Afrofuturismo e literatura em África: algumas reflexões sobre o lugar da literatura africana no mundo

Afrofuturismo e literatura em África: algumas reflexões sobre o lugar da literatura africana no mundo

Quando me foi pedido um tema, para a minha palestra neste evento, não tive dúvidas sobre o assunto a escolher. Eu tinha estado no Recôncavo da Bahia, meses antes do convite, e tivera vários debates em torno da literatura africana e a sua divulgação no mundo e, em particular, no continental Brasil.

Publiquei o meu primeiro livro há sete anos. Tinha a mesma altura de hoje, todavia era mais novo e, portanto, sem o juízo que actualmente pareço ter. Esse livro iniciático, “O Homem dos 7 cabelos”, é um conto infanto-juvenil sobre diferenças físicas e a luta entre as forças do bem e do mal, e termina com um solene “viveram felizes para sempre”. Caso se esteja a perguntar “e daí?”, aqui está a explicação: as nossas histórias, em Moçambique, não terminam assim, “felizes para sempre”. Eu estava a copiar, afinal, um modelo que tinha assimilado dos contos de fadas do ocidente, dos irmãos Grimm e dos filmes da Disney. Nunca mais fiz os meus livros assim.

Eis aqui um outro episódio curioso. Quando estávamos a fazer as provas do “Kanova e o Segredo da Caveira”, levantou-se um problema que assombrava o livro. A história gravitava em torno de um problema estético de um mambo (um rei) que, assumia que as suas coroas, em número de dez, estavam velhas e fora de moda, de tal modo que não podia pensar como lhe era esperado que pensasse. O problema era o seguinte: os antigos mambos de Moçambique, neste caso, os reis de outrora, usavam coroas? Para alguns sim, para outros, não. Os tais monarcas usavam, em sinal de sua “autoridade primitiva”, adornos feitos de finíssimas peles de animais e belas penas de pássaros. Não usavam adereços de metais preciosos como ouro ou então marfim, que por acaso tinham em fartura. Que nome dar a tais utensílios indispensáveis? Não era, a coroa, uma invenção ocidental? Europeia? Talvez “ aquilo” tivesse um outro nome, mas ele não sobrevivera ao colonialismo.

O termo “afrofuturismo” popularizou-se quando o filme distópico “Pantera Negra” tomou de assalto os cinemas mundiais. O herói, T’Challa, é negro, herdeiro do trono de Wakanda, um país africano isolado que escapou ao colonialismo. Wakanda é próspera e tecnologicamente avançada. Estes e outros motivos serviram para que a longa-metragem da Marvel retomasse o debate sobre o assunto. “Pantera Negra” foi aclamado pelo elenco maioritariamente negro nos papéis principais, mas é ainda mais profundo quando, por exemplo, lida com a crença nos antepassados, com a magia (poder transmitido ao herói planta mágica “Erva do Coração”), com o tradicionalismo (neste caso, o matriarcado), e com os poderes políticos – alianças e golpes de Estado.

Mas, o que vem a ser isso de “Afrofuturismo”? De acordo com fontes diversas, o conceito foi criado pelo autor, crítico e ensaísta Mark Dery, em 1993. Segundo Brent Staple, em um artigo publicado no The New York Times, Dery cunhou o termo para descrever o trabalho de artistas negros que usavam a ficção para imaginar possíveis futuros. Eu prefiro, entretanto, a definição de Daylanne K. English. Para ele, o afrofuturismo compreende um movimento crescente de escritores, artistas, músicos e académicos afro-americanos, africanos e negros na diáspora. O afrofuturismo envolve a produção cultural e o pensamento escolástico – literatura, artes visuais, fotografia, filmes, arte multimédia, performances artísticas, música e teorias – que imaginam, de forma justa e livre, a subjectividade negra no futuro ou em lugares, tempos e realidades alternativas.

Está claro que o termo é um movimento multimédia que visa reclamar a identidade negra através da arte, cultura e resistência política. Hoje, a indústria pop lista os nomes de Erykah Badu, Janelle Monáe, Beyoncé, entre outros, como seus principais activistas. Vou contar-vos outra história. Em finais de 2010, Beyoncé estava prestes a lançar o seu novo álbum, mas faltava-lhe algo para o seu single principal, “mais África”, talvez, mais criatividade ou diferenciação. Nas suas pesquisas, a artista descobriu, no YouTube, a dupla moçambicana de dança Tofo Tofo. Conta-se que a sua equipa, de oito coreógrafos, tentou sem sucesso imitar os passos e estilo único de Xavitto e Kwela. Desolada, Beyoncé contactou a Embaixada Americana em Maputo, que, por sua vez, tratou de organizar a viagem do grupo a Los Angeles, onde ensinou a sua dança e foi a atracção principal do videoclipe, que viria a ganhar o troféu de melhor coreografia da MTV e o de melhor dança do Soul Train.
Há quem chame isso de oportunidade, há quem chame de apropriação cultural. A questão que se coloca é a seguinte: não seria o afrofuturismo uma continuação das preocupações de Marcus Garvey, Aimé Cesáire ou mesmo Leopold Senghor?

A literatura africana sempre esteve em causa a partir do momento em que Hegel associou a escrita à participação na construção da humanidade. A África é o berço, o estado natural, de inocência, a noite do intelectualismo. Ela não tinha escrita. Essa negação, eurocêntrica, como é evidente, vai caracterizar a relação da literatura negra com o mundo. Será, então, na língua do colonizador e sobre os seus arquétipos, que ela far-se-á ouvir. Daí que os seus “primeiro fazedores” serão os filhos de europeus nascidos nas colónias, mulatos ou negros que tiveram um pouco da educação formal branca. Existem poucas excepções mundialmente conhecidas, e o professor Ngugi wa Thiong'o é uma delas, e escreve em Kikuyu. Em Moçambique, Bento Sitoe lançou “Zabela”, um romance em ronga, língua bantu falada no sul do país. Será possível consolidar e normalizar uma literatura que não é escrita numa das línguas coloniais? O certo é que as editoras respeitam as “políticas da língua”, como diz o escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho.

Há dias, em Maputo, participei de um painel sobre o futuro da língua portuguesa. Usando projecções estatísticas, defendi que o futuro do português dependia do futuro de Moçambique e Angola, cuja população e poder económico – derivados da descoberta de recursos minerais – tendem a crescer. O que isso quererá dizer num momento em que estes e outros países dos PALOPs procuram legitimar suas línguas nacionais com a introdução de sistemas bilingues de educação?
Em o “Perigo da história única”, a autora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre esse legado histórico, sobre os riscos de se perceber a África sob uma singular narrativa. A África não é um país, acreditem em mim, pois sou africano – mas se estiverem indecisos, poderão sempre consultar um mapa-múndi ou ler as dicas de como não descrever a África, no viral ensaio “Como escrever sobre África”, de Binyavanga Wainaina, que perdeu a vida há três dias.

A questão está longe de ser nova. Qual é o lugar da literatura africana no panteão das letras? O que este “novo internacionalismo” procura na literatura “afro-africana”? Quais deverão ser os seus temas? E o que o afrofuturismo tem a dizer?

Em 2017, Paulina Chiziane, conhecida como a primeira romancista moçambicana – autora de livro célebre “Nikeche: uma história de poligamia” – publicou o livro de poemas “O canto dos Escravos” . A poética retoma a temática proto-nacionalista e independentista dos anos 30 e 60 do século passado, respectivamente, em possíveis intertextualidades com Noémia de Sousa e José Craveirinha. O livro teve uma má recepção no exigente circuito literário moçambicano. As acusações podem ser resumidas em duas: primeiro, é uma poesia fora do seu tempo – que ela não “sentiu” – e, segundo, era um “golpe de marketing” para aumentar as suas vendas, principalmente no Brasil, onde a autora é muitíssimo bem-recebida e lida.

Quando discute as temáticas da literatura africana, Mia Couto volta da falar do perigo da “narrativa singular” de África. O escritor chama-lhe de a narrativa da “África Tradicional” ou “África Autêntica”, cuja legitimidade é definida pelas marcas da oralidade e pela injustiça do colonialismo. Para Mia, está-se perante uma “africanidade imposta” pela crítica, e fala da necessidade de se desconstruírem essas imposições. Ngugi wa Thiong'o, que há anos anda na lista do Nobel, assume que a sua literatura seja do nível Cervantes.

A nova literatura africana não tem limites. Os seus temas são diversos e envolvem ambientes de cosmos que não são somente a África, e nem por isso os seus autores deixam de ser africanos. Aliás, assim é a literatura. O escritor português Valter Hugo Mãe escreveu o romance “Homens imprudentemente poéticos”, ambientado no Japão; Isac Asimov escreveu “O Caminho Marciano e Outras Histórias”: será o primeiro japonês, e o segundo marciano?

O afrofuturismo literário põe a negritude no papel central e lida com a realidade do que isso significa na sociedade que ela cria. Essas histórias contêm elementos que não são da cosmogonia ocidental e incorporam mitos, lendas e técnicas de contação de histórias de outras culturas. De uma ou de outra forma, ela acaba sendo especulativa, se não imagina o futuro, busca reconstruir a história, ou, como diz Bolanle Austen Peters, viaja ao passado e refaz velhas obras de arte, atribuindo-lhes uma identidade africana.

Mas será que a África precisa mesmo do “Afrofuturismo”? Não estou certo, mas muito provavelmente não. A romancista sul-africana Mohale Mashigo esclarece: “na verdade, nós vivemos neste continente, diferente dos que o usam como um apetrecho ou um palco para representar as nossas ideias”. Assim posto, diz ela, “a nossa necessidade de imaginar o futuro ou fantasiar o presente será diferente da de qualquer [negro] de outra parte do globo”. E conclui: “Afrofuturismo não é para africanos que vivem em África”.

No ano passado participei do “Caruru dos 7 poetas”, em Cachoeira, como uma das atracções internacionais, juntamente com o colombiano Rómulo Bustos Aguirre. Durante o “Recital com gostinho de dendé”, apercebi-me que a minha poesia, diferente de alguns textos que sentia, eram incolores e assexuados. Os meus não tinham raça, sobretudo. E confesso-vos, ela pode também não parecer africana (assim como o meu nome). Notei, afinal, que o meu compromisso era com a arte, com a poesia e com o futuro. Com África, sim, sempre, com a esperança. Era aquele o meu partido.

Gostaria de terminar dizendo que tudo o que qualquer escritor deseja é ser lido, ser entendido e, talvez, escrever o livro preferido de alguém. Como escritor negro e africano, tudo o que anseio é continuar a fazer literatura, e não “literatura africana”. Obrigado pela vossa atenção.

 

 


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