A sombra dos sonhos

De Marcos Matonse

Não raro sou confrontado com sortes agradáveis, ultimamente e confundo-me! Será pela idade que célere vai ganhando altura na escala do tempo? Será pelas experiências acumuladas ao longo do tempo em que exerço a actividade literária, nas suas mais variadas nuanças? Será pela facilidade com que disponho a minha amizade por aqueles que me rodeiam? Por todas estas razões, por uma delas ou por outras que hoje, agora e aqui não consigo expressar, há-de ser!

Sinto-me bastante lisonjeado por poder apresentar esta obra, a primeira de um autor que há bem pouco tempo tive o privilégio de conhecer pessoalmente. Comecei a ler as suas produções poéticas iniciáticas quando coordenava a página cultural “Ler e Escrever” do jornal Domingo, entre 1991 e 1993. Não mais tive notícias suas, nem acesso àquilo que escrevia. Eis que, volvidos 13 anos, entre 2006 e 2013, volto a lê-lo, desta feita em ensaios literários, no jornal O PAÍS. Num rasgo de sorte, sou convidado, em 2015, pela “XIPALAPALA”, Associação de Jovens Escritores do Bairro de Hulene, para testemunhar o lançamento, na Universidade A Politécnica, da antologia: “SONHOS, CAMINHOS E LUTAS”. Em que me reencontro com a escrita de Matos Matosse. Foi um reencontro feliz, pois desta feita incluía a obra e o autor. Dois anos depois, neste ano em que decide a sua primeira obra poética individual, “A SOMBRA DOS SONHOS”, convida-me para o apresentar, publicamente.

Pois, este livro de Matos Matosse é uma obra criteriosamente estruturada em nove espartilhos ou andamentos poéticos, produzidos entre 1986 e 2009. É editado pela Tipografia e Editora Prelo Clássico, na Colecção XIKALAVITU, do grupo cultural MULIJU, do Bairro do Hulene, onde se encontra sedeada a Associação XIPALAPALA. Abre-lhe à estampa um interessante pórtico da autoria de Alex Barga que, para além da sua intrincada génese, explica os seus conteúdos; o Prefácio do nosso confrade, o escritor, Bento Baloi, que nos situa sobre a obra em nossas mãos, atribuindo-lhe lugar e tempo do seu surgimento no universo literário contemporâneo, pois, segundo este prefaciador, «A obra remete-nos a tempos, lugares e emoções da década de 80 aos dias correntes; do Ferroviário; do poeta de intervenção social ao lirismo nostálgico.».

Eis os grandes grupos temáticos, através dos quais, Matos Matosse estruturou a sua obra: Lirhandzu (Amor) – 19 poemas; Sonhos e Esperanças – 16 poemas; Metafísica – 7 poemas; Mahlomulu (Dor ou Sofrimento) – 21 poemas; Duas Odes2 poemas; Transcendências – 15 poemas; Confissões – 3 poemas; Vários episódios – 13 poemas; Parábolas – 2 poemas.
Embora o livro possa parecer uma intrincada mistura de diferentes tipos de temas, separados, encaixam-se, como se peças de um quebra-cabeças, formando uma figura inteira. Estou a pretender deixar clara esta figura, na análise de A SOMBRA DOS SONHOS.

Tema 1 (Lirhandzu)

Em “Lirhandzu” aborda os contornos deste nobre sentimento que diríamos, o primeiro que se nos acomete, logo a partir da nossa existência, ainda na placenta materna, até à nossa existência, inseridos, na família, na comunidade, na nossa sociedade restrita e na sociedade humana de uma forma geral. Esta abordagem manifesta as mais variadas facetas do amor, por exemplo, o amor platónico que, em tempos da antiguidade clássica chegou a levar Platão a sugerir a expulsão dos poetas da Pólis, por exacerbarem paixões lascivas no seio da sociedade, o que era contrário à moral e aos princípios estabelecidos. Diz ele, segundo Wimsatt e Brooks, que:

“… a poesia não é uma técnica racional, não é uma arte que tenha uma natureza definida. Não é uma filosofia, não tem um domínio específico. O poeta não fala de nada em particular, fala do que existe nas outras artes que não domina. Platão é negativo àquilo que fala de poesia como realidade.”

Ora, a visão poética de Platão é extremamente negativa e nisso, ele contrasta com Aristóteles que concebe a poesia ou a literatura em geral, como o espelho do universal ou seja: o texto literário não conta o que aconteceu ou que exista, mas o que é possível acontecer, o verosímil. Parte do particular para falar do possível.
 Os poemas: “Cacilda” (p. 13); “A pureza do teu amor” (p. 18); “Carta de amor para Jinny, meu grande amor” (p. 20); “Saudades (p. 24); “Dor” (p. 27), são uma mostra eloquente desse desvario do amor, em que, às vezes deparamos com “Amador sem coisa amada”.

Tema 2 (Sonhos e Esperanças)

“Sonhos e Esperanças” remete-nos ao preceito “ O que você pode ser, está totalmente nas suas mãos!”. Encontramos uma das grandes virtudes do ser humano que é ter sonhos e a partir deles alcançar o que almeja. Diz um grande poeta português, António Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho), quando no seu livro “Movimento Perfeito”, de 1956, publica o célebre poema “A Pedra Filosofal”, lançando os fundamentos em que reside a realização, a partir dos sonhos, ou seja, Sonhos e Esperanças, em que diz: «Eles não sabem que o sonho/ é uma constante da vida/ tão concreta e definida/ como outra coisa qualquer/ … Eles não sabem, nem sonham/ que o sonho comanda a vida,/ Que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança,/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança. São exemplos os poemas: “ A chuva” (p. 39); “Início” (p. 40); “Reza, Marta” (p. 44). No poema “A Sombra dos Sonhos”, que dá título a presente obra, temos, contudo, a falsa imagem de que o sujeito político procura esquivar-se do facto do sonho ser uma constante da vida que faz o mundo pular e avançar, quando, nas penúltima e última estrofes, se expressa com contida dúvida: “É a sombra dos sonhos/ Que me nevoa/ - na imersão de noites manchadas/ De fantasias?! (…) Talvez uma melopeia de coisas mortas!”

Tema 3 (Metafísica)

Em “Metafísica”, Matos Matosse leva-nos numa viagem para o mundo que nos embarca espiritualmente para os segredos da nossa criação como seres inferiores, em constante procura de um ser superior que obrou tudo quanto é a matéria que nos envolve. São exemplos disso os poemas: “Dialéctica I” (p. 59); “Dialéctica II” (p. 60); “Mistério” (p. 61); “A Vida” (p. 62); “Filosofia” (p. 63).

Tema 4 (Mahlomulu)

Em “Mahlomulu”, o nosso poeta escalpela, disseca a dor ou o sofrimento, mostrando que, constantemente, cruzam-nos os caminhos, situações horripilantes que nos cerceiam os passos que pretendemos dar em frente. Os poemas: “Sinfonia” (p. 67); “Soltura adiada” (p. 68); “Mahlomulu” (p. 69); “Desesperação” (p. 70); “Esperança manchada” (p. 74).

Tema 5 (Duas Odes)

Em “Duas Odes”, são dois poemas: “Ode a ti” (p. 91); “Ode ao amor perdido” (p. 92), que só por si, simbolizam uma construção modernista, contrastando com o que, de facto é, canonicamente, o conceito de ode (Poema lírico cujas estrofes são simétricas (os versos possuem a mesma medida). Mas, mesmo contrariando os cânones, estes poemas cantam a mulher.

Tema 6 (Transcendências)

Em “Transcendências”, portanto, tudo o que se coloca acima de nós, para além do que imaginamos ser, o acima de nós, o além de nós no sentido transcendental, o intangível, enfim, o sobrenatural. Simbolizam estes estágios, os poemas: “Testamento I” (p. 95); “Somente a ilusão dos meus sonhos” (p. 96) “Escuto-te” (p. 97); “A sepultura” (p. 99); “Nós” (p. 103); “Ausência II” (p. 108).

Tema 7 (Confissões)

Em “Confissões”, o sujeito poético abre o espírito para exteriorizar os seus sentimentos, priorizando a confissão, como o testemunham os poemas: “Primeira confissão” (p. 111); “Segunda confissão” (p. 112); “Terceira confissão” (p. 114), ele faz a confissão do seu amor, portanto, não no sentido de alguma culpa, mas em declarações enleadas.

Tema 8 (Vários Episódios)

Em “Vários episódios”, Matos Matosse, nos poemas: “Infância” (p. 117); “Refutação” (p. 119); “Voto” (p. 120); “Concupiscência” (p.…), chama-nos, com a dispersão ou o eclectismo autoral no tratamento de diferentes assuntos por que se faz a vida, que fogem, um pouco, de considerações estanques. Ele traz-nos, nos poemas deste tema, a diversidade que faz a unidade, traduzida na  “A Sombra dos Sonhos”.
Tema 9 (Parábolas).

Em “Parábolas”, dois poemas que encerram o livro, funcionam como chave-de-ouro, pois são, como que uma apoteose; eventos que podem vir a ser factos da vida quotidiana, na qual se ilustre uma verdade moral ou espiritualidade: Parábola I” (p. 135); “Parábola II” (p. 136), não tanto como a parábola do filho pródigo, mas com laivos de moralidade ou de espiritualidade, desviados para uma, porém, falsa trivialidade, tendo em conta, o conceito clássico da centralidade parabólica, mas sempre à procura da distinção de significados, à procura da prolixidade, ou seja, a lubrificação, a multiplicidade das possibilidades interpretativas do texto literário, à procura de significações mais abrangentes, mais colectivas.

É uma obra que comporta poemas que se distribuem ao longo de 138 páginas que nos descrevem, o que, muitas vezes, não nos apercebemos que, cada sonho que temos comporta a sua sombra que o acompanha, a questão é como vencer essa sombra para que os sonhos vinguem.

Ninguém é perfeito nas suas acções quotidianas, todos os comportamentos humanos estão inquinados de imprecisões, de erros que lhes são próprios, portanto, Matos Matosse não pode ser uma excepção, por isso, reconhecendo algumas imprecisões no seu caminhar como poeta, mostra que o que ele pode ser como vate, tem-no nas suas próprias mãos e no apoio que qualquer de nós lhe possa dar, ao longo do seu percurso.

Parabéns, Matos Matosse, por esta obra “A SOMBRA DOS SONHOS” e segue em frente, com coragem, não se esquecendo que «O sonho é uma constante da vida (…) O sonho comanda a vida/ que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança.

 

 


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