A racionalidade do distanciamento social

Não há dúvidas para ninguém que África poderá ser num futuro próximo o novo epicentro da pandemia do novo coronavirus. Por isso, a Organização Mundial da Saúde, OMS, tem estado a apelar os países a testarem todos os casos suspeitos e a tomarem medidas para conter a propagação da doença.

E a medida que se mostrou eficaz em vários cantos do mundo é o distanciamento social, que consiste em encerrar tudo e mandar as pessoas ficarem em casa. A medida pode parecer irracional, mas tem a sua racionalidade e funcionou, por exemplo, em Macau e outras partes do mundo.

Moçambique é dos últimos países do mundo a registar casos do COVID-19, por isso, tem à sua disposição exemplo de países e ou territórios que foram felizes na contenção do alastramento da doença, mas também tem os maus exemplos, de países que achavam que encerrar tudo era uma medida exagerada e agora tem os seus sistemas de saúde quase que literalmente “esmagados” pela pandemia. E estamos a falar de países do primeiro mundo que de longe têm os melhores sistemas de saúde do mundo.

Infelizmente Moçambique está a optar em seguir o último exemplo. O nosso Governo prefere pagar para ver. Esperar até que a doença tenha afectado um determinado número de pessoas para tomar as medidas drásticas. E se esquece que nessa altura já não teremos capacidade para controlar a pandemia.

A partir do momento que a África do Sul e Portugal (países com os quais temos maior circulação de pessoas) notificaram os primeiros casos devíamos ter adoptados medidas drásticas que incluem o encerramento de fronteiras para a circulação de pessoas e voos internacionais. E teríamos feito o que os outros países do mundo fazem, as fronteiras só ficam abertas para a circulação de mercadorias.

Já temos casos notificados no país, mas mesmo assim o Governo se mostra hesitante em tomar medidas para controlar a doença, não obstante haver condicionalismos constitucionais para a declaração de um Estado de Emergência que precisam ser sanados. Mas há a percepção de que todos que decidem pensam que a doença está sob controlo, o que é um redundante engano. É difícil controlar o COVID-19, porque a pessoa só passa a ser suspeita de estar contaminada quando apresentar sintomas e mesmo sendo assintomático se estiver contaminado não deixa de propagar a doença pelas pessoas com que vai mantendo contacto.

E o primeiro grande erro que o país cometeu foi apenas submeter à quarentena obrigatória apenas as pessoas provenientes de países com registo diário de 100 novos casos ou com mais de mil casos notificados, tal permitiu que durante muitos dias pessoas provenientes de Reino Unido, Portugal, África do Sul mesmo estando contaminadas e sem sintomas pudessem propagar a doença porque a quarentena não era obrigatória.

O rastreio feito nas fronteiras e aeroportos não é garantia de nada e isso está mais do que provado, nem podemos nos fiar na quarentena obrigatória porque está mais do que garantido que o nosso país não tem capacidade de policiar a todos que estão em quarentena, por isso, dependemos da boa vontade e consciência de cada um.

Moçambique nem está a conseguir coordenar com os países vizinhos, por exemplo, África do Sul que é o país com mais moçambicanos na diáspora e com mais casos na África Subsaariana, sobre as medidas de contenção da doença. Aliás temos estado a reboque dos sul-africanos. E isso tem consequências. É que o Governo sul-africano decidiu fechar tudo e em Moçambique está tudo aberto a consequência imediata é que moçambicanos e sul-africanos atravessam a fronteira aos milhares quer os que já estão infectados, quer os que estão saudáveis.

Apesar de haver a obrigatoriedade de terem que observar a quarentena a verdade é que possivelmente poucos irão observar essa medida porque não temos capacidade de controlar essa quarentena. Nos bairros e aldeias aguarda-se festas de recepção dos migrantes acabados de chegar da África do Sul, de certeza, alguns que se calhar não vêm à terra natal há vários anos.

Se o Governo moçambicano tivesse igualmente decidido encerrar as fronteiras e um “lockdown” em todo o país ou na zona sul, os que estão na África do Sul haveriam de preferir ficar lá porque na mesma não teriam a liberdade que agora procuram em Moçambique, nos dois países. E dada a melhor capacidade da África do Sul tratar os doentes muitos prefeririam ficar lá.

Outra preocupação é que com o regresso dos moçambicanos as áreas de maior risco de contaminação pela doença deixam de ser as principais cidades e agora o risco se alastra para as zonas rurais, alguns dos quais recônditos como Machaze em Manica, Chibabava e Machanga em Sofala, alguns de Inhambane, Gaza e Maputo, porque é dessas regiões donde provém a maior parte dos moçambicanos que trabalham na África do Sul. Portanto em teoria uma melhor coordenação inter-estadual poderia ter evitado a massiva fuga de moçambicanos da África do Sul, o que pode sobrecarregar o nosso Sistema de Saúde já débil, apesar de ser responsabilidade do nosso Estado proteger e cuidar dos cidadãos nacionais, pelo que sempre teríamos em quaisquer circunstâncias que receber os nossos emigrantes.

Até agora a nossa capacidade de testagem está em menos de dois mil e só pode ser feita em Marracuene no Instituto Nacional de Saúde. Para se poder fazer na Beira e Nampula o país aguarda pelo donativo da China de 20 mil kits. Com a exposição gritante que nos colocamos por hesitação, 20 mil não será nada.

A justificação dada pelo Ministro da Saúde, Armindo Tiago, para o país não tomar medidas drásticas é que era preciso evitar o colapso da economia, mas a nossa economia haveria sempre de colapsar tal como está a acontecer com todas outras, pelo que sem tardar era só seguir a mensagem que circula nas redes sociais que diz “FALIDO RECUPERA-SE, FALECIDO NÃO”.

A outra coisa que não entendo é que muitas empresas e instituições têm a prerrogativa de tomar medidas de prevenção contra o COVID-19 e continuarem a funcionar mesmo no pico da epidemia, mas todos estão à espera que oficialmente haja um número que justifique tomar medidas severas, mas todos estamos conscientes de que esta doença vai nos afectar severamente. Porque não tomar já medidas, e garantir que tem funcionários colocados em protecção, para quando os que estiverem a trabalhar não puderem mais os outros serem chamados a continuar com as operações? É preferível funcionar agora a “meio gás” e manter-se a funcionar por muito mais tempo, do que funcionar a todo vapor agora, para dentro de poucos dias colapsar porque manteve todos os seus funcionários em risco.

Se como país e empresas não tomarmos agora medidas sérias de prevenção quando acharmos que chegou a altura de as tomar já estaremos aniquilados, pior porque a nossa capacidade de diagnóstico é bastante fraca.

Se acham que estou a mentir, analisem com muita calma o que se está a passar na Itália, na Espanha, na França e nos Estados Unidos de América.

Que Deus abençoe Moçambique!

 

 


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