A subestimação de um género (Literário)

Pretendo, hoje, falar sobre uma pulga que teima em se me encavalitar a orelha. Para não entrar em delongas, trata-se da forma pejorativa como certas pessoas se refugiam na fragilidade ou porosidade da poesia para a solução dos problemas que se lhes apresentam como desafios que eles têm que enfrentar nas áreas em que se ocupam para contribuírem na construção de um país que, a olhos vistos se desmorona e o horizonte se fecha para não podermos ver a réstia de esperança que o quotidiano nos pode reservar.

Assim ofendem os obreiros da nação através da poesia, que não são menos do que eles, por obrarem uma área que eles pouco ou nada entendem. São incompetentes nas suas áreas e tudo o que se lhes aparece à frente para lhes exibir essa realidade, desviam as atenções para se socorrerem das artes poéticas que jamais foram recurso com que se devia contar.

Há meses, ouvi um estreante em literatura, amigo meu, numa passagem do seu discurso de lançamento da sua obra, qualquer coisa como: «Não se abre um jornal com poesia!”, como que a dizer que encapando um jornal com poesia é votá-lo ao fracasso comercial. É verdade, para um jornal destinado a gente sem qualquer cultura poética ou, genericamente, literária, nem conhece os benefícios sociais que proporciona esse domínio; «É um relatório muito próximo dos melhores momentos da poesia portuguesa.», dizia outro bem falante, moçambicano, da língua camoniana, para tentar demonstrar, ironicamente, que tal documento era de fraca qualidade, que ficou muito aquém das expectativas.[1]

O jornal O PAÍS que se refere à minimização da força poética, abre, na capa, não propriamente com poesia, mas com uma referência a ela, e suponho que convidou muitos leitores a comprá-lo, o que significa que, afinal, se pode abrir um jornal com uma referência a este género literário e merecer a atenção dos leitores.

«Granda lata!», diria, um docente universitário que eu cá conheço, com esta expressão que recorrentemente usa para dizer ao estudante para rever o seu posicionamento em relação às matérias em foco.

Muitas pessoas, sobretudo responsáveis de áreas de desenvolvimento de qualquer campo político-social, quando falham nas soluções dos seus problemas, correm para dizer que isto ou aquilo não se resolve com poesia ou seja, a poesia é o último reduto a que se recorre quando soluções válidas mostram-se distantes de encontrar. Por que é que não se rendem à evidência dos factos e não demandam outros engenho e arte, para se desenvencilharem da sua incapacidade para não dizer ignorância?

Faz-me lembrar, este triste episódio, a forma pejorativíssima como o sábio grego Platão reflectia sobre o assunto poético, primeiro sobre a NATUREZA DA POESIA. Citado por Wimsett e Brooks, diz:
 
 “… a poesia não é uma técnica racional, não é uma arte que tenha uma natureza definida. Não é uma filosofia, não tem um domínio específico. O poeta não fala de nada em particular, fala do que existe nas outras artes que não domina. Platão é negativo àquilo que fala de poesia como realidade.”
 
Há bastos exemplos que se podem levantar, para mostrar que a poesia entra na factorização dos elementos susceptíveis de se ter em conta na ponderação da construção de uma nação. Ela pode, até, ser o grau zero dos factores nacionalistas, no sentido aludido por Roland Barthes, quando considera o Grau Zero da escrita «“cuja função já não é apenas comunicar ou exprimir, mas impor um além da linguagem". Uma linguagem que caminha no sentido da história para com ela dialogar.»[2], mas, nunca pode ser tida como um imprestável exercício votado a tudo quanto fracassa. Ou seja, a poesia não pode ser considerada um bode expiatório de qualquer incompetência, perante uma realidade objectiva que exige soluções, também objectivas, mas um elemento que se deve ter ao lado das outras ferramentas que servem para construir uma nação ou concertar as suas mazelas.
Já Aristóteles, de acordo com os estudiosos atrás citados, tem uma visão contrária à do seu contemporâneo, quando diz que a poesia não deve ser vista com base naquilo que ela retracta, não deve ser vista em função das leis das outras artes, mas deve ser julgada em função das suas próprias leis (que a governam). O que deve ser julgado é o equilíbrio interno da própria poesia. Ela tem uma estrutura própria, é uma arte específica, é uma forma de conhecimento.

Quanto ao lugar da poesia na sociedade, para Platão, ela traz efeitos negativos para a sociedade. Ela «alimenta e dá de beber às paixões», criando divisão e insegurança no coração…

Para Aristóteles, a poesia cumpre uma função catártica (purificadora). Não alimenta as paixões, não exacerba as paixões, racionaliza-as, despersonaliza-as através da “Distância estética”. As paixões existem e devem ser despersonalizadas, não sejam nocivas porque controladas e racionalizadas através da ficção que nos leva a preparar-nos para sepulta-las ou evitá-las.

O poeta abre-nos os caminhos para outras realidades possíveis.
A poesia tinha uma inserção na sociedade e por isso Platão falava dela para corrigir aí aspectos errados.

Muito mais tarde, no curso das reflexões sobre a poesia, Jakobson (1935) afirmaria que:
 
“… a função poética é a função dominante num texto literário onde podem ocorrer outras funções da linguagem que se situam num segundo plano.
 
No que respeita à visão de Platão quanto à poesia, Aristóteles até concorda que a poesia é imitação, simplesmente diz que ela não imita a realidade que existe (o que acontece), mas a realidade que pode acontecer (que pode existir). Ele quer dizer que um texto literário não conta o que aconteceu ou que exista, mas o que é possivel acontecer. Assim acaba não imitando o que aconteceu. Parte do particular para falar do possível. O texto literário não é particular é universal. Isto diferencia a literatura da história que se cinge aos factos, àquilo que acontece ou aconteceu, existe ou existiu.

O ponto de vista de Aristóteles conduz-nos à conclusão de que quando se imita o que pode acontecer, pode-se aperfeiçoar a realidade.

Comparando os pensamentos dos dois sábios gregos veremos que a visão de Aristóteles é claramente positiva e a de Platão, claramente negativa.
Para Aristóteles a poesia é universal, para Platão é particular.

Os poetas têm sentimentos, emoções, paixões e vontade de, com o seu trabalho, ajudarem o país a se afirmar, a ombrear com outros países, deste planeta e se tornar o lugar onde o povo viva em segurança, e, comodidade e bem-estar, saindo de todas as amarras que o imobilizam e o estagnam e quem deve estar comprometido com esse desiderato é o próprio povo disseminado pelas diferentes áreas que fazem a coesão social. Não tem, ninguém, qualquer direito, que, a partir do seu ponto de labuta, apequenar outras áreas, como se elas não contassem nos factores de realização social e de construção de um país. Essa atitude só pode ser tida como um crasso subterfúgio para esconder as suas próprias ignorância e incapacidade de sair dos problemas que o apoquentam, sem apoucar os outros. Convenhamos, não acreditar nas potencialidades da poesia é uma coisa; não acreditar no relatório de inquérito às dívidas ocultas é outra coisa. No poema AUTOPSICOGRAFIA, de Fernando Pessoa, está o que os que não conhecem a essência poética precisam saber e interiorizar:
O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,/Na dor lida sentem bem,/Não as duas que ele teve,/Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração
.”[3]

A poesia, definitivamente, é expressão espontânea do real; poesia é arte, é imaginação, a realidade é imaginada de forma a exprimir-se artisticamente, de forma a surgir como um objectivo poético (artístico), de forma a concretizar-se em arte; é uma forma de construir, de defender, de enaltecer os feitos de um povo, de uma nação; a poesia é a luta contra as injustiças, é a luta contra a fome, contra a pobreza; a poesia é a procura da paz e sossego; a poesia é canção, é música; é alegria de multidões; a poesia é, enfim, JUSTIÇA e LIBERDADE, não é bode expiatório de néscios! Não sabe, aprende!

Ao meu amigo debutante na literatura, acabado de lançar o seu primeiro livro, gostaria de confrontá-lo com o poema “Nitafa nawena murhandziwa”, Amor, vou morrer contigo, da autoria de Mr. Bow e propor que o publicasse na primeira página de qualquer jornal moçambicano, com a fotografia do autor e explicar o seu conteúdo nas páginas interiores, a ver se o órgão não esgotaria?! É que aquilo é poesia e move multidões e Mr. Bow – poeta, compositor e cantor, mexe com meio mundo onde ele aparece. Experimente-se organizar um comício chamando Mr. Bow para o abrilhantar, a ver se não víamos um mar de gente a acorrer! Ele é um verdadeiro cartaz amplo da cultura moçambicana na actualidade; ele demonstrou na última tournée da Super Bock Super Rock on tour em que, como cabeça de cartaz, correu oito províncias do nosso país, cantando a sua poesia e encantando multidões. Supera, em presença e em mensagem, alguns políticos da nossa praça. Isto quer dizer que aos políticos, exige-se respeito pela poesia!

Uma particularidade: tal como Barthes em o Grau zero da escrita leva a linguagem a emparceirar-se com a história para com ela dialogar[4], para mim, a poesia não pode ser considerada um elemento isolado, perante uma realidade objectiva que exige soluções conjuntas, também objectivas, pois ela é um elemento que se deve ter ao lado das outras ferramentas que servem para construir uma nação ou concertar as suas mazelas.

Não teriam, poetas como Luís Vaz de Camões, Homero e Virgílio, se empenhado tanto, com risco das suas vidas, na elaboração dos cantos maiores dos seus povos: «“Os Lusíadas”,- uma obra poética considerada a epopeia portuguesa por excelência; “Odisseia”- um dos dois principais poemas épicos da Grécia Antiga, … um poema fundamental no cânone ocidental. e “Eneida”,- um poema épico latino …. Conta a saga de Eneias, um troiano que é salvo dos gregos em Tróia, viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à península Itálica.»[5]

Poemas que construíram a dignidade, o respeito e a grandeza das suas nações e dos seus povos; poemas que sustentam desde há séculos, a existência de países que inspiraram o desenvolvimento mundial.

A Camões, por exemplo, o sonho da escrita de uma epopeia que glorificasse o povo português – Os Lusíadas, custou-lhe a perda de um olho em Ceuta e a pobreza extrema, na Índia, na China, em Moçambique e em Portugal, até à sua morte, tudo por intrigas palacianas, ódio, concorrências desleais entre os homens da pena, em que os menos dotados inculpavam Camões pelos seus fracassos, para que ele fosse desterrado a cumprir missões perigosas. Estou a falar do século XVI. Isto só mostra que a poesia atravessou os tempos pela força que tem, para não permitir desagregação por conta da inveja.

A libertação de Moçambique dos grilhões coloniais seculares, foi possível com a poesia induzida nos demais factores libertários do nosso país. Estou a querer dizer que a poesia, simplesmente, foi um dos soldados que libertaram a nação moçambicana do jugo colonial português.

Craveirinha, sim, o Tio Zé, o José Craveirinha, poeta-mor e herói nacional de Moçambique, com a sua poesia visionária, vaticinou infalivelmente, um país - Moçambique, através do seu poema: “Poema do futuro cidadão”.[6]
Peguemos a poesia pela mão e caminhemos com ela que nos ajudará a exorcizar os nossos fantasmas!
 
 
[1] Jornal O PAÍS de 13 de Dezembro de 2016
[2] BARTHES, Roland, “O Grau Zero da Escrita”, 1953
[3] Wikipedia, a enciclopédia livre – 13 de Dezembro de 2016
[4] BARTHES, Roland, “O Grau Zero da Escrita”, 1953
[5] Idem
[6] CRAVEIRINHA, José “Xigubo” (…)


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