A estrutura narrativa de Os funerais de Mubengane

A família serve para isso: para uma pessoa nunca

sentir-se totalmente feliz nem descansada.

Adelino Timóteo

 

Oito contos compõem o recente livro de Aldino Muianga. Neste segundo exercício lançado pela Cavalo do Mar, o escritor continua apaixonado pelos espaços que há mais de 30 anos caracterizam a sua narrativa. Isto é, o subúrbio e o campo apresentam-se como lugares especiais para o autor, nos quais a literatura tem razão de ser. De outro modo, se calhar, não se trataria de Aldino Muianga, afinal o escritor é leal a uma memória que não quer a desvanecer.

Ora, o primeiro conto de Os funerais de Mubengane é precisamente o que dá título ao livro. Como na maioria dos textos, naquele a trama inicia com um problema, que coloca em confronto o remorso e a dúvida, o subconsciente e a realidade. O conto “Os funerais de Mubengane” é a história de uma velha que, sobressaltada por pesadelos, resolve exumar o corpo do filho para o enterrar de outra maneira, num outro cemitério, ao convencer-se que alguma coisa tinha corrido mal no primeiro funeral. Apresentado o problema, o narrador descreve a dor da protagonista e o enredo evolui à medida que a mãe de Mubengane tenta encontrar explicações para um maldito sonho. Nisso a velha ouve familiares e gente próxima, sempre buscando o sossego do finando e dela própria. Portanto, a narrativa é um investimento na resolução de conflitos, com pelo menos três momentos: a apresentação do problema logo no princípio, o processo de resolução do problema e o desfecho resultante disso.

Em termos estruturais, as três partes acima suportam a escrita de Muianga neste seu novo livro. O terceiro conto, “Os sobressaltos do madala Mphongolo” é exemplo evidente. A história do personagem que um dia ousou ajudar uma cobra, como acto de benevolência, começa com ele sobressaltado, por um lado, porque os vizinhos o acusam de feiticeiro por viver com o reptil, e, por outro, porque o próprio bicho, já crescido, põe em risco a sua vida. O conto é sustentado pela determinação do velho Mphongolo, que tenta se livrar do que lhe ameaça o bem-estar. Por isso, farto das acusações e convencido de que poderia morrer numa traiçoeira picada, resolve mudar de residência, conferindo à narrativa uma alternativa de sossego.  

O quarto conto, igualmente, tem num problema na base da história. Na aldeia de Dingane, no regulado de Muzamane, região mais povoada de Manjacaze, instaura-se um alvoroço por causa de uma série de adultérios que envolvem mulheres cujos maridos tinham partido para trabalhar nas minas da África do Sul. Nesta e noutras histórias, como “A frigideira” ou “Uma visita nocturna” há qualquer coisa a inquietar as personagens.

Descrito o universo diegético no momento de partida, com muitos recursos anacrónicos, em geral, a narração neste livro persegue a direcção da tranquilidade, do equilíbrio individual dos protagonistas e do contexto à sua volta. Daí surge o momento final, o desfecho do problema na sequência da renovação de uma eventual harmonia social. Há um interesse moral muito forte nesta estruturação da narrativa por Aldino Muianga. Se no primeiro momento o autor mete-se nos subúrbios ou no campo para de lá retirar histórias típicas, ao mesmo tempo demostra que habitantes desses locais têm uma maneira particular de lidar com os conflitos, preservando o que julgam ser justo ou certo.

Os funerais de Mubengane é um livro de lições, que questiona a durabilidade das relações humanas, entre familiares, amigos ou vizinhos quando as diferenças de opinião e de pensamento configuram-se uma ameaça. É também um livro de preservação de estilo, pois aqui muito facilmente percebe-se que Muianga volta a seguir a linha narrativa de, por exemplo, “O domador de burros”.

Escrita leve, histórias curtas, de leitura fácil e rápida, é também isto o que se pode dizer deste Os funerais de Mubengane, livro que se insere no imaginário e nos comportamentos dos moçambicanos de um certo perímetro até para contar como o país vai deixando de ser o que foi sem ser outra coisa.

 

Título: Os funerais de Mubengane

Autor: Aldino Muianga

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 14


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