A representação do negro na literatura colonial em Muende de Rodrigues Júnior

Resumo

A representação da imagem do outro na literatura, foco do artigo, feita pelos europeus iniciou-se com os movimentos expansionistas na necessidade de exaltar os seus feitos. Com isto, surge uma literatura que procura enaltecer os seus valores em detrimento da terra e da sua gente, africanos, à luz do etnocentrismo europeu. Advém daí que as personagens de origem europeia em muitos romances deste período, caso do MUENDE de Rodrigues Júnior, não só estão em larga maioria em relação às personagens negras ou mestiças como também são objecto de melhor tratamento. Nas obras que revelam uma atenção especial por parte do narrador podem, em alguns casos, obter estatuto de personagens modeladas.
Por outro lado, neste artigo, procuramos mostrar os processos sobre os quais se circunscreve a imagem do negro na literatura colonial a partir de MUENDE de Rodrigues Júnior


Introdução
Abordarmos os estudos literários em estreito vínculo com a historiografia de Moçambique vista em MUENDE de Rodrigues Júnior, exige enfrentar muitos desafios e periclitantes deambulações em busca de fontes fidedignas e isentas de qualquer preconceito que, afinal, nas palavras de Francisco Noa (2012), “preconceito é um mecanismo de negação do outro, uma pressuposição a partir de factos que julgamos conhecer ou que nos parecem óbvios”, NOA (2012:226).
 Mais difícil ainda, é, na verdade, desencadear uma pesquisa cujo foco temático é um tanto quanto “escorregadio”, pela aferição dos seus impactos sociais, culturais, políticos, económicos e mais, se torna inevitável revolver um passado histórico, necessário mas, marcante a figuras vivas e renomadas da história da construção da Nação moçambicana, em particular e de África, em geral, visto que o termo “colonial” desperta alguns fantasmas que têm a ver com sentimentos de culpa, ressentimentos e mágoas ainda latentes.
Se não se pode estudar a literatura isolada de toda a cultura de uma época, é ainda mais nocivo fechar o fenómeno literário apenas na época de sua criação.
Agostinho Goenha (2006), faz uma análise interpretativa em torno de duas narrativas ficcionais: Muende e Coronel Sardónia, Gente Desencontrada, mais na sombra de um menino, de Rodrigues Júnior e de Amaro Monteiro, respectivamente, através da qual tenta “compreender e interpretar o discurso colonial, em parte, à luz da teoria “pós-colonial”, com o propósito de se construir uma ideia, ou uma imagem do tipo de sociedade proposto nos textos”, GOENHA (2006:07).
Com este propósito, Goenha procura, no seu estudo, contrariar a ideia de que os estudos e, sobretudo, a crítica sobre as literaturas africanas têm sido feitos com um fundo de uma visão exterior ao seu continente, à sua realidade e até com uma certa impositividade.
Para nós, com base na história e ficção, tal como Goenha o fez, embora não estejamos a fazer um estudo comparado, preocupa-nos, na obra em análise, uma compreensão da representação que se mantinha em volta da imagem do negro na literatura colonial que a mesma emana em si, assomada negatividade na visão do Ocidente. Aliás, facto que levou a João Albasini (1925), concluir que “… nasci debaixo de má sina. Faço todo o bem que posso mas nunca, a não ser de Deus, recebi senão afrontas e repelões. (…) ” ALBASINI (1925:18).  
É neste contexto que o nosso estudo tem como objectivo compreender como é que o negro é tratado na literatura colonial a partir da obra MUENDE de Rodrigues Júnior. Advém daí, o facto de levantarmos a seguinte questão: Como é que o negro era subvalorizado nos textos da literatura colonial? Portanto, o nosso estudo nasce, primeiro da percepção que tivemos depois da leitura dos textos da literatura colonial, onde constatamos que os mesmos possuíam uma forte carga de descrição do Negro; segundo, depois de percorrermos a tese de Goenha tal como o fizemos em outras obras que versam sobre este período, não só se devia trazer ao conhecimento a descrição do local advogado por Agostinho Goenha, como achamos necessário revolver e “visualizar” a imagem que se cultivava em torno do negro-africano no período colonial.
 Ainda assim, julgamos que este estudo é de grande relevância, primeiro, pelo princípio da ancestralidade e, mais do que isso, por a obra MUENDE ser um espelho do colonialismo em Moçambique, em particular e de África, em geral.
Outrossim, por abordar uma temática típica das literaturas que emergiram do tecido colonial, um momento conflituante que, quanto a nós, merece um tratamento especial no meio académico ainda que, segundo Venâncio (1992), “as literaturas de Moçambique e de Angola tornaram-se fundamentalmente políticas”, (p.59).
Diante das linhas que configuram este trabalho, apontamos a seguir uma breve revisão da literatura, onde apresentamos alguns conceitos e estudos que nos permitem construir uma visão da imagem do negro no período em alusão. A seguir, discutimos primeiro, a representação do Negro na literatura colonial em MUENDE de Rodrigues Júnior e, em segundo, a representação social e cultural do Negro: oposição colonizado vs colonizador. Depois apresentamos as conclusões e recomendações e, lá mesmo no fim, aparecem as referências bibliográficas.

A representação literária
Segundo Bernardo de Chartres (século XII) citado no manual do aluno 12º ano “somos como anões que vemos longe, porque estamos sobre os ombros dos gigantes que nos antecederam, os Por essa via e, de acordo com o acima plasmado, no presente estudo, a revisão da literatura estará inserida à parte, estando ela distribuída de maneira transversal em todo o trabalho e, para uma correcta sustentabilidade recorremos a vários autores (NOA, 2012; AMÂNCIO, 1994; SHAW, 1982; MACHADO E PAGEAUX, 1988; REIS & LOPES, 2000; SILVA, 1988; BORREGANA. A.A, 2000; BARTHES, 1982; entre outros).
A relação entre a literatura e a realidade é pertinente, na medida em que permite avaliar como é que o texto literário constrói um mundo imaginário. Na esteira deste postulado, Roland Barthes (1982), defende que “a estratégia textual de notação de pormenores e de descrições exaustivas na narração corresponde a necessidade de produção do “efeito do real”, pelo qual se constrói a imagem da atitude realista de representação do mundo”.
Ao se falar da questão da representação do mundo empírico numa obra de ficção, levanta-se a problemática do realismo, como forma de entender e analisar até que ponto esse mundo empírico pode ser construído ficcionalmente pelo autor numa narrativa, isto pelo facto da representação se basear na simulação do objecto que o inspira, no nosso caso, o negro em MUENDE de Rodrigues Júnior. À luz dessas reflexões, Philippe Hamon afirma que “o realismo em literatura é uma questão de convecção estética, uma espécie de programa ou conceito táctico invocado por uma geração de escritores para se desmarcarem de uma geração precedente (…)” PHILIPPE. H. (1984:131).
Para Reis e Lopes, “a representação não é mais do que a interdependência entre o representante e o representado, de tal modo que o primeiro constitui uma mediadora capaz de concretizar uma solução discursiva que, no plano da expressão artística, se afirma como substituto do segundo que, entretanto, continua ausente”. REIS & LOPES (2000:346).
No entanto, a principal forma de representação do moçambicano nos nossos textos, está pejada de elementos qualificativos, concretizada através do uso intenso da adjectivação. O termo preto era o adjectivo mais usado quando se queria fazer referência ao natural do país, Moçambique e, de África no seu todo. Neste contexto, Noa (2002:87), aponta que “um factor definidor da literatura de ficção, é que ela participa na composição de mundos possíveis e convoca para cada um destes mundos, uma ideia de realidade que acaba por se articular, por semelhança ou contiguidade, com o mundo empírico no qual nos movemos” e em conformidade com Lubomir Dolezel, citado por Noa (2000), “ a acessibilidade do mundo ficcional efectiva-se a partir do mundo real que concorre de forma marcada, para a formação do mundo da ficção”.
A representação literária, isto é, a mimese, não é mais que um pano de fundo que torna percetível o carácter indirecto da significação, RIFFATERRE (1984:99).
Neste contexto, notamos que há uma relação, de forma mais ou menos nítida, mas não literal entre a literatura e a realidade. A literatura pode ser vista como uma representação ficcional da realidade ou do mundo empírico.
Entretanto, quando se fala da representação de um mundo empírico numa obra literária, emerge em nós a problemática do realismo, como forma de entender e analisar até que ponto esse mundo empírico pode ser construído ficcionalmente pelo autor numa narrativa, dado que a representação simula o objecto que o inspira.  
De notar que embora seja consensual a existência da relação entre a literatura e a realidade, tal facto não implica uma estrita fidelidade especular entre o mundo construído e o mundo real. Nesta perspectiva, Reis & Lopes afirmam que:
A análise dos textos narrativos ficcionais deve concretizar-se nos termos de um equilíbrio entre dois extremos evitáveis: por um lado o que perfilha uma postulação de tipo imanentista, recusando o estabelecimento de quaisquer conexões entre o mundo possível do texto e o mundo real; por outro, o que cultiva uma atitude imediatista, lendo toda a narrativa como reflexo especular do real e não modelada de eventos e figuras empiricamente verificáveis como existentes REIS & LOPES (Op cit:348).
Assim, concluímos que o texto literário pode transportar consigo, aspectos reais do mundo empírico real ou um mundo que apenas existe nos textos.
Entretanto, na criação da realidade, o papel do escritor é importante, visto que a forma como o faz, o sentimento, a sua vivência em relação ao mundo, pode ser primordial na medida em que lhe permite ter uma larga imaginação, deformando deste modo, o mundo empírico pelo aumento ou redução do real.

Estereótipo e Preconceito
Os conceitos de estereótipo e preconceito estão na origem não só na cultura em que o indivíduo está inserido, mas também nas normas e valores do grupo de pertença tal como advoga Francisco Noa, que “preconceito é um mecanismo de negação do outro, uma pressuposição a partir de factos que julgamos conhecer ou que nos parecem óbvios”, Noa (2012:226). Todavia, Amâncio, refere que “a formação de estereótipos é vista como resultante do sistema de valores dos indivíduos e constituindo uma ordem significante da realidade que lhes permite orientar-se e adoptar-se, e a interdependência entre o estereótipo e o sistema de valores é considerado determinante de resistência a mudança e de rejeição da informação que é incongruente com o estereótipo”, AMÂNCIO (1994:35). Mas para Machado e Pageaux (1988), afirmam que estereotipo é um ponto de encontro entre uma sociedade determinada e uma das suas expressões culturais simplificada, reduzida a um essencial ao alcance de todos. Enquanto para Shaw, “Estereótipo é uma concepção simplificada e estandarzida, com especial significado, para os membros de um determinado grupo” SHAW (1982:186).
 Em literatura, o termo estereótipo pode reportar-se a um cliché, uma figura, situação, resposta estandardizada, uma tradição ou um costume firmemente enraizados, SHAW (Op cit:187). Na obra em estudo, MUENDE, o negro aparece como um símbolo de tudo o que caracteriza o negativo, ou seja, como um ser inferior e inculto, cujos hábitos e costumes o remetem ao selvagismo e um ser que precisa de ser civilizado. Por esta perspectiva, Lígia Amâncio afirma que:
“A formação de estereótipo é vista como resultante de um sistema de valores de indivíduos e constituindo uma ordem significante da realidade que lhes permite orientar-se a adaptar-se, e a interdependência entre o estereótipo e o sistema de valores é considerada determinante de resistência à mudança e de rejeição da informação que é incongruente com o estereótipo” AMÂNCIO (Op cit :35 ).
Do mesmo modo que acontece na representação, no estereótipo de igual forma se observa o problema de hierarquização de culturas, em que se nota a valorização de cultura do “Eu” em detrimento da do “outro”.
O exemplo extremo de estereótipo, bem nítido em MUENDE, cerne do nosso estudo, é a imagem do negro como preguiçoso, selvagem, ladrão, inculto, primitivo, etc. Na verdade, esta representação negativa do negro não se situa apenas na obra em estudo tal como podemos encontrar em outras obras pertencentes a esta fase, doutrinaria, da literatura colonial caso do romance O Vélo d’Oiro de Henrique Galvão, Zambeziana-CENAS DA VIDA COLONIAL de Emílio de San Bruno até de O branco de Motase, Sehura e Calanga de Rodrigues Júnior.        
Ainda assim, é necessário que se perceba que, estereótipo não se refere simplesmente a aspectos meramente negativos, entenda-se sim que pode ser caracterizado pelos aspectos positivos caso de carinho, sensual, trabalhador, afectivo, etc.
A literatura colonial, na qual se enquadra MUENDE, reveste-se de conclusões estereotipadas dada a forma como traz e transmite as informações. Esta dimensão multipreconceituosa que é, no fundo, uma manifesta negação do direito à diferença, institui-se como uma das imagens de marca desta literatura que no entender de Bhabha, “é um modo de conhecimento (ou não será, antes, pseudoconhecimento?) e um modo de poder, BHABHA (1995:66).
Como se percebe, estereótipo constituiu um valor ou opinião engendrados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento da realidade circundante. Constitui-se como uma visão do mundo ingénua, que se transmite culturalmente e reflecte crenças, valores e interesses de uma sociedade ou grupo social.
Ademais, o preconceito é uma atitude discriminatória circunscrita nos conhecimentos surgidos em determinado momento como se revelassem verdades sobre pessoas ou lugares determinados, aliás Chalote Buhler, citada por Francisco Noa (2002) secunda que;
“a formação de estereótipos resulta de um processo chamado inculcação, que comporta três fenómenos, a saber: diferenciação: fixação de determinadas características marcantes do “outro”, como por exemplo, a cor da pele, a forma do cabelo, etc.; identificação: fortalecimento do sentido de pertença do “eu” a um grupo em função da partilha de determinadas características comuns; e esteriotipação: introdução de juízos de valores no sentido de comprovar a superioridade do próprio grupo e da inferioridade dos outros”. NOA (2002:303)             
Na verdade, o preconceito é algo que o indivíduo carrega consigo. Uma pessoa pode ser preconceituosa e, nem por isso, manifestar a discriminação. Normalmente o preconceito é causado pela ignorância, ou seja, o não conhecimento do outro e a diferença que emana em si.

 Imagem
Toda e qualquer imagem procede de uma tomada de consciência de um “eu” em relação a um “algures”. Desta reflexão, Machado e Pageaux configuram a imagem como sendo “o resultado de uma distância significativa entre duas realidades culturais”, MACHADO E PAGEAUX (1988:58).
 O que os autores acima referenciados advogam em torno da imagem literária circunscreve-se como sendo, um conjunto de ideias sobre o estrangeiro incluídas num processo de literarização e socialização, entretanto, pode ser entendida como um elemento cultural que remete-nos à sociedade.
Para Shaw a imagem “é a representação física duma coisa, duma pessoa ou dum animal por meio da pintura, escultura, fotografia ou por qualquer outro processo”, SHAW (1982:246). Mais ainda, este autor refere que a imagem pode igualmente ser considerada como a impressão mental ou representação visual evocada através de palavras ou frases.
Que fique bem claro que a imagem não está apenas ligada ao estrangeiro, sabendo-se que a diferença cultural não se resume à distância geográfica, dentro de uma sociedade ou comunidade social pode existir uma diferença cultural. O escritor pode, necessariamente, construir um efeito diferente na sua obra por meio da distanciação cultural numa atitude propositada, o músico, a família ou o individuo podem adoptar um estilo largamente diferente dos outros membros do grupo numa atitude claramente propositada, apenas para se diferenciar da maioria que o circunda.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

 A Ironia
Ao procurar disfarçar as reais intenções do sistema colonial, uma das estratégias usada por Júnior na sua obra para enfrentar o povo de Muende, em particular, e de África, em geral, é a ironia, figura de retórica utilizada para dizer algo por meio de seu contrário ou, nas palavras de Linda Hutcheon, “a identidade semântica básica da ironia se constitui principalmente em termos de diferença”, HUTCHEON (2000:99).
A ironia em MUENDE de Rodrigues Júnior, reside no facto de que a missão civilizadora tem como intenção, melhorar o nível de vida dos nativos (negros) mas, no entanto, acaba por cair em terra, visto que, por exemplo, a escolaridade é um dos aspectos em que não se aposta naquela região, por razões óbvias ou por inerência. A título de exemplo, Pedro da Maia nota numa visita efectuada ao chefe do posto, que era branco, que o dia do mês no seu calendário não é o correcto e pensa, “Se o chefe do posto tivesse ensinado ao Cipaio a ler, aquilo não teria acontecido. E o calendário não teria ficado, como ficou-atrasado”, MUENDE (p:241).

Os silenciamentos
Em MUENDE de Rodrigues Júnior, a dor traduzir-se-á por intermédio de silenciamentos; o principal exemplo disso está no casamento de Cafere com Pedro da Maia, o branco, em detrimento de Tikone, negro e do seu clã. Na verdade, o pacto desta relação é mitonímia do próprio pacto colonial, cuja violência e a manipulação dos chefes africanos e seus povos, ultrapassou todos os níveis de desumanidade em terras africanas.
O primeiro passo para silenciar a dor de Tikone por ter perdido a Cafere é tirá-lo do protagonismo; o narrador escolhe, então, mudar o ponto de vista, Tikone não é sujeito oracional, passando este a ser o de Bindiesse, irmão desta, que não interferira no início desta relação. Esse tipo de artifício narracional é explicado por Booth (1980), “o autor implícito escolhe, consciente ou inconsciente, aquilo que lemos”, (p.92), Tikone se tornou coadjuvante da narrativa e objecto de posse de outras personagens. Ao tornar Bindiesse, como centro da cena na relação de Pedro da Maia e Cafere, para o narrador, não é o pacto amoroso em si, mas, sim, a sensação de tirar do caminho todo aquele negro que procura dificultar a vontade do branco, as alianças do branco com os chefes tradicionais que daí, adviria o processo mais facilitado da dominação, a partir do estabelecimento de alianças com os chefes tribais.

A representação do Negro na literatura colonial em MUENDE de Rodrigues Júnior
Ao longo das linhas antecedem estas, fizemos sempre referência à literatura colonial. Agora e, recorrendo as palavras de Noa (2002:42), “até que ponto uma tentativa de definir esta literatura não corre risco de se tornar um exercício tautológico, indefinido e frustrante”.
Na verdade, por tudo quanto temos lido a respeito da literatura colonial, estudiosos das literaturas nas suas variadas vertentes, reconhecem a delicadeza e complexidade da abordagem do tema literatura colonial, nos dias que hoje correm. Na esteira disso e, convocando Augusto Santos de Abranches, verificamos que este procura definir a literatura colonial, equacionando o choque antropológico e civilizacional. Para ele, “antes de mais nada entenda-se que, por literatura colonial, nos referimos à que pretende contar as reacções do branco perante o meio ambiente do negro, isto é: a toda essa espécie de descrição mais ou menos ficcionista que nos introduz perante as pessoas imaginariamente vindas de ambientes culturais desenvolvidos, civilizados, para meios ambientes <<primitivos>>”, ABRANCHES (1947:3).  
 Manuel Ferreira (1989), define a coloniliadade literária, tendo como base de fundamentação a análise do romance O Velo d’Oiro de Henrique Galvão. Encontra como pressupostos de definição dessa colonialidade literária os elementos seguintes: “superioridade numérica das personagens brancas; melhor tratamento estético; estatuto a que tem direito: (…) ”, (pp.241-249).
A respeito da superioridade cultural e civilizacional, Cabaço (2010), um outro conceituado estudioso em Moçambique, afirma que “o sentimento de superioridade do “povo escolhido”, se exprimia menos na exaltação das próprias virtudes e mais na desqualificação do Outro”, (p.97).
No seu estudo acerca do Outro, Bhabha citado por Goenha (2006), elucida melhor “a respeito das nossas pretensões, ainda que a abordagem esteja relacionada com a realidade colonial asiática (…), esta abordagem apresenta algumas similitudes com a realidade colonial africana”, Goenha (p.11), da qual MUENDE faz parte, com toda a representação que a imagem do negro é lhe reservada nesta obra; “Mas os negros são negros. O branco é sempre branco. Mais esperto que o negro_ que é um burro. Que há-de precisar toda vida do branco, para ser gente”, (p.212). Uma imagem do negro, pálida e pintada, quase que na sua totalidade, com aspectos negativos, em detrimento da do branco e da sua lei que parecem não emanarem de defeitos.
É desta feita que Noa (2002), como que a sintetizar a problemática do conceito da literatura colonial conclui, advogando que: “…verdade, porém, diga-se, a colonialidade literária significa, no essencial: reacção do europeu perante um meio e seres que lhe são estranhos; (…) e limitação da capacidade interpretativa do Ocidente”, NOA (2002:49).

 A representação social e cultural do Negro: oposição colonizado vs colonizador
De acordo com Reis & Lopes (1981), ao se analisar um texto: “Deve-se tomar uma posição racional, a uma atitude objectivamente científica em que os elementos textuais devem predominar sobre a objectividade do receptor” (p.39). Portanto, a análise de um texto implica um prévio processo de leitura, para o conhecimento das linhas de orientação do próprio texto.
 E, essa leitura permitiu-nos constatar alguns aspectos de representação do negro na obra em análise. É neste postulado que José da Silva Horta (1991), na obra O Confronto do Olhar, afirma que “os povos extra-europeus se valorizam ou desvalorizam com base neste código referencial, na imagem que deles se constrói, se aproximam ou se afastam do padrão que o ocidente para si mesmo definiu e de que não abdica”, (p.43), secundado pela idade do da Maia, tenra e repleta de códigos de valores para transmitir ao Outro; “Não atingira ainda os trinta anos. Era saudável e robusto. Tinha vontade de fixar-se e ser útil ao negro” (MUENDE:.39). Todavia, a utilização de expressões como: ser útil ao negro, viver com ele como se vive com um homem, os adjectivos saudável e robusto e a idade do branco Pedro da Maia, perpassa-nos a tamanha “sede” que os portugueses tinham de transmitir os seus códigos e valores ao negro e, ainda assim, dá-nos a entender que os negros da Macanga não eram homens, e estes só se tornariam homens, depois que Pedro da Maia, de tenra idade e com todos os princípios morais, culturais e valores de civilização, trazidos da metrópole, lhes daria. Os portugueses, viam nos negros seres irracionais. Explicita ou implicitamente caracterizavam- os à luz de determinados códigos como a alimentação, o vestuário, (…), entre tantos outros atributos negativos.
Por esta caracterização, o narrador mostra-nos a forte carga da representação do negro por meio do egocentrismo e juízos pré-concebidos, isto é, a personagem Pedro da Maia não toma em consideração a diferenciação cultural entre ele e o local recém-chegado. Por esta via, e, segundo Horta (1991:41), pode-se referir que “O negro e o Africano em geral, não obstante as características próprias da sua imagem, é assim um dos alvos dessa atitude etnocêntrica”. Esta afirmação é secundada na situação em que mais do que ser negra, Cafere não tivera contactos com os brancos daí, ser considerada, sem dó e nem piedade, selvagem, “A Cafere, além de negra era mulher pouco menos que selvagem, (...)”, (MUENDE:123-124).
O adjectivo selvagem transporta consigo uma forte carga de representação do Outro, atendendo a que transmite a ideia de inculto ou alguém que nasce e cresce sem cultura. Uma caracterização repleta de sinuosos preconceitos visto que não existe sociedade sem cultura, mas sim uma diferenciação cultural daí que, Taylor (1871) citado por Laraia (1976:s/p) afirma que: “a cultura é um complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis e costumes ou qualquer capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Os negros eram membros e pertenciam a uma sociedade que teve a sua História.
Por outro lado, na obra em análise, convoca-se o termo patrão: “Tem água perto, patrão (…) ”, (MUENDE:204). Ora, na lógica da política colonial, a linguagem patrão vs empregado não definia apenas as relações no trabalho, distinguia sobretudo o instruído do não instruído, o civilizado do não civilizado, portanto, a submissão do segundo pelo primeiro.
É, pois, este quadro discriminatório e na sua própria terra, que o negro enfrenta nesta fase da literatura. Aliás, como que a fazer jus a nossa linha de orientação, representação do negro na literatura colonial, dos excertos que usamos como exemplos ao longo do nosso estudo, as personagens dos colonos desde o Pedro da Maia (cantineiro) passando pelo chefe do posto ao administrador, representam ideologemas ancorados em valores sociais e morais positivos em detrimento dos negativos, todos eles incorporados na vida, hábitos e costumes dos negros desde o simples camponês ao chefe tradicional africano.

Conclusão
Em MUENDE de Rodrigues Júnior, notamos que a visão que o narrador e as personagens (Europeias) têm, é de que os africanos (Negros) são inferiores em todos os níveis, tanto no aspecto racial, intelectual bem como afectivo. Esta perniciosa visão é o culminar do contexto em que a obra foi produzida, o colonial.
A representação da imagem do Outro iniciou-se com os movimentos expansionistas, e com a necessidade de exaltar os feitos deles. Com isto, surge uma literatura que procura enaltecer os seus valores em detrimento da terra e da sua gente, moçambicanos, à luz do etnocentrismo europeu. Advém daí, que as personagens de origem europeia em muitos romances deste período, não só estão em larga maioria em relação às personagens negras ou mestiças como também são objecto de melhor tratamento. Nas obras que revelam uma atenção especial por parte do narrador, essas personagens podem, em alguns casos, obter estatuto de personagens modeladas.
 As personagens negras, como mostrámos em MUENDE, não ultrapassam o estatuto de figurantes ou simples papéis, ficando, assim, pela sua condição plana. Entretanto, as personagens negras jamais atingem a dimensão que é devida às personagens brancas.

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