A fronteira

Não sinto as gotas de chuva que incessantemente tamborilam o meu corpo e a minha alma. Não sinto a força dos ventos que me chicoteiam as costas. Não sinto o estômago que há três dias reclama pão.

Sinto as mãos que, trémulas, continuam agarradas a um ramo que me faz baloiçar, que nem um pêndulo, ao sabor do vento. Sinto as minhas pernas entrelaçadas em torno deste ramo tornado no último palco da minha vida.

Os meus olhos, impotentes, insistem em manter as pálpebras abertas para sulcar Nyatwa, a filhota que me sobra e que, no outro ramo, também trava a mesma luta: a luta contra a morte.

Mas o que é a morte? Será uma viagem ao infinito das águas para onde a minha esposa e dois filhos seguiram ontem? Ou será este desespero que me mantém nesta fronteira ténue. A fronteira entre cá e lá. É uma fronteira tão leve que cabe nas minhas frágeis mãos calcinadas pelo cansaço, fome e medo. Bastaria que eu largasse o ramo para que a torrente de água turva me levasse para o outro lado. O lado da paz celestial.

O vento sopra forte. O meu corpo fraqueja. Há uma força enorme e oculta que luta contra a heroica missão das minhas mãos. Sinto que a minha hora de atravessar a ténue linha de fronteira se aproxima. Não sei se alguém chorará por mim. A minha esposa já se foi. Dois, dos meus três filhos, seguiram-lhe as pegadas. Um a um. Ou será que lá do outro lado também se chora? Não sei.

A minha certeza é que Nyatwa é a única pessoa, em terra, que provavelmente vá ter algum tempo para chorar por mim. Será fugaz. Também fraquejará em seguida e irá tombar. O melhor, se calhar, seja chorarmos agora. Um pelo outro. Antes de ambos também atravessarmos a linha de fronteira.

O meu coração desata a chorar. A minha força interior não deixa que as lágrimas me cheguem aos olhos. Sou homem.  Apenas devo exteriorizar o amor. Por isso oro. Por mim e pela minha filha.

Acredito que a minha mulher e os meus filhos, lá onde se encontram, por nós aguardam para nos receber de braços abertos. Mas será que lá para cima foram com os braços? Ou estes foram estrangulados pelas águas e atiradas a uma foz qualquer? Ninguém sabe.

A minha Nyatwa continua agarrada ao seu ramo. Contemplo-a. Os meus olhos faíscam nesta voz das trevas. Ela apega-se ao ramo com toda a energia que lhe sobra. O vento faz esvoaçar as suas roupas. O seu rosto está meio franzido e com os dentes à mostra. Penso que é cerrando-os que ela busca a força que necessita para se manter viva. Ainda assim, consigo descobrir a beleza única das suas feições. Como ela é linda! Típico sangue do meu sangue.

Queria eu estar no mesmo ramo que ela, para lhe dar a devida protecção de pai. Não me sobram forças para lá chegar. Consola-me acreditar que os meus olhos são os maiores guardiões do mundo.

O limiar da morte une as nossas mentes. Ela intui o que eu penso. Vejo que tenta gesticular. Quer dizer-me algo que o vento não me deixa ouvir. Prefiro pensar que ela diz que me ama.

«Eu também te amo, filha!», uso o pouco fôlego que me sobra nos pulmões para ensaiar aquilo que devia ser um grito. Duvido que ela me tenha ouvido.

As suas mãos são mais fortes que as minhas. Mas o ramo em que ela se refugia abana ao ritmo do vento. O céu resmunga forte. O raio que solta risca e ilumina os ares. A noite vira dia. Fecho os olhos e estremeço. O coração bate forte e um calafrio atravessa-me a espinha. Quando volto a abrir as pupilas, apenas vejo o vazio da chuva. Nem o ramo, nem a minha Nyatwa.  

Os meus tímpanos captam ecos de um grito abafado da minha filha. É um grito que vira um mantra contínuo na minha mente. O grito do adeus. O grito do aceno aos deuses que habitam o outro lado da tal linha ténue.  

Não choro. Sei que a minha vez também não tardará.  


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