A Operação “RRR” de Miguel Luís José…

Hoje caiu-me uma surpresa que pouco esperava. O Miguel Luís José, aquele que anda em todo lado com a sua Operação “RRR”, veio cruzar o meu singelo caminho. Miguel é estudante de Direito em Portugal e, como eu, carrega um par de óculos, que se sustenta nos círculos das orelhas e no trapézio do nariz. Está de férias e em breve voltará a Lisboa. Sentei-me com Miguel em frente ao pequeno jardim que se situa em frente ao Museu da Moeda. Parecíamos velhinhos. A todo momento ajeitávamos os óculos que não paravam de gotejar sobre a liquidez das nossas gargalhadas. E soube que a operação “RRR” quer dizer: Reencontrar, Reviver e Recarregar. E de facto fizemos tudo isso naquele jardim. Reencontramos os ares da nossa cidade pelas narinas da Europa, revivemos o pouco que as nossas idades minúsculas permitiram-nos e recarregamos os nossos sonhos com botijas de esperanças e soros de certeza.

Miguel encontrou-me enquanto estava terminando um texto para essa coluna; ligou-me. Saí correndo para o receber. Abandonei a crónica e fui ver o jovem estudante de Direito. Miguel é um jovem de uma humildade de atrapalhar até a sua sombra. Fala com o corpo todo; não que se agitasse quando falasse, mas sim, sentia-se o corpo todo presente em cada palavra. Em cada palavra Miguel pouco falava; expulsava a sua alma coberta de humildade e agitava o silêncio que nos rodeava. Falamos de Portugal, dos livros clássicos que sonho em ter, que em Portugal se compram a preço bem barato. Havia uma espécie de ligação mútua em nossas conversas. Falávamos dos mesmos lugares, das mesmas pessoas, das mesmas peripécias da nossa cidade de oportunidades predestinadas e do crescimento material da nossa cidade.

Dentro de mim me recordei que Miguel já esteve no Estádio de Frankfurt; bem na entrada. Sangrei lembranças amargas no mesmo momento. Veio-me à memória o dia em que perdi a minha mala no Aeroporto de Frankfurt e para abençoar a desgraça perdi o voo que me deixaria na cidade de Hannover. Só com a operação “RRR” para me recordar disso. Só com o Miguel para essa imagem me aparecer a preto e branco na memória.

Miguel em breve voltará a Portugal para terminar o curso de Direito. Regressa para novamente cruzar as ruas de Lisboa com uma mochila de livros carregados de leis e normas. Ele regressará e eu ficarei aqui na cidade procurando uma acácia qualquer para urinar o refrigerante que não tomarei com ele. E ele regressa a Lisboa; sairá de Ndlavela para Lisboa. E escrevo esta crónica porque sei que ninguém mais será capaz de me interromper daqui a alguns dias. A cidade é o fardo que terei nas costas quando Miguel regressar a Lisboa. Se aprendesse de Miguel a ciência das leis será que denunciaria nas mais altas instâncias a pobreza que me persegue em todas esquinas? Tenho uma pobreza que em todas esquinas me faz parar e aponta-me um canivete de fome.

Parecíamos dois velhos sentados nas cadeiras brancas do jardim. Tínhamos vergonha de olharmo-nos sem intermediários, por isso cada um espreitava dos óculos. Miguel conhece Áustria e vários países da Europa; ele vive e estuda na Europa. E eu recordo-me que já beijei uma moça da Áustria. Uma moça que não conhecia vários países da Europa; vivia e estuda em qualquer país fora da Europa.

O Miguel fez o ensino secundário onde eu, também, fiz. Tivemos os mesmos professores, circulamos nas mesmas salas, entoamos o hino nacional no mesmo pátio e equilibramos os nossos corpos gordos de magreza nos mesmos corredores. A operação “RRR” meteu-me no comboio do tempo. E esse comboio era muito rápido; parecia um daqueles comboios eléctricos da Europa. A operação “RRR” teve um pequeno momento de contramão. Miguel disse que queria fazer filosofia e que um dia sentar-se-ia para mergulhar nela. Rimo-nos porque eu disse a ele que meu sonho era ser um grande advogado. E prometi que ainda faria. Terminou a operação de Miguel e termino assim a crónica. Termino agora senão ainda vem o Miguel com seus óculos interromper-me.


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