A validade de um símbolo de unidade nacional

A validade de um símbolo de unidade nacional

Felizardo Vanica era o cabeça do grupo vencedor do concurso “Poetas distritais de Moçambique”, organizado pelo Centro Cultural Franco-Moçambicano.

Vanica era o Alberto Caeiro de Matsinhane, no distrito de Manjacaze, onde a pastagem e o cultivo da terra continuam a ser os meios de subsistência por excelência. O seu jeito manso, pacato e encantador, trouxe-lhe a alcunha de “Alberto Caeiro”, atribuida pelo ex-professor de português recém chegado do Ribatejo (em Lisboa), que se tornara no único padeiro de Matsinhane.

Felizardo Vanica não era porém averso a metafísica e entendia muito de política e de história política europeia, encorajado por uma biblioteca situada nas instalações da sua igreja, que por algum motivo, tinha uma vasta colecção da história francesa, de A à Z, desde a idade média baixa ao modernismo. Era à hora d’almoço que Vanica passava a "sesta" a ler no cemitério -- o único local onde estava certo de que o silêncio era respeitado, mas também porque tinha prazer em ler para os mortos.

- Faltam 4 dias, Vaquinho! – gritou seu vizinho, acenando o “adeus” corriqueiro, pelas 6:30 da manhã, quando Vanica regressava do seu primeiro ofício – a pastagem. E as crianças (levadas pela onda) corriam atrás de Vaquinho, exclamando inocentemente: “faltam 10/4/3/2 dias, Vaquinho!” – em jeito de provocação, para que Vanica desviasse a sua atenção das vacas por alguns segundos e simulasse uma perseguição as crianças.

Finalmente chegou o dia em que aquele madrugar seria o início de uma data histórica para todo o distrito de Manjacaze e quiça da provincia de Gaza. “Alberto Caeiro” iria subir avião pela primeira vez, rumo às terras de Napoleão. Durante o percurso a Maputo, iriam parar em outras localidades para levar outros poetas, igualmente vencedores.

O CCFM achou por bem organizar a viagem para janeiro, para que os viajantes pudessem vivenciar um ambiente totalmente diferente.

Para o constrangimento de Vaquinho, uns tantos dos seus comparsas traziam mantas consigo e andavam pelas ruas de Paris embrulhados nelas. “Epah, parece que manta aqui é só para dormir!” – gozou Vaquinho, apontando para um negro sem abrigo, deitado num banco do Jardim de Luxemburgo.

– A tal de “Mana Elisa” nem bonita é! Afinal de contas, por que tem tantos likes? – desabafou Agostinho.
– Mona Lisa foi inovador no seu tempo. Na altura, a tendência era de pintar perfís e não bustos numa perspectiva frontal. Depois temos aquele sorriso misterioso, namoradeiro e comunicativo dela, que também não era comum ser retratado; a questão da paisagem tornar-se desfocada a medida em que a distância aumenta, é também um conceito inovador nos quadros da epoca … – ia explicando a madame Chateau.

– Aaah, enquadrado na actualidade, aquele quadro não é nada, madame! Desculpe a sinceridade! – continua Agostinho, na sua abordagem pouco contida.

– Pois é, mas nunca se deve esquecer o contexto no qual uma realidade se insere. “Il n'y a pas de hors-texte!” disse Jacques Derrida, hmm? – pergunta que se manteve retórica por conta de Vaquinho que beliscou Agostinho a tempo.

Vaquinho pediu que lhe levassem à Rue de la Ferronnerie, onde o seu herói francês foi assassinado. Aquele que, tal como o seu herói moçambicano (Eduardo Mondlane), por razões distintas, era tido como símbolo de unidade nacional.

A boa diferença entre os franceses e os bons costumes da ética e etiqueta moçambicanas é que, embora a cabeça de Eduardo Mondlane fosse também valiosa, em caso algum seria leiloada – literalmente – como foi o caso do Rei Henri IV, ainda que de “mero” crâneo se tratasse.
Fim


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