A Galinha sem sabor

Aos profissionais que lutam nas demais frentes contra a Covid, com especial carinho ao Maider, aquele abraço! 

Juvelino passou pelos meninos que dormiam no quarto, na verdade, um cubículo que de dia serve de cozinha e armazém dos inutensílios da família. Para chegar ao quarto-despensa teve que passar pela sala, onde evitou o esbarro com o corpo da filha, Carmelita, já a roncar na esteira de deixar estrias na face ao acordar. Ronquejava embalada pelo cansaço do serão de assobios da rapaziada, desde o entardecer postada do outro lado do cercado que demarca o perímetro do quintal. Fazia algum tempo que os rapazes do quarteirão se revezavam, paraespiá-la entre as frestas da armação de caniço, em busca da sua silhueta. Mas, Carmelita parecia andar de olhos vendados e ouvidos moucos, entregue às lides caseiras, sob o olhar desperto do pai.

?– Minha filha, esses rapazes vão dar barriga!  

?– Pai, casar para mim só depois de acabar a escola! 

Acabar a escola para Carmelita significava frequentar o universitário, sonho inculcado pelo pai, incansável na hora de zelar pela família. Depois de passar pela filha, estirada na sala com uma das pernas para frente, a outra na extremidadeoposta, Juvelino sentou-se à mesa, onde a esposa, Miquelina, o esperava para jantar.

Chegara a casa tarde, a paciência ainda macerada pela demora do chapa, que àquela hora da noite, com as restrições da Covid, infundia nos cobradores a veleidade de escolher os passageiros por transportar: “Papá é grande, não vai dar para sentar trinta.”

Já em casa, famélico, agora estava com a barriga colada nas costas.

– Mas, que galinha é essa que não tem sabor?

?– As crianças gostaram. – Protestou ela – Não sei por que dizes que não tem sabor… 

Antes de qualquer pestanejo, Miquelina havia de ser atingida pelo prato que saiu voando das mãos de Juvelino. Desde que a pandemia se apossara da animação das ruas e barracas, a irritação toma conta dos nervos, dos homens enjaulados em casa, sem álcool a rodos e marandzas de avulso prazer.  

Enquanto Miquelina era atendida no banco de socorros, Juvelino prestava depoimento no Posto da Polícia adstrito ao hospital, acusado de violência doméstica.

– Na verdade também não sei. – justificou-se, enquanto ajeitava a máscara no nariz – O prato voou das minhas mãos! 

– Você, não brinca aqui! – ameaçou o agente – Pratos da tua casa têm asas? 

– Oh, talvez é mau espírito...

Nesse ínterim havia de entrar sob asas do vento Eduardo, Técnico de Saúde, na ponta da língua o nome de Juvelino:

– Juvelino sou eu… Minha mulher morreu?!

– Tens que me acompanhar! – convidou Eduardo, redobrado em cuidados – Rápido!

– Mas, nós ainda estamos a abrir o auto... – protestou o agente da polícia que se ocupava do caso – O colega sabe que isso faz parte do protocolo!

– E onde já se viu? – perguntou em jeito de desabafo um outro agente – Alguém bater a esposa, só porque a galinha não tinha sabor?!

– Talvez seja por isso que estou aqui! – anuncioutimidamente Eduardo – Também fizemos o teste de Covid-19. A esposa dele acusou positivo!

– ...

 ?– Como sabe, a falta de paladar é um dos sintomas da Covid. – explicou o Técnico de Saúde – Vamos, senhor...

– ...Juvelino!

O visado completou a fala, suspensa, no instante em que levantou-se para marcar passo em direcção ao leito hospitalar, no qual por três longas semanas ansiaria pelo regresso  à casa, para enxotar a rapaziada que parece viver só de olho na sua filha Carmelita.  

 

 

 

 

 

 

 


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