Adeus, bombardeiro!

Livre directo, pouco depois da linha do meio-campo. Luís, no auge da sua forma, dobra os calções e toma balanço, gerando expectativa. Os adversários desconfiam. Será que dali, vai rematar directo? À confiança, fazem a barreira. O bombardeiro arma o remate e “solta” a bomba. O guarda-redes tanzaniano, de tanto espanto sorri, enquanto recolhe a bola no fundo das redes. Foi este homem que acabou de deixar o convívio dos vivos.

 Estamos em Dar-Es-Salaam, Março de 1978. Simba-Costa do Sol. Jogo ao início da noite, com luz artificial. Resultado na altura: zero-a-zero. Com a conversão daquele livre, o avançado canarinho tornou-se a estrela no dia da vitória canarinha. O público e os adversários, ficaram espantados. Alguns colegas correram a felicitá-lo, outros nem por isso, pois já estavam habituados aos remates do pé-de-canhão, sobretudo nos treinos.

 ESTRELA NO MEIO DE ESTRELAS

 Viviam-se os tempos áureos do Costa do Sol, o ex-benfiquinha. Martinho de Almeida tinha conseguido montar um time jovem, que através do seu valor, ia substituindo algumas das estrelas tradicionais do clube, como Moiana, Ibraimo e Afonso Eusébio.
A nova vaga era composta por Nito, Gil, Ramos, Sergito, Caldeira, Artur Semedo e, naturalmente, Luís Siquice, uma estrela no maior esquadrão futebolístico que surgiu no pós-Independência, conquistando dois títulos seguidos: 1979 e 1980.

O nosso personagem poderia ter sido um dos maiores futebolistas moçambicanos no pós-Independência, muito por conta da força do seu excepcional pontapé. Sobretudo de bola parada. O destino assim não quis.  Desde a sua juventude, quando surgissem pontapés livres, alguns colegas queriam que ao invés de rematar, ele enviasse a bola a “pingar” para a área. Diziam: é longe. Pinga lá”. Mas Luís chutava e a bola entrava.

Importa porém referir que o dianteiro canarinho tinha outras capacidades e características. Não era um homem de “viver” no interior da grande área, mas aparecia para fazer miséria, através das imprevisíveis acelerações, ou dos seus pontapés de surpresa. O apogeu foi atingido muito cedo. Alto, a rondar o metro e oitenta, espadaúdo, não virando a cara à luta, travou duelos interessantes com os centrais contrários, que se viam com dificuldades para marcá-lo, pois actuava ao estilo “vagabundo”.

Juntamente com Artur Semedo, em 1977 foi convidado “a saltar o arame”. Não para a África do Sul, mas para Portugal. Houve troca de correspondência mas o pai não o deixou sair. Depois veio a lesão.

 A 21 de Agosto de 1978, jogou pela Selecção Nacional pela primeira e única vez, no Estádio da Machava, diante de Cuba. Pelo nível de exibições e desequilíbrios que colocava nas partidas pelo Costa do Sol, esperavam-lhe muitas mais internacionalizações. Porém, esse sonho e provavelmente outros, acabaram por ser cerceados devido a uma gravíssima lesão, que reduziu claramente os seus atributos, particularmente a superior capacidade de fazer o gosto ao seu poderoso pontapé, que colocava em pânico as defensivas contrárias.
Como foi a lesão?

Aconteceu numa disputa de bola com Joaquim Gonçalves, do Sporting (hoje Maxaquene). Luís tinha invadido a área adversária e na altura em que já havia ensaiado o seu fortíssimo pontapé, o duro central adversário opôs-se, de pé em riste. O choque, apesar de violento, parecia sem grandes consequências. Puro engano. Acabou reduzindo as capacidades e a carreira do jovem avançado.

Ainda tentou continuar a jogar, arrastando-se, enquanto se submetia a tratamentos. Os nossos hospitais não possuíam aparelhos para diagnosticar com exactidão a lesão. Uns diziam que era no joelho.

Outros, menisco. A verdade é que não era nada disso. Foi uma ruptura de ligamentos. Soube-se mais tarde que se tivesse parado uns meses e com a tecnologia que existe hoje, teria voltado à ribalta. Foi jogando, esforçando-se, mas... não deu. As intervenções e tratamentos a que foi sujeito, no país e no estrangeiro, permitiram-lhe um regresso aos campos, mas sempre receoso em meter o pé.

No Costa do Sol, passou a alternar a titularidade. Jogava a coxear, denotando grande empenho, mas era visível a redução das suas faculdades. Sem jogar regularmente nos canarinhos, aos 21 anos, transferiu-se para o Maxaquene, tendo jogado durante uma época.

Cedo, muito mais cedo do que o futebol moçambicano merecia, Luís teve que pendurar as chuteiras, quando os voos que lhe estavam pré-destinados eram bem altos. Ao despedir-se, ficou na retina de quem o viu actuar, a potência e eficácia do seu fortíssimo pontapé.

Recordemos: falta assinalada na zona do meio campo. Luís ajeitava a bola no pelado ou relvado. Tomava balanço. Cinco/seis passos para trás. Olhava para a baliza. Ajeitava os calções. Dava entre três a quatro biqueiradas no chão. Arrancava para a bola e chutava com tremenda violência e imenso jeito. O resto ficava à responsabilidade dos locutores e comentaristas desportivos que cobriam o evento.

Pois foi esta ex-estrela do futebol nacional que nos deixou. Uma referência dentro e fora dos campos. Um bom jogador e um bom homem. Foi-se o futebolista, ficou a sua obra! Descança em paz, Luís Siquice!


 


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