Abel Xavier: herói ou vilão?

Se os Mambas se tivessem qualificado – bastava um pouco mais de “manha” nos minutos finais de três jogos – estaria o país a falar de um Abel Xavier herói. Ainda por cima porque a qualificação transportaria a inédita façanha das duas primeiras vitórias, em competições oficiais, diante da toda (ex?) poderosa Zâmbia. Tal não aconteceu e o sentimento girou 180 graus. Para alguns foi um falhanço total, a partir de um currículo que denota inexperiência, passando pelas convocatórias e métodos errados.

Repare-se no que aconteceu com as claques: após a derrota diante da Namíbia, cercaram o autocarro dos Mambas, exigindo de imediato a cabeça do técnico. Depois, muitos deles integrados na “onda vermelha” em Bissau gritaram a plenos pulmões:
- “Queremos Abel Xavier! Queremos Abel Xavier, mesmo que os outros já não te queiram! Ele terminou o jogo abraçando e chorando junto dos jogadores. É assim a vida dos Seleccionadores e treinadores. Numa análise mais a frio, há que referir que não é justo aquilatar a acção do recém-demitido treinador dos Mambas, sem ter em conta os momentos difíceis e multifacetados que tem vivido o país e, por tabela, o desporto nacional. 

Uma clara desvantagem que se nos coloca nas competições continentais, é a da fragilidade naquilo a que se chama de jogo invisível. Ou seja, acção fora das quatro linhas. Quem acompanhou as nossas equipas pelo continente, sabe bem dos frequentes “imprevistos”, acção e pressão sobre árbitros e comissários da CAF, o que nos coloca em desvantagem em casa, como eternas “virgens imaculadas” que continuamos a ser. 


MUDARAM-SE OS TEMPOS
E TAMBÉM AS REALIDADES

A situação política e social no país, tem efeitos directos no desporto, bem como a acção das direcções das federações em exercício. Nesta altura, a “exportação” dos principais craques para vários países é, claramente, um factor positivo, na linha do que até fazem as grandes potências. 
Mas traz novos desafios, em especial a “gestão” da forma de cada atleta, bem como o aquilatar da competitividade de campeonatos de níveis muito desequilibrados.

Juntar os atletas apenas três ou quatro dias antes das partidas e decidir sobre o onze ideal, é tarefa extremamente complicada. Veja-se que uns actuam na França, Albânia, Portugal (no Amora) ou na Alemanha. E a decisão sobre quem, após viajar mais de 10 horas de avião, terá que ficar no banco? Estrelas como Reinildo, Mexer ou Zainadine, se ficarem a suplentes numa selecção tão mal colocada no ranking FIFA, poderá ser para eles factor desmotivador, porque objecto de “chacota” junto dos colegas. Nesse aspecto, a acção de Abel Xavier terá representado um “abanão” positivo na gestão das mentalidades, tanto as de dentro, como as de fora.

 

O PAPEL DO MOÇAMBOLA

O Moçambola deveria ser o principal suporte da Selecção Nacional. Mas não é. Com mais espaço para se discutirem modelos que se alteram anualmente e mais preocupação com as viagens do que com os treinos, a nossa competicão-mor vai funcionando ao estilo “tchova-xita-duma” (empurra que vai pegar).

Daí que o exíguo número de “seleccionáveis”, tenha como base duas razões: baixo nível na competitividade geral e presença marcante de estrangeiros nas equipas “top”, como principais desequilibradores. A partir daí, o seleccionador têm que se virar mais para os internacionais que actuam além-fronteiras – mesmo em turmas de valor secundário – para depois preencher os pontos fracos com os que actuam internamente.


MAMBAS NO RANKING FIFA

Quando Abel Xavier assumiu o comando, os “Mambas” ocupavam o 107º lugar. Moçambique conseguiu dar um pontapé na crise de maus resultados em Junho de 2017, quando em pleno estádio Levy Mwanawasa derrotou a Zâmbia, com um golo de Ratifo. A selecção ascendeu à posição 97. Porém, nos jogos que se seguiram, lapsos e desconcentrações em momentos decisivos deitaram tudo a perder. O empate amargo com a Guiné-Bissau, seguido pela surpreendente derrota diante dos namibianos, foram a “gota-de-água”.

Ao ser afastado do cargo para dar lugar a Vítor Matine, o treinador luso-moçambicano, deixou a selecção no lugar 116, isto é 9 postos abaixo da que encontrara. Refira-se que a nossa melhor classificação de sempre no ranking FIFA até hoje, foi o 68º posto, quando nos qualificámos para o CAN 96, sob o comando da dupla Bondarenko/Salvado. Em contraponto, a pior, em 2006, foi a posição 134, numa altura em que os Mambas eram orientados por Artur Semedo.

Um gráfico sobre o valor dos treinadores dos Mambas, tendo em conta as várias “nuances” porque tem passado a equipa de todos nós, e considerando, embora à distância, as oscilações no ranking dos adversários, colocaria Abel Xavier no pódio de um técnico que apesar da não qualificação ao CAN, iniciou um novo ciclo, que importa agora dar continuidade, com o registo que ele afirmou ter deixado na FMF.

 


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