Algumas vozes femininas na poesia moçambicana do século XXI

Algumas vozes femininas na poesia moçambicana do século XXI

Ler & Escrever

 (Primeira parte, a continuar)
A maioria das vozes femininas que começa a publicar poesia em Moçambique praticamente no início do século XXI, não evidencia filiações estéticas, ou heranças intertextuais definidas; mostra uma proliferação de dicções muito diferentes: “um emaranhado de formas temáticas sem estilos ou referências definidas” (Heloisa Buarque de Holanda), mostrando que fazem parte de uma certa literatura contemporânea,  que encena a vontade de incorporar no seu seio também aquilo que não é consentaneamente considerado “literatura.” São escritas do sentir e do alheamento, de narcísica exposição do corpo e de seu ocultamento, de temáticas relacionadas com a mulher e a sociedade, entre outros temas. Embora já tudo tenha sido sentido e mostrado e ocultado nesta nossa época, a poesia moçambicana contemporânea das mulheres é uma variação de escolhas, sem ordenamento formal ou temático. Um mix ou combinatória com várias entradas possíveis. Vamos então, para iniciar um percurso, ensaiar ler duas dessas vozes.

Amélia Margarida Matavele, a Pré-Destinada: “A noite convida-nos a dançar xitshuketa”
Começo aleatoriamente com uma das mais jovens autoras, membro do movimento literário Kuphaluxa, com um único livro publicado, Xitshuketa, (nome de uma dança de improvisos e surpresas), Lisboa: CEMD Edições, 2015. Uma escrita debutante que ensaia o registo da música e da pintura, que oscila entre a autoria das imagens, dos ritmos e das cores. A evocação da pintura de Malangatana percorre alguns dos poemas, permitindo perceber a paixão criativa e a procura da arte e da inspiração que guiam a poeta. O sujeito destes poemas é simultaneamente cândido e explosivo nas suas emoções; assume o desejo, interpela o amor; questiona-se sobre ele, oferece-o, procura-o na arte. Uma singela vocalidade que apela os amigos, a escrita, os ritmos da música, que concilia a física dos desejos assumidos com o jogo (cabra-cega) da poesia:

No escuro/ Pisoteio o chão do teu corpo/estudo o teu relevo/ Descubro planícies, planaltos em ti/ E juntos fazemos montanhas.// O escuro da tua pele  incita-me a silenciar a tua boca/ e a aterrar em teu corpo/ Não sendo mais eu, mas uma espécie de corpo-suga/ a montar-te em cabra-cega/ suspirar em ar hipnótico ao teu ouvido,/ amor, hoje, há poesia. (29)

As sonoridades da dança do desejo, do envolvimento sensual explicitam-se nos ritmos do corpo, como se lê em alguns dos poemas como  Timbila: “Naquela noite/ O escuro convidava-nos a celebrar os desejos/desenhávamos nossos corpos.(...) A timbila dos meus olhos Rimou com a serenidade dos teus lábios,/ O roçar dos nossos  desprevenidos lábios/ autorizou-me o deliberar o grito dos bichos. “(33).                                                                                                                           

Também é um sujeito crítico que escreve relativamente à exploração feminina, aos vícios do álcool, ao abuso de menores (poema Catorzinha) e outros aspectos mais problemáticos da sua terra (poema pérola do Índico).  Entre as revelações do corpo e da arte e as lágrimas do amor, a confessional voz de Amélia Margarida é primavera, começo: “Nas primaveras, / Margaridas enamoram as orquídeas,/ A natureza seduz os vocábulos! (24).

Rinkel, temas sobre a mulher
Rinkel é o pseudónimo de Márcia dos Santos e publicou três livros de poesia, Almas Gémeas (AEMO, 1998), Revelações (AEMO, 2006), Emoções e Abstracções (AEMO, 2011). Nascida em 1977, e natural de Inhambane, Rinkel nos primeiros poemas do livro de estreia Almas Gémeas mostra uma escrita ainda um pouco confes­sional e revoltada, em que aborda vários temas, questionando as injustiças sociais, nomeadamente a questão racial, a infância triste dos meninos de rua, dos orfãos da guerra, dos meninos soldados, nascidos e crescidos no meio da violência da guerra civil. Leia­?se nesta perspectiva o poema Mártires da Democracia: “A ti criança/ parida quando tua mãe morreu/ nos teus braços.// A vós heróis antes de serem homens.//Tu que pegaste na arma/ que pegaste na catana/ Tu que mataste impiedosamente/ com a mente pura de uma criança/ adulterada” (14). Os poemas relativos à parte Cores da Vida, ou a Mas o que é isto? questionam as contradições de sentimentos não resolvidos, entre caminhos desencontrados e o confronto do sujeito com uma realidade social e política crua, incapaz de solucionar.” O amor a acabar/ a guerra a dominar o mundo/ É triste, mas é a realidade/ Eu vivo este presente (…) São as crianças que morrem/ As mães que soluçam/ São as dores de parto/ O pranto de perder um filho” (25).

Na sequência destas interrogações que os poemas colocam, os textos seguintes tratam do mundo urbano, em que a droga é fuga e procura de alheamento, um caminho para a morte, onde também o aborto, a sida, proliferam. Rinkel questiona usando o sinal gráfico da interrogação –?Livre? – e centraliza o tema da mulher, tratado sob vários ângulos, nomeadamente na sua condição subalterna, numa sociedade preconceituosa. “Mulher de ti/ Emancipada/ Num mundo cheio de preconceitos/ Reprimida/ Mas livre/ de pensar e de agir/?Livre?” (33)

O poema Eu aponta para o desenquadramento social do sujeito, num desejo de pacificação interior e de descoberta de si: “Não sei o que quero/ quando quero/onde quero” (31). Um outro poema “À procura de espaço” será um dos únicos textos da colectânea onde encontramos alguma empatia entre a vastidão do céu, enquanto procura de idêntica luz de sonho “Eu e as estrelas/ olhamo­?nos incessantemente/ à procura de algo/ Que não sei o que é/ porque elas não sabem o que são// Eu e as estrelas/ no firmamento/ no infinito/ no indefinido (30).

Neste primeiro livrinho de Rinkel verificamos que a enunciação feminina se centra nos temas da maternidade, no tópico da infância, da repressão social sobre a mulher, em suma, no tratamento das limitações dos seres mais frágeis da sociedade, as crianças e as mulheres, em confronto com a violência da guerra, limitados e dominados pela sua periferia social.

No seu segundo livro, Revelações (AEMO, 2006), encontramos uma voz mais amadurecida e sensualizada. Como o título indica há revelação do sujeito e da sua relação com o mundo. A dedicatória do livro insiste sobre a condição da mulher. Aí lemos: “Às sofredoras./ Às batalhadoras./ Às Amantes da vida./ Às grandes mulheres./ Às verdadeiras mulheres./ Às que carregam o mundo nos seus ventres.” Nota­?se ao longo do livro a aprendizagem da dor e do prazer de ser mulher e o fortalecimento do sujeito mediante este conhecimento.                                                                            
 
Uma parte do livro denuncia as histórias do quotidiano das mulheres, como, por exemplo, a ilusão amorosa. Leia­?se Ana Faria e a Lua: “Em delírios lunares/ de borboletas gritantes,/ ao som de patéticas/ confissões// E a lua!// Eu e ela,/ ambas sem sol./ Sós. (…) Em delírios lunares/ borboletas gritam/ patéticas palpitações,/ de patéticos /corações” (16), ou  leia-se o poema Maninha que conta a história do estrupo de uma menina de 11 anos, e nesta sequência  surge um outro tema  como o HIV (27).

A oscilação entre liberdade e cativeiro da mulher é tratada no poema com esse mesmo título: “Na procura da minha liberdade/ Encontrei a injustiça e o cativeiro/ quis mudar o mundo,/ Mas o mundo mudou­?me a mim” (12), bem como no poema Menina Cheia: “Menina das cheias/ Cheia de desgraça/ Cheia de nada” ( 13), mas é sobretudo o poema Oh Mulher! (24) e Lei da Família Moçambicana, em que a autora denuncia a condição de dependência feminina: “Barrigas grávidas/ De pais ausentes, infiéis, polígamos// Amantes/ Sem planos/ Sem promessas/ Sem esperanças/ Sem futuro// Apenas amantes” (23), que retoma o que na ficção o romance Niketche, de Paulina Chiziane, tão bem documentou.

Há um outro conjunto de poemas neste livro que trata do amor, o amor de ser mãe, e o de ser filha, que são a revelação de um amor maior e incondi­cional. Em Conforto lemos: “Ouço uma voz de conforto/ Imagem feminina que acalma os meus sentidos./ Como se estivesse ainda em seu ventre.// É noite e sinto­?me segura/ Na escuridão/ Deitada no colo da minha mãe.” (p. 29). Por outro lado o tema da maternidade ganha uma especial evidência, como observamos em especial no texto A Minha Mais linda Poesia (a essência da mulher: ser mãe); é uma pequena ode de gratificação pela dom de dar vida: “És a poesia mais linda da minha vida!/ Meu ventre gerou o mundo, gerou o teu ser/ Eu tornei­?me poeta da tua existência.// Sem ti minha poesia era apenas palavras” (33).

Outros poemas do final do livro como por exemplo Beijos, Adormecida, Teu Corpo Meu Corpo, Não Te Cales fazem uma outra revelação, a de uma sensualidade harmonizada. O interior do quarto ou a plenitude do mar e da maresia renovam o sujeito na sua merecida harmonia física e espiritual: “tropeço e continuo o caminho…// Ponho os pés na areia da praia/ Respiro profundamente/ E sinto­?me livre” (26), “as estrelas olham para eles os dois/ Como borboletas esvoaçantes/ Estrelas candentes, amor, amantes” (40).

Emoções e Abstracções (Edições Fundac, 2011) um terceiro livro publicado pela autora revela novo amadurecimento das emoções, nomeadamente dos sentidos físicos e mostra uma sensualidade mais assumida, como se pode ler no poema Tu és: “Teu corpo/ Minha perdição// Tua pele/ cheiro a flor// Tua boca/sabor a mel// Teu olhar/ verde e penetrante// Tu, minha casa/ Meu destino” (28), ou ainda no poema Mais Turbo e Acção, em que o sujeito se auto satisfaz numa plenitude solitária, através da imaginação: “Ela está sozinha/ No seu quarto escuro/ começando a sentir o sono/ a apoderar­?se de si e do seu corpo/ Solitário…/ Mas satisfeito…” (34). Os males de amor são desta forma torneados. Por outro lado, o poema Amar diz o seguinte: “Amar…/ duro teste!/ Se não correspondido! (27); há como que uma sabedoria de aprendizagem emocional, como se pode ver no poema Depois, em que observamos a aceitação dos contrários em pacificada harmonia: “Depois da paixão …a separação/ Depois do amor…o ódio/ Depois da vida…uma outra/ Um novo início…// Depois do dia…a noite/ Depois da luz…a treva/ Depois da terra…o mar/ Ondas rolando…” (30). Vários dos poemas da primeira parte do livro, em que se concentram os temas sobre as emoções, tratam o desespero, a guerra, a perdição, aliados a outras emoções que encenam a harmonia, como por exemplo o poema de abertura, Mundo Colorido: Pinto os meus quadros/ Com as cores da vida/ Verde esperança/ Amarelo de angústia, desespero// Pinto a minha vida/ Com as cores do amor/ Sangue vermelho/ Rosa romântica/ Laranja doce// Pinto as minhas emoções/ Com as cores da natureza/ Céu azul marinho/ Puras nuvens brancas/ África negra” (13).

Observamos um sujeito feminino que assume esteticamente os contrastes do amor como uma pintura, e mostra domínio da realização sensual, mantendo a relação com o amor de forma emocionadamente prazeirosa. Na segunda parte da colectânea, intitulada Abstracções, como observa justamente Lourenço do Rosário é retomada a faceta intervencionista da poeta e são tratados, entre outros temas, de novo o tema do HIV, da mulher e da maternidade. Leia­?se o poema intitulado Mulher (40) ou outro Flores de Mim (42), que tratam do esforço de conquista da mulher e dos seus sonhos num mundo de luta e de desigualdades. Neste livro, outros poemas fazem crítica social como Sem Sistema (50) ou Corrupta Democracia: “No lixo tem um bicho/ O bicho gosta do lixo/ O lixo alimenta o bicho/ E o bicho cresce a cada dia// O bicho, o lixo gosta/ Gosta do lixo, o bicho/ E faz do povo o seu luxo”. (51). Os sentidos da utopia e do sonho são todavia interrogados ainda com certa esperança, apesar de muito desencanto: “Patriotismo e integridade faltam/ Nesta geração julgada promissora/ Porém desprovida de ideais/ Reais?.../ Não. Apenas ilegais…// Os belos e radiosos dias/ Serão alguma vez contemplados? (54).

 


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