A consciência de classe que nos falta

No dia 3 de Agosto, num artigo de opinião publicado no diário O País, Ricardo Machava deplorava que o Exército tenha recebido jornalistas estrangeiros nas bases estacionadas na província de Cabo Delgado.

A indignação exposta no artigo “Quando falta o bom senso do Governo” deve-se, conforme a leitura esclarece, ao facto da media nacional não ser permitida o acesso ao teatro do conflito que está a deslocar milhares de famílias, a dispersar filhos, irmãos, a enterra sonhos.

Machava recorda o jornalista português José Rodrigues dos Santos, depois de cobrir sete guerras em diferentes cantos do globo, a dizer “que não existe imparcialidade na cobertura jornalística de uma guerra, porque ou o jornalista entra no teatro operacional sob protecção do Exército governamental ou sob protecção da contra-parte no conflito”.

Os jornalistas moçambicanos, prosseguiu, não estão a cobrir o que está a acontecer nas zonas de conflito em Cabo Delgado porque o Governo não permite que isso aconteça. O que limita a acção de quem tem por missão justamente informar a sociedade moçambicana.

A este quadro traçado por Ricardo Machava acrescento o facto de, estando o país a atravessar uma pandemia sem precedentes, a ser vítima de ataques terroristas em Cabo Delgado e no centro, nem o Chefe do Estado nem o Primeiro-ministro terem concedido uma única entrevista a um órgão nacional para dar o ponto de situação. As comunicações oficiais não são suficientes para esclarecer a sociedade e mostrá-la o raciocínio por detrás das decisões que condicionam a vida dos moçambicanos.

O articulista recordou que, por exemplo, as Dívidas Ocultas chegaram-nos primeiro pela media estrangeira e nisso apontou indícios de ser, digamos, o modus operandi.

Esta atitude, como igualmente refere Ricardo Machava, ignora o artigo 74 da nossa Constituição da República, que consagra os Direitos de Expressão e a Liberdade de Imprensa. É ainda uma atitude lesiva aos princípios da democracia. Um cidadão informado formula melhor as suas opiniões, pois tem elementos para tomar uma posição.

A liberdade não é, em nenhum canto do mundo, um dado adquirido. A pandemia provou isso. A liberdade conquista-se, vigia-se e protege-se. Então, se os jornalistas moçambicanos precisam de liberdade, têm de conquista-la, o que é possível com uma consciência de classe.

Machava trouxe exemplos de como acabam jornalistas que, em respeito aos princípios da profissão, tentaram ir colher dados. O caso de Abobacar, em Cabo Delgado, é disso exemplo. É certo que neste caso alguns jornalistas, a par de activistas de Direitos Humanos, “fizeram barulho para sua libertação do colega”. Mas houve os que se mantiveram indiferentes, havendo os que perguntavam, cinicamente, “ele ia fazer o quê lá?”

É de salutar a coragem dos que dão o peito. O ponto, porém, é que a reivindicação é circunstancial para lidar com uma situação permanente de agressão aos interesses que salvaguardem os valores desta nobre profissão. Dá a impressão que liberto (ou livre da situação problemática o rosto do problema naquele momento), relaxamos, esperando a próxima vítima para voltarmos a, de forma dispersa, reivindicar. É como se apenas aquele jornalista em particular impedido ou obstruído de desempenhar o seu papel fosse de facto o agredido. Quando na verdade é toda uma classe profissional que é atacada e não agir de forma permanente, proactiva, com perspectiva de longo prazo é um acto de cumplicidade com quem inviabiliza o nosso trabalho.

Se formos atentos, é cíclico. Há uns anos o então fotógrafo do “Notícias”, Féling Capela, era agredido por fotografar a quem e o que (não) devia. Um caso mais recente foi do operador de câmara da Stv, agredido diante das câmaras. E não movemos palha, ainda que fosse para fazer um abaixo-assinado, uma campanha nas redes sociais, o que quer que fosse para que o agressor viesse apresentar o pedido de desculpas publicamente. Esse simples gesto mudaria atitude de gente igual.

Sem ignorar que agora, neste desaparecimento de Ibraimo, um grupo de jornalistas escreveu uma carta ao Presidente da República, continuo a insistir na fragilidade da consciência de classe. Pois foi uma parte e não uma voz em uníssono.

Dá a impressão de uma classe dominada pelo espírito do clubismo, enclausurada nas linhas editoriais dos órgãos a que lhes pagam os salários. De forma resumida: os do pró e os do contra. Não conseguimos nos inspirar nos deputados (ignorando aqui a sua performance mas focando-nos na consciência de pertencerem ao mesmo grupo, a mesma “família profissional”) que quando a sua classe está em debate, a aprovação é unânime. E a razão é simples: antes e depois de pertencerem a um partido (um órgão de comunicação) que defende uma ideologia (linha editorial) são deputados.

Um detalhe que é importante ressalvar, é que não estou cá a dizer que os jornalistas separam-se em função do órgão a que pertencem mas estou a questionar a qualidade dessa relação, defendendo que não pode limitar-se a troca de ficheiros, partilha de contactos, a troca de copos no Fofoca, Janet, “Povão”, ou onde quer que seja. Mas uma relação que discuta a forma como trabalhamos e o lugar que queremos ocupar enquanto grupo profissional com a importância que temos.

Espanta-me, pessoalmente, o silêncio do Sindicato Nacional de Jornalistas, que era suposto defender os interesses dos profissionais desta área e contribuir para que a classe tenha melhores condições de trabalho, prestígio e (o quarto) poder. Esse silêncio leva-nos a concordar com o Mauro Wolf, quando faz este trocadilho: o quarto do poder.

É importante percebermos que o jornalista do Noticías ou do Savana, da Stv ou TVM, Rádio Moçambique ou Rádio Maria, da revista Ideal ou da Índico, do Mbenga Artes e Reflexões ou da Revista Literatas são membros de uma mesma comunidade, a qual ninguém dará poder senão conquista-lo. Temos de nos unir.

 

De Leonel Matusse Jr., jornalista e docente de Jornalismo


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