A dor escolta Zulmira

Com a bacia cheia de laranjas desce à cidade, Zulmira. O umbigo que espreita debaixo da blusa curta anuncia uma vida que rola no ventre. As tetas desenham dois pontos de leite na blusa; devia amamentar àquela hora. Quando o sinal vermelho amarra a marcha dos carros, Zulmira levanta-se da esteira do passeio e procura abater a montanha de laranjas que tem no solo da sua bacia. No cume da montanha tem uma faca.

Quando regressa à casa, faz lume com lenha para encher o seu bule de ferro. O fumo faz-lhe nuvens nos olhos e lágrimas caem. Aproveita para chorar da sua pobreza na cozinha em paz. A dor é a sua escolta em todos movimentos. Ajeita o filho nas costas e improvisa-lhe o seio enquanto dá banho ao outro que vai à escola. Olha as horas e lembra-se que deve marcar bicha na padaria de pão. Corre para a padaria. Marca a bicha. Pelo caminho compra tomates para fazer uma salada mesmo sabendo que não tem óleo em casa.

Zulmira é médica de si própria. Cura-se da tristeza com as suas seringas de lágrimas. Limpa a fotografia do marido falecido que ainda encosta a parede de caniço da sala. Assusta um rato que lambe o arroz de ontem; arroz que será ressuscitado no milagre do fogo para ser jantar de hoje e amanhã. Senta-se na sala cimentada de areia, cose memórias amargas e mastiga a fome que lhe cresce na boca. Seus três filhos, com as luvas de sujidade nas mãos, comem no mesmo prato um arroz que tem no topo uma rodela de tomate.

Prepara chá para tomar, mas o açucareiro está de luto. Devolve a chávena, sem pega, com água quente para a cabeça do aparador. Pega sua bacia e descasca as laranjas para vender amanhã. Os miúdos guiados pelo ponto cardeal da fome chegam ao sono. Apenas um copo de água serviu-lhes como farol. Queima papel-higiénico para afastar os mosquitos e escuta os vizinhos jantando.

Os vizinhos com garfo e faca fazem uma banda sonora na fome de Zulmira. Sabe que os restos daquele jantar pela manhã será para o cão e para ela.


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