o problema colocado pela namorada. Pela sétima vez telefonou ao Panguene, amigo e colega no departamento de planeamento territorial. Desta vez o telefone do Carlos estava desligado. Bassopa, pelos sinais que horas revelavam percebeu que os programas daquela sexta-feira corriam sérios riscos.

Amadeu, que não era estúpido nenhum recorreu ao seu baú de estratégias sobressalentes. Tratou de abraçar a primeira ideia que lhe ocorreu. Pegou na sua mota, depois de verificar o nível de combustível, usou o capacete e, pôs-se a galope.

Duas horas percorridas, qual piloto-aviador descendo da sua aeronave em plena zona de expansão. Amadeu esfregava as mãos, o seu sorriso maroto denunciava uma ansiedade crescente para conseguir o jackpot que se anunciava no ar. Bassopa, vestindo o seu inseparável uniforme de fiscal municipal não precisou de contactar nenhuma estrutura local, antes de fazer a vistoria ao talhão. Ele que é funcionário com provas consagradas pelos seus dez anos de serviço foi directo ao local onde havia irregularidades. Amadeu deu umas voltas pelo quintal e verificou que havia por ali muitas árvores por podar e muitas outras por retirar. Para além da obra visada reparou para mais duas casas num raio de quase trinta metros. Depois do ritual, Bassopa redigiu a penalização na parte frontal da obra. Amadeu usou um spray preto indelével que contrastava com a parte rebocada da parede, apesar da mão tremida do fiscal era possível ler o registo a uma distância de vinte metros.

Meia hora depois surgiram no local, entre mirones e outros curiosos que abandonaram o cultivo das suas machambas, levantando poeira, acompanhados pela estrutura local. O proprietário do imóvel acabava de chegar, todo ele fumegando horrores nos olhos vidrados, as orelhas carregadas de poeira, tal foi o impacto da velocidade que Mulomba conduzira a sua bicicleta.

O chefe de quarteirão tomou o lugar cimeiro na sombra da mafurreira. Todos os presentes estavam curiosos de saber a razão da presença do homem do município naquele lugar:

-           Hoje a nossa reunião vai ser breve, amigos. – O chefe de quarteirão abria a sessão.

-           O senhor Mulomba chamou-me com urgência. Ele precisa de saber que escritas são estas, senhor Amadeu?

Perante o silêncio arrogante do fiscal viraram-se todos os presentes para ele. Bassopa estava já no sétimo céu sonhando com pássaros que debitavam o seu cântico agreste pela povoação de Zilinga. Bassopa até roncava junto de um tronco, o seu corpo repousando sobre dois blocos que ele retirara da obra. Duas garrafas de cerveja de uma marca importada, animavam os olhos de quem os via preenchendo os buracos dos blocos de tamanho quinze.

Foi necessário que a voluntariosa dona Felismina requisitasse os seus prestativos dotes para descalçar o fiscal. Felismina teve sorte, foi agraciada por valentes notas de quinhentos meticais escondidos num dos sapatos de Amadeu. A senhora afagou-lhe continuamente a cabeça, deu umas generosas chapadinhas ao que, ele finalmente despertou.

Entre espanto e susto ele levantou-se, esticando-se continuamente. Amadeu abriu a boca num bocejo descomunal para espantar o sono teimoso que lhe perseguia. Bassopa havia passado a noite em branco preparando-se para a quarta licenciatura, desta feita no curso de direito.

O dono da obra estava furioso e pressionado por telefonemas dos colegas. Mulomba precisava de encerrar aquele assunto com maior brevidade.

-           O senhor pode explicar-nos o que pretende dizer com isto aqui nesta parede? – Voltou à carga o chefe de quarteirão.

-           Bem, o meu serviço como fiscal está terminado, meus senhores. Para já não convoquei tanta gente assim! Aproveitem a minha presença, eu até posso ajudar a arrefecer a multa. – Interveio o Amadeu.

-           Senhor fiscal, antes que isto acabe mal precisa de saber de um ponto muito importante. Estamos fora da área de jurisdição do seu município, bem distante da terra sem ninguém. – Advertiu o chefe de quarteirão.

Não se sabe bem como tudo aconteceu. De repente um grupo de homens e mulheres da povoação levantou-se num ápice decidido a desferir golpes no fiscal. E quando Amadeu sentiu as gotas de combustível, pingando sobre o seu corpo fugiu clamando por socorro, numa gritaria desesperada. Para além da motorizada Bassopa abandonou o telemóvel que, por sinal estava a tocar recebendo uma chamada da namorada, o visor do aparelho anunciava o nome LADY G.

 Mais tarde, quando a poeira assentou o senhor Mulomba ficou diante da sua obra e, do alto do seu portentoso perfil, de um metro e oitenta e nove centímetros, pôs-se a ler, para todos ouvirem, o que o fiscal Amadeu registou na parede em letras garrafais:

-           OBRA EMBRIAGADA!

Celso Muianga

 


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