A redenção literária de Almeida Cumbane

Talvez num futuro longínquo se saberá que a literatura não é um simples jogo de palavras cabeceadas pelo peito das ideias. A literatura, e em concreto o romance, não é uma partida de ideias onde os sonhos e a realidade são enrolados num pano de ficção para servirem de bola de trapos. Uma partida cujo principal objectivo é divertir os homens que sonecam na bancada central sombra da vida. Quando se lê “Ilusão à Primeira Vista” de Almeida Cumbane percebe-se isso. Almeida põe-nos olhos de ver o romance como um espaço de apresentação e representação da condição humana. Ele usa o romance para nos auto-revelar a realidade que escondemos e nos deixamos esconder nela. O romance afirma-se em Almeida como um palco de redenção do homem.

Giovanni Papini dizia que o romancista não é apenas o mineiro ou pescador do seu inconsciente. Mas é também um escravo de seres que se servem da sua arte para regressar ao palco do mundo. E este regresso ao palco do mundo dá-se por aquilo que Papini chama de “rápida ilusão de intimidade”. Eis a redenção que encontramos em Almeida. A redenção que a “Primeira Vista é uma Ilusão”, mas acontece de seguida pela rápida ilusão de intimidade com todo o enredo do livro.

Os molhos de parágrafos que Almeida serve-nos em tabuleiros de palavras têm um sabor da paisagem imparcial e concisa da sociedade moçambicana. Através do professor André Fernando Matuassa percorremos os vários países que existem no nosso país, descobrimos o que a Unidade Nacional separa, escorregamos nas calçadas da política e caímos em campos de corrupção e injustiça social.

Os limites culturais e geográfico jogam um papel muito importante neste enredo. Quando li, pela primeira vez o romance esperava encontrar um baralho incompressível dos vários entes-culturais que fazem o nosso país. Estou acostumado a gente que se predispõe a tratar dum assunto nacional e que no meio da narração puxa tudo para sua cosmovisão cultural. Mas, Almeida soube medir e aferir os grandes países culturais que existem no nosso pequeno país.

A revelação da condição humana, neste romance, faz-se por meios de dois caminhos: o amor fracassado e o questionamento quase existencialista do professor André. “Ilusão à Primeira Vista” narra as peripécias de um professor. Aqui podemos abrir um parêntesis para dizer que Almeida Cumbane é professor. E estamos, talvez, perante um romance de auto-ficção. Subgénero cultivado por um dos meus favoritos romancistas, Lobo Antunes.

Almeida teve o cuidado de tornar esta narrativa um conjunto de narrativas. Ou seja, usando a sua técnica construiu outras narrativas que nos aguçam o apetite pela independência e dependência do enredo principal. A escrita de Almeida surpreende, outrossim, por uma espécie de desconstrução e provocação.

Papini dizia que os que escrevem romances só por lucro e vaidade são os servidores dos gostos do tempo e dos leitores previstos. Mas, os que escrevem romances por impulso do seu génio criador são escravos das suas próprias criações. O romance de Almeida Cumbane mesmo contado a história despedaçada amorosa e socialmente de André, homem de coração desfeito por amor pela Nweti, não se desfaz da sua unidade narrativa. Consegue comunicar-se com cada parte dos seus elementos porque tem como fio de união um génio criador natural.

“Ilusão à Primeira Vista” é o livro que devemos escolher para compreender a vida e as escolhas que o coração faz dela. É verdade que não é um romance que procura arquitectar passados como tantos outros. Mas é um romance que vende o passado pela senha do perdão. E estando no presente procura cheirar as pegadas dum futuro que ainda não passou: “diga apenas que me ama. Que vai sair da cadeia na próxima semana para recomeçarmos uma vida honesta” diz Inocência no fim. E mostra que ela não era uma ilusão.

 


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