A noite de Jimmy Dludlu e de um “filho do Tio Sam”

A noite de Jimmy Dludlu e de um “filho do Tio Sam”

Todo estiloso. Já é habitual. O homem do Chamanculo tem sempre essa tendência de marcar a diferença na forma como se apresenta nos concertos. Na segunda edição do Standart Bank Acácia Jazz Festival não foi diferente. Chapéu à cabeça, um blaze azul a condizer com calças pretas e umas nikes brancas a conferirem-lhe um ar jovial. Pela porta lateral, e não do backstage, lá apresentou-se o monstruoso Jimmy Dludlu, tocando o popularíssimo “Amasiku”. As “mamanas” e as “manas” não se atrasaram. Regozijaram-se.

Jimmy levou muitos minutos até chegar ao palco montando na tenda do Hotel Polana porque no meio daquelas senhoras afinal grandes apreciadoras do afro/jazz sentiu-se entregue ao seu público. Custou-lhe de lá sair. Por isso, a caminhada até à ribalta foi vagarosa. No meio do percurso, sentou-se ao lado de uma espectadora. Sempre a tocar o classic “Amasiku”. O auditório que a essa altura regressava de um breve intervalo, revitalizou-se. Então, enquanto Jimmy Dludlu tocou aquele tema, no auditório revelaou-se o coro: A svi yenceki, Hosi, akurhandza Kawena, ou seja, traduzido do xichanga para o português, Seja feita a sua vontade, Senhor. E fez-se…

As pessoas até aí sentadas levantaram-se. Sorriram, fizeram selfies com o guitarrista, fotografaram e filmaram com os telemóveis, e, enfim, entregaram-se ao Jimmy como que se dissessem: “Ai, Jimmy, por que te atrasaste tanto? Estávamos mesmo à espera disto”. Naturalmente, o guitarrista não teve como responder a essa pergunta jamais feita. O que lhe competia fazer naquela sua segunda participação no Standart Bank Acácia Jazz Festival era tocar nas emoções dos espectadores que, depois da actuação do norte-americano, não imitaram as várias dezenas que foram embora. Talvez por isso o guitarrista teve dificuldades de deixar o auditório. Subiu o palco e desceu degraus frequentemente. A qualidade sonora não mudou. Aliás, a esse nível teve como sempre grande suporte da sua banda, malta Nelton Miranda (baixo), Stélio Mondlane (bateria), Macamisa (saxofone) e Thapelo (teclado). Poucos, mas autossuficientes. Daí a tenda do Polana, localizada na zona nobre de Maputo, ter-se transformado numa espécie de barraca lá da zona, com o músico a insistir nesses banani mavoko (batam palmas). Ao ouvirem temas como “Tote”, “Linda”, “Ha deva” ou a recriação de “Noti dladlalatela”, de Lourena Nhate, lá se ecoaram as palmas como que a validar uma actuação vibrante. E os jornalistas também vergaram-se ao talento do guitarrista: “O Jimmy populariza o jazz. Eu não me canso de ouvir este gajo!”, confessou Leonel Matusse, do Notícias.

Ora, esta edição do Acácia Jazz Festival não teve apenas o guitarrista que provavelmente lança mais um álbum próximo ano. Antes dele, primeiro, inaugurou a segunda edição do concerto Walter Mabas, que tocou seis músicas, uma das quais em homenagem à falecida Zena Bacar. Nada ao acaso. O guitarrista justificou a sua decisão: “Decidi homenagear Zena Bacar porque eu acho que a música moçambicana tem muita diversidade. Eu vi na Zena uma artista que marcou uma era e um estilo de música”. Com Tony Paco (bateria), Muzila (saxofone e voz), Realdo Salato (baixo) e Nicolau Cauaneque (piano) a missão foi bem cumprida.

Com efeito, o momento mais aguardado do espectáculo teve um norte-americano em cena. Joshua Redman veio de lá das terras do “Tio Sam” para pela primeira vez tocar na Pátria Amada. O saxofonista com 50 anos de idade, filho de artistas (pai saxofonista e mãe bailarina), agradou o Polana, tendo, durante os 60 minutos que esteve no palco, arrancado os aplausos dos que o conheciam e dos que o passaram a conhecer.

Na sua actuação, o Saxofone tenor, acompanhado por um trio, foi contando histórias das suas apropriações, as quais conduziram o expectador atento à tão sedutora “Garota de Ipanema”, de Tom Jobin, ou a “Hô-bá-lá-lá”, de João Gilberto, passando pelos beats do Hip-Hop. O sax do norte-americano fez ecoar um jazz standard, aparentemente misturado com fusões da MPB (Música Popular Brasileira).

Na cidade de Maputo, Joshua Redman soprou numa altura em que se comemorava o Dia da Acção de Graças, nos Estados Unidos de América. O americano referiu-se a essa data especial aos americanos e à pequena celebração que teve com os amigos no hotel onde esteve hospedado. E, claro, agradeceu aos moçambicanos, que são maningue nice para os estrangeiros: “Queremos agradecer profundamente esta recepção calorosa de todos vocês nesta nossa estreia no vosso país”. Depois disso, Redman tocou “Summertimes”, e, quase à beira mar, que o Polana está mesmo ali ao lado do Índico, curtiu as acácias metaforicamente montadas no interior da tenda de espectáculo.  

 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique