À volta da pedra de Adelino Timóteo

Eu sou a pedra no meio do meu caminho.

gostaria de esquecer que vivo tropeçando em mim

Carlos Drummond de Andrade

 

29 poemas intrinsecamente ligados fazem o novo livro de Adelino Timóteo, o qual, conforme observa Carmen Lucia Tindó Secco, a pedra expressa uma metáfora carnal, sensível, material, e, dizemos nós, sempre a partir de uma associação ao eu feminino, observa-se, enquanto um ser ideal, platónico se quisermos. Na verdade, A volúpia da pedra é uma selecção de textos na qual o poeta concebe a mulher como um ser duro e cintilante, resistente e com peculiaridades inabaláveis, mesmo quando expostas ao tempo ou às metamorfoses da vida.

Numa poesia construída à base do bom gosto e obsessão, cruzando com algumas especificidades típicas do erotismo whiteano, Adelino Timóteo desencadeia, a partir da pedra, um processo de transporte de significados que diminuem a tão profanada fragilidade feminina. Ao mesmo tempo que o poeta pinta aquele entidade com as cores da sedução, artimanhas que a permite prender e vencer a pujança do mais astuto galanteador, enaltece a mulher, como lhe é particular, como musa, força motriz: “Amo na pedra a tangível loucura do amor, o perfume que não fosse por ela, por essa mulher, jamais vos escreveria esses alegres versos” (p. 11).

A pedra timotiana, chamemos-ma assim, convictos de que quem diz pedra aqui também invoca mulher no mesmo substantivo, é afável, explosiva, letal e vertiginosa, veículo no qual o desejo, a vaidade e as fantasias transportam-se na personificação masculina.

Neste sumptuoso percurso pelas ancestrais emoções, com A volúpia da pedra Timóteo cria fascínio e alucinação num universo sublime, talvez porque, como nos sugeriu Martins Mapera, na apresentação da obra, “na tradição, a pedra ocupa um lugar de eleição. Existe entre a alma e a pedra uma relação estreita. Segundo a lenda de Prometeu, procriador do género humano, as pedras conservam um odor humano”.

Seja como for, nem sempre a pedra aparece como personificação da mulher, como defendem Secco e Mapera. No poema 24 e 25, por exemplo, a pedra aparece e funciona como tudo aquilo que, sendo exterior ao sujeito de enunciação, surge-lhe na velocidade de um engenho acutilante para o magoar: “Por vezes a pedra dói, dói febril, não no impulso com que a arremessamos, mas no impacto que nos causa antes de a propulsarmos” (p. 35). E mais adiante, no mesmo texto: “Sorride vós génios da literatura. Pois se algum de vós detesta o brilho estelar dessa pedra, que me levita ardorosamente, atirem-ma (…). Às vezes a pedra não só fere o olhar como nos dói antes de se nos beliscarem o osso, a pele” (p. 35)

Nos poemas 24 e 25, até pelo tom carregado de resignação interior, percebe-se que a pedra, sendo objecto singular, liberta sentimentos múltiplos, já que pode ferir e encantar. Provavelmente, é um recurso para lembrar como a doçura e o azedum são essencialmente duas faces da mesma moeda; como a mulher pode ser realização e/ou perdição, a chave de cadeia dita pelos brasileiros. Ela é potência e energia. Por isso pode construir castelos e gerar ruinas.

Este livrinho de Adelino Timóteo merecia mais páginas – são apenas 27 –, mesmo porque o jogo sobre a transferência de significados entre os objectos é frutífero para enriquecer o tema tratado. Ainda assim, a profundidade dos enunciados dos textos tornam o livrinho considerável, apto para uma boa aventura pelos planetas de que a mulher é feita.

 

Título: A volúpia da pedra

Autor: Adelino Timóteo

Editora: Alcance Editores

Classificação: 15

 

 


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