“A dança abriu-me as portas para o mundo”

“A dança abriu-me as portas para o mundo”

Mesmo tendo abraçado tantas manifestações artísticas ao longo dos 35 anos de carreira, Casimiro Nhussi não se esquece do que a dança lhe proporcionou. Mais do que tudo, para Nhussi, a dança é um princípio, no qual se aglutina a identidade de um povo e um modo de estar na vida. Por isso, o artista defende que se invista na arte, de modo que recupere a aura do passado. Além de dança, Casimiro Nhussi não deixa de tecer uma apreciação à música que hoje é feita no país. Na sua opinião, com fraca qualidade e muito barulho.

 

Notabilizou-se, primeiro, como bailarino. O que representa a dança para si?

A dança para mim é vida e meu dia-a-dia. Um bailarino desafia-se a si próprio para viver bem, quando está a executar os movimentos, o desafio de poder escutar os passos e os ritmos, visualizando o que está à sua volta, dialogando com o público mas também com o seu espírito. Para mim a dança é a língua sem palavras, as emoções que nos transportam e que nos levam além.

E por que se expressa por via desta manifestação artístico-cultural?

Porque é parte de nós. Por exemplo, os políticos dançam, quando estão no pódio. Eles podem não saber, mas dançam. Quando um político diz alguma coisa que ele próprio está convencido, percebe-se pela expressão corporal. Se fizermos o exercício de retirar a voz e apenas nos focarmos no corpo, é possível descobrir se o que o político diz vem ou não do fundo do coração.

Usando a dança como mecanismo de diálogo, sente-se compreendido?

Esta pergunta para mim é interessante porque eu vivo no Canadá, e foi a dança que abriu as portas para mim. Sou conhecido como bailarino e músico, mas tudo deveu-se à dança, que me uniu às pessoas, deixando-me conectado com o público que me viu bailando. É uma linguagem universal. Repara que quando fui para Canadá o meu inglês não era assim tão bom quanto é hoje, mas a dança apresentou-me ao público.

Num contexto em que a música vende mais rápido, o país deve investir na dança?

Boa pergunta! O país deve investir na dança porque nesta expressão artístico-cultural mantém-se a identidade de um povo.  

O que a dança lhe permite alcançar, que não conseguiria de outro modo?

A vida. Não me imagino vivo sem dança.

Conta com 35 anos de percurso artístico. O que mais contribui para se manter firme nas artes?

O que mais contribui é o povo. E são todas as transformações sociais do meu país, que vêm desde o período colonial, que me guiam e puxam-me para uma direcção certa, sabendo onde estou e onde piso.

Como músico, teve o privilégio de ser nomeado para Canadian Music Awards. Nesse evento conquistou prémios na categoria de World Music. Como descreve esse reconhecimento?

A primeira vez que fui distinguido, depois de ver grandes nomes da música africana na minha categoria, alguns que cresci escutando, saíram-me lágrimas. Aí comecei a acreditar que era possível, mesmo eu tendo saído de tão longe. Fiquei feliz porque, para mim, aquilo significou que a voz moçambicana estava a ser ouvida.

Ximbombo é o título de uma das suas obras. O que mais lhe interessou expressar com esse álbum?

Este trabalho é um exemplo claro de que, muitas vezes, passamos ao lado do que temos como melhor de nós. Quis com o álbum mostrar que, culturalmente, somos ricos. É uma mostra que contou com muita pesquisa das tradições moçambicanas e que questiona: o quê estamos à procura no estrangeiro, quando temos tanta riqueza aqui? Não estou a dizer que todos nós, no país, devemos andar de capulanas. Não. Mas devemos nos distinguir dos outros.

Afirma que nos seus dois primeiros CD, Makonde e Gweka, estava à procura do seu próprio lugar no mundo. Que lugar é esse?

Andei à procura da minha voz. O desafio era encontrar um lugar mais aconchegante, com uma chuva refrescante.

E encontrou esse lugar?

Acredito que sim, porque o Ximbombo faz vibrar muitos norte-americanos ou canadenses que escutam as músicas.

Buscando esse lugar, aparentemente utópico, quer dizer que também estava à busca de uma identidade?

Não. Buscava a afirmação da nossa identidade, escolhendo a forma como o mundo deve me olhar.

Assume que Ximbombo é a afirmação da identidade cultural de um povo. Um disco apenas consegue garantir tão grande projecto?

Consegue, sim, porque, quando se ouve o Ximbombo entra-se em contacto com muitos ritmos, como a marrabenta, o mapiko ou o nganda, que vão resumindo o que encontramos do Rovuma ao Maputo.

No seu novo CD dedica uma música a Tanzania (“Tanganyika”). Há alguma razão?

Interessou-me a expansão dos macondes. Muitos foram parar àquele país, onde também fazem as suas esculturas.

Um outro título do Ximbombo é “Sem sapato”, na qual temos um sujeito a dizer nasci e cresci sem sapato. É um estado de miséria ou de pureza?

Não é um estado de miséria, é um estado da afirmação do que sou. Tornei-me bailarino e músico sem sapato. Com esta música quero dizer que sou um guerreiro, que marcha sem se distrair com as coisas que brilham por aí. Eu apenas marcho, com este grande objectivo de dizer ao mundo que sou Casimiro Nhussi e moçambicano.

Quem escuta seus discos percebe o apego que tem às tradições africanas. Por exemplo, “Tangola”, do álbum Gweka. Como pretende ser compreendido por via da sua obra?

Sinceramente, a minha obra é uma página aberta. Não quero influenciar a ninguém. Mas há algo importante nisto tudo, a ideia de que faço das artes aquilo que está dentro de mim. O resto, que fale por si.

É professor da Escola de Dança Contemporânea de Winnipeg, Canadá. O que mais lhe interessa levar aos seus alunos na actividade docente?

Encarrar a dança como vida e como expressão. Importa-me que eles saibam que ser contemporâneo não é copiar os outros, mas fazer parte deste tempo. Por exemplo, com a liberdade de dançar a makwaela da maneira que me apetecer dançar.  

A CNCD decidiu homenagear-lhe este ano. O gesto tem um significado para si?

 A homenagem é um reconhecimento ao povo moçambicano, que a CNCD tanto representou. Vejo esta homenagem como algo feito à nossa dança e à nossa cultura. É também uma homenagem ao grupo que limpou a imagem de Moçambique no tempo da guerra, contribuindo para que o país fosse visto de outra forma.

O que pensa da dança feita em Moçambique e da música, actualmente?

A dança não está a ser tão valorizada no país, comparando com o passado, altura em que haviam grupos provinciais fortes, que contribuíam para o fortalecimento, inclusive, da CNCD. Quanto à música, está a evoluir, mas, infelizmente, com muito barulho. Desculpa-me dizer isto, mas temos hoje um barulho na nossa música que nem nos dá a possibilidade de sabermos para onde vamos. Não tenho a pretensão de sugerir que a minha música é melhor, nada a ver. Apenas acho que temos de voltar a pensar na qualidade daquilo que tocamos. Temos muitos músicos, no entanto, com barulho que não acaba. Temos de recuperar as bandas, porque isso dá outro encanto à música.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a obra de Silva Dunduro, de Malangatana e Wazimbo.

 

Perfil

Casimiro Nhussi é um artista multifacetado. É bailarino, músico e professor de dança. No passado, fez teatro no Tchova Xita Duma, participou em documentários e fez parte da primeira peça do Mutumbela Gogo. Nhussi também foi director artístico da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD). Actualmente, exerce a função de professor no Canadá, onde vive, e é autor de três discos: Makonde, Gweka e Ximbombo.


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