A subalternização da mulher em “O bebedor de horizontes”

A subalternização da mulher em “O bebedor de horizontes”

Nunca tenhas medo do horizonte, não há prazer mais saboroso que o trajecto

Raquel Lanseros

Com “O bebedor de horizontes”, Mia Couto chega ao fim da linha, no que diz respeito “As areias do imperador”, não fosse aquele o último dos três livros que ficciona parte da história de Ngungunyane. No livro, encontramo-nos com um Leão de Gaza debilitado, por ter sido capturado por Mouzinho de Albuquerque. Assim, a narrativa dá-nos a imagem de um rei comum como os seus subalternos, com tanto medo do horizonte que se configura no seu olhar e na sua imaginação a cada dia da sua condição de prisioneiro. Em cada trago desse horizonte angustiante, Ngungunyane enxerga a morte, situação suficiente para o tornar obsessivo, paranoico e desconfiado. É por consequência da humanização desse rei extraordinário que a narradora da estória consegue-o desmascarar. Por causa de Imane Nsambe, temos a imagem de cada ruga do Leão de Gaza e do seu comportamento diante do medo. Nisso, Mia Couto consegue tornar Ngungunyane, por via da personagem, mais conhecido e mais perto de nós.

Ora, se, por um lado, Mia desenterra uma estória em letargia, do séc. XIX, desrespeitando completamente o rigor da história oficial, por outro, ao contar uma outra versão dos factos, depois de uma exigente e impressionante pesquisa, torna a sua estória sobre Ngungunyane um subterfúgio para narrar sobre a condição da mulher. Para o efeito, o escritor apega-se a uma relação amorosa, entre a chope Imane Nsambe e o português Germano de Melo, que já vem de “Mulheres de cinzas”.  

Tem se dito que por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. No caso de “O bebedor de horizontes” essa mulher não está atrás de um grande homem como é o caso de Ngungunyane. Está ao lado, e, não poucas vezes, até passa à frente em termos de importância discursiva. É Imane essa mulher – narradora autodiegética com igual protagonismo do imperador – que nos dá pelo menos duas narrativas em paralelo: a do fim de um império (Gaza) e a do surgimento de um pesadelo (sua própria história).  

Com Imane no enredo, Mia explora com acutilância a subalternização da mulher. Imane é exemplo disso, afinal a personagem é obrigada a deixar o seu amor para trás e embarcar numa viagem como tradutora de Ngungunyane. É uma condição de servidão que abraça Imane, em relação ao imperador e em relação aos portugueses, pois, a certa altura do trajecto a Portugal, tornam-na uma espiã ao serviço da coroa lusitana. A filha dos Nsambe é uma rapariga sem controlo da sua vida e tão-pouco de Sanga, o fruto do amor partilhado com Germano. Por isso, tempos depois do parto, a sogra arranca-lhe o bebé, mesmo a cumprir o desejo de Germano. Mais do que isso, a violência de Laura de Melo impede Imane de ser mãe, com filho vivo.

Enquanto ao Ngungunyane é-lhe dado a oportunidade de partir com sete esposas e ficar com o filho Godido no exílio, sem saber o que é sede, de tanto beber dos horizontes, à Imane é-lhe retirada tudo o que tem de mais valioso por não ser além de um instrumento do poder. Sem o amor e sem o fruto dessa árvore, a personagem apenas aprende a perder até o chão. Mal vista pela sua gente e pelos portugueses, nem em Portugal pode ficar. Quando deixa de ser útil, primeiro é levada a São Tomé e, depois, de volta a Moçambique, sem nunca reencontrar Germano. A vida é o próprio exílio da personagem, condenada a ser pouca coisa.

Ora, este “O bebedor de horizontes” é um livro riquíssimo do ponto de vista de verosimilhança. A fronteira entre o real e a ficção é invisível. Aqui temos um Mia como que no auge do seu poder criativo, conseguindo respeitar na trama a atmosfera de um período movido por outros comportamentos. É deveras apreciável a maneira como a narrativa evolui ao longo dos espaços. Depois, há ainda as personagens, com o poder de nos colocar à espera de ouvir a beleza causada pelas palavras bem combinadas: “quem mais sofre? Aquele que espera para sempre ou quem nunca esperou por ninguém?” (p. 349). Essa é Dabondi.

Portanto, esta é uma história que nos mostra como a mulher é tratada ao longo do tempo. Ao fazer-nos sentir as dores de Imane, “O bebedor de horizontes” coloca-nos por alguns instantes no lugar da personagem, quem sabe, para deixarmos de colocar a mulher por detrás de um grande homem. É mesmo ao lado que ela deve ficar.

 

Título: “O bebedor de horizontes”

Autor: Mia Couto

Editora: Fundação Fernando Leite Couto

Classificação: 17

 

 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique