A estátua de Filipe Samuel Magaia não precisava de uma arma...

Ali na rotunda da Junta, avenida de Moçambique, temos a estátua do herói nacional Filipe Samuel Magaia. Uma verdadeira celebração dum herói que em vida deu a sua vida à causa do país. Um herói que Chamanculo viu nascer. O autor de “Os Miseráveis”, Victor Hugo, disse que “modelar uma estátua e dar-lhe vida é belo; modelar uma inteligência e dar-lhe verdade é sublime”.

Os egiptos sempre procuraram em suas estátuas representar, objectivamente, os seus heróis e faraós – os seus retratos – para que no dia da ressurreição fossem reconhecidos facilmente pelos deuses. A estátua era vista como um caminho a eternidade. Os gregos introduzem o nu na arte. Procuravam fazer uma síntese entre a paixão e a razão em suas esculturas.

E nós tal como os romanos que herdaram as estátuas gregas, arrancamos da nossa história as armas. Produzimos estátuas armadas. A estátua de Filipe Samuel Magaia não precisava de uma arma para ter o simbolismo que se queria nela. A história precisa também ser desarmada. O que queremos? Encher o estendal da nossa memória de armas? Pendurar armas nos quadros do tempo da nossa memória?

Um militar parado. Mirando o caminho que não segue parece uma daquelas estátuas egípcias do príncipe Rahotep e sua esposa Nofret em pedra calcaria presas numa estática que não chega a ser um não-movimento esteticamente aceite.

O estatismo daquele estátua não só cria um engulho estatual, assim como torna o estatuado um verdadeiro herói das batalhas estáticas. A representação iconográfica da estátua de Magaia teria sido uma admirável obra de arte se o seu estatuário tivesse fixado um mínimo movimento nele. Um mínimo movimento típico de estátuas equestres. Uma estátua pedestre conjugado com um pouco de movimento consuma-se a si mesmo enquanto uma obra.

A partir da execrável estátua de Magaia há que pensar em estátuas com um pedestrianismo terreno. Estátuas erguidas que quase pisam o mesmo chão connosco. Estátuas que descem dos altares das rotundas e praças.

Filipe Samuel Magaia olhando o terminal da Junta parece-se mais com a esposa de Ló transformada em uma estátua de sal quando fugia de Sodoma. O estatuário desse herói teve medo de ver a sua obra convertida em sal por isso preferiu mantê-la  parada, olhando para frente.

A estátua é a prisão exacta do movimento e do acontecido no tempo. É a negação da memória que se tem por direito esquecer. Como bem diz Papini a estátua é oferta voluntária da beleza transfiguradora mas a sua função é ainda sempre a de opor-se, até onde for possível, a dissimulada mas perene ofensiva da morte, do tempo que tudo degrada, revolve e consome.


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