A história de um homem que não quis ser rico

A riqueza nem sempre vale o alto preço que por ela se paga.

João Salva-Rey

 

Estas coisas de nos encontrarmos com amigos inspiradores valem sempre. Há uma semana foi com o Celso. Apenas dois minutos de conversa resultaram num artigo sobre o premiado livro Saga d’ouro, de Aurélio Furdela. Desta vez, a conversa durou menos tempo – 30 segundos no máximo –, e foi com o meu colega Emídio, um tipo igualmente apreciável. A seguir, conto-vos como o episódio ocorreu.

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A página do word 2013 que abri no hp permaneceu longos minutos em branco. Poucas vezes isso acontece-me. Geralmente, sento-me diante do computador já com uma ideia sólida sobre o que pretendo escrever. E aí a escrita acontece espontaneamente. Na última sexta-feira à tarde a coisa foi diferente. As palavras passearam distantes de mim. Então, estando ainda na Redacção na qual trabalho, decidi chamar um tipo lúcido para lhe fazer um pedido simples. Foi assim: – Emídio, sugere-me lá uma palavra para que eu inicie um artigo sobre a peça do Mutumbela Gogo em exibição no Teatro Avenida. Naturalmente, antes de se aventurar em qualquer tentativa de resposta, o meu colega fez-me a seguinte pergunta: – Sobre o que trata a peça? Respondi-lhe num ímpeto: – É A história de um homem honesto, um espectáculo sobre um personagem que não se deixa corromper e que... O Emídio não me deixou terminar. De maneira quase atroz, interrompeu-me às gargalhadas, dizendo: – Esquece-me lá, oh Remédios. Se é uma peça sobre um homem honesto eu não sou a pessoa certa para te ajudar. Fim da conversa… e da página em branco.

Mal o Emídio disse-me aquilo, ocorreram-me algumas questões: – Será que o meu colega não é um homem honesto? Ou a honestidade dele está mesmo na humildade de se julgar incapaz de mim ajudar no que lhe pedi? Daí não adveio nenhuma resposta. E nem era suposto. Então resolvi rever o espectáculo do Mutumbela Gogo de memória, o qual, essencialmente, narra a história de Zeferino Fanequisso (Jorge Vaz), que, farto da pobreza, se lança do campo para a cidade grande a fim de buscar melhores oportunidades. No espectáculo, Zeferino Faniquisso é o único homem honesto do universo, por isso um alvo a abater. A namorada/mulher, os colegas, o patrão e a polícia julgam-no um aparvalhado problemático, por não corromper e, sobretudo, por não se deixar corromper. Logo, as suas relações na cidade tornam-se complicadas. Aí entendi tudo. Talvez essa tenha sido a razão do Emídio não querer falar de honestidade, pois referir-se aos honestos, de algum modo, pode implicar citar os desonestos. Na verdade, este é o cenário da peça teatral do Mutumbela. Com os holofotes direccionados a Zeferino, enxergamos os comportamentos, escolhas e receios do personagem, bem como os oportunistas à sua volta no espaço urbano.

Sem rodeios, A história de um homem honesto, adaptada do texto original do autor sueco Henning Mankell, que viveu em Moçambique, é um espectáculo que sugere as razões de a decência estar a tornar-se numa praga no país. Ou seja, se antes as pessoas sensatas uniam-se para combater os corruptos, estes, actualmente, é que se unem para eliminar os decentes. Pelo menos esta é a abordagem da peça que também tem o gigantesco Filipe Branquinho em cena, um dos meus actores preferidos.

Ora, uma das personagens que mais me chamaram atenção na peça foi a mãe do homem honesto (Eunice Mandlate). E justifico. Quando Zeferino deixa a sua aldeia, a mãe, depois de tanto tentar impedir a viagem do filho para a cidade, sem sucesso, obriga-lhe a jurar manter-se íntegro. Conhecendo os vícios da cidade, a velha do campo inventa uma mentirinha de que, caso Zeferino se deixasse levar pela imoralidade, iria magoá-la com fortes dores de cabeça. Isto quer dizer que, embora separados pela distância, mãe e filho estariam conectados. Se Zeferino agisse bem, a mãe seria uma mulher feliz. Se agisse mal, sofreria. Este episódio faz diferença na história, pois mantém o protagonista num determinado percurso – de propósito não digo qual é, mas sempre sugiro. Diante das tentações citadinas, Zeferino ajuda, é aldrabado, humilhado e injustiçado, todavia não perde os seus valores. Continua focado, firme na ideia de sempre agir bem.

Fundamentalmente, há pelo menos duas questões em causa na peça do Mutumbela Gogo. Primeiro, A história de um homem honesto desconfigura a cidade enquanto espaço ético, de convivências autênticas. Partindo de experiências concretas, como as que envolvem os subornos na via pública ou os desvios de fundo do Estado, o espectáculo teatral revela como Moçambique vai-se desintegrando na qualidade de um projecto de desenvolvimento para o benefício dos moçambicanos. E mais, A história de um homem honesto descreve-nos a cidade como o centro dos conflitos, da discórdia, do ódio, da ganância, da hipocrisia e do vale tudo para enriquecer ilicitamente. Todos sujeitam-se a receber luvas em troca de uma ajudinha qualquer, menos Zeferino. O homem honesto é o único que veemente resiste ao enriquecimento abominável, afinal ninguém mais consegue compreender a velha frase bem dita no romance kufemba, de João Salva-Rey: “a riqueza nem sempre vale o alto preço que por ela se paga”. Desde o princípio, Zeferino resiste a pagar ou a receber o que não deve. Logo, recusa como quem combate o vírus por detrás de uma enfermidade que penhora o futuro de gerações de moçambicanos.

Em segundo lugar, num cenário asqueroso a envolver os donos da cidadania, como calha em Hinyambaan, de João Paulo Borges Coelho, Mutumbela Gogo conduz o seu público para onde resiste a esperança de Moçambique: o campo, por lá a palavra “moral” ainda fazer algum sentido. A mãe de Zeferino é a síntese disso. Daí, mesmo sem marido, educar o único filho para ser gente, muito acima da presunção.

Esta versão d’A história de um homem honesto não é dos grandes espectáculos do Mutumbela Gogo – entretanto ninguém perde alguma coisa por ver. Pelo contrário, ganha por se conectar com a realidade. Quase sem adereços em cena, a obra centra-se mais na mensagem a transmitir em “detrimento de tudo o resto”. Zeferino é o verdadeiro centro da peça, o que permite Jorge Vaz destacar-se como quiser. O mesmo não acontece com a personagem Júlia (Silvana Pombal), mulher de Zeferino, ou mãe de Zeferino (Eunice Mandlate), que, para mim, deixaram escapar algum brio na performance, mesmo sem terem actuado mal. Também achei a encenação algo pouco surpreendente, se quisermos, calculável. Como já vi várias peças do Mutumbela e li e ouvi muitas histórias sobre os movimentos campo-cidade, o deslumbre foi-se escasseando. Tal afirmação não faz de A história de um homem honesto um péssimo trabalho. Longe disso. É espectáculo razoável ou então necessário.

Seja como for, o exercício concebido como que a influenciar atitudes tem a virtude de ser uma chamada de atenção pontual, de modo a penetrarmos no âmago do país, de olhos abertos, e de nós próprios como condição para recuperarmos algo perdido lá atrás.

 

Título: A história de um homem honesto

Autor: Mutumbela Gogo

Teatro

Classificação: 13


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