A promessa de me tornar mulher

Sentado langorosamente na sua cadeira de balanço feita de madeira pau-preto, com o assento em rede de pesca, na varanda frontal da nossa vivenda, era ali onde o meu pai pensava os problemas. Estávamos em inícios dos anos setenta. Naquela altura, para a minha sorte, ele concentrava-se mais nos problemas. Andava nervoso com as notícias que chegavam da América, pela Voz da América. Os negros americanos agitavam-se para a supressão da segregação racial, para mais direitos sociais e civis. Em Moçambique, a FRELIMO terrorista, composta por traidores do regime, estava cada vez mais próxima do poder. O meu pai acreditava que, caso Marcelo Caetano cedesse à pressão internacional e a dos terroristas que se faziam sentir pela África toda, ele teria de voltar à sua esposa branca que deixara em Portugal.

Por mim, ele devia partir o mais rápido possível. Talvez assim as coisas em casa tomariam um rumo melhor. Eu e os meus irmãos já poderíamos frequentar a escola e eu passaria a mandar em casa, já que a minha mãe nada fazia senão obedecer-lhe.

Passaram-se quinze anos e a promessa de que, por ser filha de branco, teria maior acesso à escola, à boa educação, nunca mais se concretizava. Por vezes pensava que meu pai contava-nos estórias para que ninguém em casa fosse mais esperto que ele. À minha irmã mais nova, ele ensinava a ler. Eduarda era o tesouro dele. Protegia-a tanto, que por vezes eu tinha medo que, tal como eu, Eduarda viesse a ser vítima de abuso sexual.

A primeira vez que o meu pai violou-me, tinha eu dez anos. Ele mandara a minha mãe passar a tarde em casa da minha tia, juntamente com os meus dois irmãos mais novos. O meu pai disse-me que ao dormir com ele, estaria a tornar-me mulher e que como mulher ele dar-me-ia tudo o que eu quisesse, incluindo meter-me na escola rudimentar. Eu seria mais mulher que a minha mãe, garantiu-me. Eu sabia que não tinha escolha pois a palavra do meu pai era uma ordem. Ninguém em casa ousava repudiá-la. Enquanto ele penetrava em mim, eu chorava em voz baixa, para que ele não me repreendesse.

A minha mãe não queria ouvir falar no assunto. Para ela, eu devia dar graças a Deus que morávamos em casa de cimento e que nada nos faltava.

Aos 15 anos, eu perdera a idade de ingressar para a escola primária. E quem não fizesse o primário, não poderia obviamente fazer o secundário, nem sonhar com o ensino universitário. Este facto revoltou-me sobremaneira, que decidi tornar-me terrorista. O meu pai tinha de se ir embora e a única forma de para tal contribuir seria aliar-me aos traidores do regime.

Alfabetizei-me na mata, por indígenas.

Após 30 anos de independência, o meu pai regressa a Moçambique, onde pretende estabelecer um empreendimento turístico e pede-me para ser sua sócia. Na minha vida, ele era persona non grata mas no meu país ele seria bem-vindo e eu como Ministra do Turismo teria de agilizar o processo para que ele se estabelecesse em Moçambique como empresário.

  • Dou-te tudo o que quiseres! – disse ele, para me convencer a ser sua sócia.

 

  • Torna-me mulher, não é Manuel? – gritei, descontrolada.

 

Manuel baixou a cara, esperando que eu continuasse com o meu desabafo, mas eu não queria revisitar aquele passado atroz, que fez de mim avessa ao sexo oposto. Não tenho filhos, não sou casada e abstenho-me ao sexo. Tornei-me numa grande mulher, sim, mas noutras frentes, onde constantemente me realizo como mãe, esposa e, até certo ponto, como amante. Sirvo a minha comunidade e ao meu país em geral. Depois de ter sido privada das letras, hoje sou uma leitora ávida. É nos livros onde me sinto verdadeiramente mulher. Eles é que me dão a emancipação que nenhum homem ou filhos me poderiam dar. De mim não exigem, de mim não esperam.

O Manuel não merece existir na minha vida. Propus ao Ministro dos Negócios Estrangeiros que fosse seu sócio, na esperança longínqua de lhe ser decretada persona non grata na primeira falcatrua que lhe fosse detectada.

Fim

 


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