A Muery de Armando Artur

O amor não é a coisa: é a doação

Luandino Vieira

Muery, elegia em Si maior. É o segundo título de Armando Artur lançado pela Cavalo do Mar, essa editora moçambicana que em pouco tempo muito tem feito pela arte literária. O primeiro foi A reinvenção do ser e a dor da pedra, um dos livros vencedores da última edição do Prémio BCI de Literatura. Com a nova proposta, lançada meio ano depois da anterior, o poeta volta a apresentar-se aos leitores com uma escrita suave, mesmo quando sugere enunciados pesados, a relacionar a existência fundamentalmente captada pela visão e o prazer de exprimir realidades dos objectos “inspiradores”. Neste processo, é constante a activação da memória, sempre a memória, como se a poesia fosse dita num ímpeto, de cor, num acto de combate ao olvido. Com isso, consolida-se essa aparente sugestão dos sujeitos poéticos de nos fazer senti-los exprimir-se num exercício causado por imensas contemplações virtuais, alimentadas por propósitos provavelmente pré-definidos.

Muery é um termo echuwabo e quer dizer lua. O sentido esclarecido no texto menos conseguido deste livro (p. 33) é apropriado para estar no título, afinal a poesia de Armando Artur, desta vez, situa-se entre o encanto da luz e as sombras causadas pela iluminação, o que metaforicamente pode significar um misto de emoções, alegria e melancolia causada pela perda irreversível da Muery cantada nos poemas. Quanto à elegia, esse estilo derivado da poesia épica, aqui aparece para fazer jus aos seus conhecidos sentidos: gnómico (sugeridos pelos gregos), amoroso (introduzidos pelos romanos), lamurioso, taciturno e funéreo. É como nos diz Francisco Freire de Carvalho em Lições elementares de poética nacional (Moisés, 1974: 169), “o assunto próprio da elegia são os sentimentos, especialmente dolorosos, que podem dizer-se naturais e comuns a todos entes mortais, quais, por exemplo, os despertados pela ausência, por um amor mal correspondido, pela perda da pátria, ou de quaisquer outros enlaces do coração”.

De facto, a dor manifesta em Si maior – paradoxalmente ou não, essa escala musical que permite o artista fazer-se ouvir num tom álacre – atribui ao novo título de Armando Artur um tom lastimável, sem que isso torne a obra piegas. A obsessão pela transformação da dor (já agora, atinentes aos “enlaces do coração”) em algo utilitário do ponto de vista motivacional, num contacto sempre a perder-se entre os sujeitos poéticos e as Muery, logo se nota, musas com muitos rostos, torna o livro repleto do que o poeta acredita: a escrita como catarse, mas também como liberdade, esse acto de nos juntarmos às aves: “E tu sabes que ser livre é viver na matéria, dela fazendo parte integrante, mas também é ter o poder de levantar voo, quando o livre arbítrio assim o exige” (p. 37).

Os sujeitos poéticos de Armando Artur definem o ser em função do que lhes motiva exprimir-se e em função do resultado disso. Assim, a poesia apresenta-se como mecanismo de íntimas redescobertas, purificação e partilha de determinados estados emocionais.

Em Muery, uma elegia em Si maior, igualmente, paira uma constante divinização da subentendida destinatária da mensagem dos sujeitos de enunciação, como é característico em Adelino Timóteo, com essa aposta de se fazer da imagem um recurso ao serviço do poema ou o inverso. Seja como for, nos curtos textos do livro (alguns a terminarem bruscamente, por exemplo, p. 17 e 18; com mais períodos, melhor é o efeito) Armando Artur atravessa as particularidades da lírica para se reapropriar do que lhe é tão caro: o amor, a doação que justifica esta partilha.

Título: Muery, uma elegia em Si maior

Autor: Armando Artur

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 12

 

 

 

 

 


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