A necessidade da Khatarsi *

Nem a loucura do amor

Da maconha, do pó

Do tabaco e do álcool

Vale a loucura do actor

Quando se abre em flor

Sob as luzes no palco

 

Sirvo-me deste excerto da música de Caetano Veloso, intitulada “Merda”, essa palavra sagrada do teatro, para agradecer a Rita Couto, Sufaida Moyane e Lucrécia Paco, a grande inspiração e luz do teatro moçambicano, que infelizmente não pode actuar connosco hoje, mas sempre fará parte desta família, desta criação que tivemos a oportunidade de levar para todos vocês neste dia tão especial, Dia Mundial do Teatro. Agradeço, primeiro, às actrizes porque elas, assim como os actores em geral, têm a nobre e difícil missão de materializar as ilusões e utopias do encenador e do dramaturgo. Na verdade, eles é que são o próprio teatro. Por isso peço uma salva de palmas para todos actores de todos lugares e de todas as épocas.

O teatro não tem época. É contemporâneo de todos os homens. E sempre esteve lado a lado com a humanidade, sempre em prontidão, como um sol, que nos permite descortinar com mais profundidade e discernimento a vida. O teatro é o lugar que nos permite “viver instantes de pura verdade”, diz-nos Carlos Cidrón, dramaturgo e encenador cubano incumbido de escrever a mensagem oficial da UNESCO, para a celebração do Dia Mundial do Teatro, este ano. E cito-o não só por concordar com ele mas pela necessidade de acrescentar que o teatro é também o lugar da khatarsi, da purificação da alma, tal como Aristóteles argumenta na sua Poética escrita há milhares de anos.

A Khatarsi é um momento de deleite e ao mesmo tempo de terapia. A mais pura manifestação do belo e da dimensão de cura espiritual. Não é a toa que se diz que o teatro é uma religião, mas sem dogmas, pois os seus métodos, técnicas e estéticas estão em constante criação. Todos merecem ter um momento de Khatarsi. E no dia que todos compreenderem que o teatro, e a arte em geral, é o guardião desta mágica sensação, talvez aí os seus fazedores passarão a ter o tratamento político e social que tanto falta neste país. E, finalmente, o teatro assumirá a sua real dignidade, que é a de devolver dignidade à humanidade, cada vez mais fria e materialista.

Falo da khatarsi porque me causa angústia e indignação o problema do acesso a arte e, em particular, do teatro no nosso país. Quantos milhões de moçambicanos crescem desprovidos desta dádiva? Quanto terreno a escuridão vai ganhando? “A cultura é o sol que nunca desce”, disse o presidente Samora Machel e eu acrescento, é urgente levar a luz para a periferia, para as zonas rurais, é urgente iluminar o país de arte e cultura. Porque a arte humaniza, educa, diverte e faz pensar.

 A arte proporciona a Khatarsi, a purificação de emoções ou, se quisermos, na gíria popular, alivia o stress, que é o que não falta no nosso dia-a-dia. Quantas senhoras, nos nossos bairros, aldeias ou vilas, porque nunca tiveram acesso a khatarsi por via do contacto com a arte, libertam o seu stress em forma de violência, batendo nos seus filhos ou discutindo com a vizinhança? Quantos senhores e jovens, até mesmo adolescentes, pensam que só a bebida pode ser a alternativa para atingir a Khatarsi, esse nirvana que devia ser partilhado por todos nós?

Os números são infinitos e acredito que todos temos consciência disso. Por isso é essa consciência que apelo, que cada um de nós seja vínculo, a ponte que permita que mais moçambicanos e gentes de todo o mundo tenham a oportunidade de experienciar a Khatarsi, a nossa tâmara que nos alivia do peso desta vida, muitas vezes feita de desertos e mar de espinhos.

A minha ponte foram homens e mulheres do nosso teatro: Eldorado Dabula, Manuela Soeiro, Evaristo Abreu, Lucrécia Paco, Rogério Manjate, Dadivo José, Maria Atália, Belmiro Adamugy, Joaquim Matavel, Victor Gonçalves, António Cabrita, enfim, eis alguns exemplos dos pilares que me fazem nunca desistir deste sonho. Por isso quero agradecê-los pelos ensinamentos e apoio incondicional e prometer diante de vós partilhar com os outros tudo quanto me ensinaram.

Agradeço também ao meu elenco, a Sara Machado, pelos figurinos, cenários e pela humildade, esse gesto tão humano e humanizante, que não pára de me transmitir. Agradecer os músicos, Robath Cristóvão e Carlos Ebú, por essa evocação espiritual do Mapiko. Muito obrigado Adelium Castelo e Celso Magupela, por registarem, com vossas lentes mágicas, este momento tão especial para nós.

Os agradecimentos estendem-se para o CCFM, por receber o nosso projecto, esperamos estar aqui mais vezes. Ao CCBM, Teatro Avenida e à FFLC, pelo apoio nos ensaios e adereços usados no espectáculo…

Viva o Dia Mundial do Teatro, hoje e sempre!

 

*Mensagem lida depois da apresentação do espectáculo “(Des)mascarado”, de Venâncio Calisto, apresentado no dia 27 de Março no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.


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