Algumas vozes femininas na poesia moçambicana do século XXI (cont.)

Entre luas & sonho: Melita Matsinhe e Sónia Sultuane

 

    Melita Matsinhe: o fogo lunar do poema

 

   Melita Matsinhe é natural de Inhambane, historiadora e musicóloga de formação, é pianista e cantora, além de gestora de programas de Artes e Cultura. Ignição dos Sonhos (Fundação Fernando Leite Couto, 2017) é o seu primeiro livro de poemas.

     Sabemos que ignição é um mecanismo de combustão interna que coloca um motor em movimento e a partir desta informação que o título nos veicula observamos a articulação entre a dimensão etérea dos sonhos com a propulsão de um motor, talvez da alma, ou da leveza da inspiração, com a força do corpo e da criatividade.

     Somos levados na leitura do livro neste duplo movimento, a força interna, a lava, a cor vermelha do sangue, e a leveza do ar, do vento, do silêncio, ou a cor branca da lua. Entre tonalidades mais ou menos persistentes de vermelho e branco, decantados em sopro imaterial, a escrita de Melita Matsinhe procura encontrar como que a “pureza” do instante. Vejamos o poema Rosas Brancas:

Sou um jardim de rosas brancas/ na luz prateada que não vês/ recito amizades à flor/ e segredos de amor sem fim.// Cultivo rosas brancas, sem saber/ com sangue ao redor, se amanhã chegará/ desvirtude dos tempos, e dias de dor/ sou um jardim à luz do luar.(75)

       São poemas breves, decantados, como improvisos, que tentam captar momentos e sensações, mas que se regem por movimento, liberdade. Estas duas vertentes o movimento e a liberdade (de sentir, de desejar, de possuir, de criar) fazem do poema momento de tensão, quase diria de suspensão, êxtase, “vértice de som”. É o que lemos no poema Notas básicas para nascimento do poema: “Fechar a porta,/ é indiferente ao mundo,/ com o mundo nos quartos/ incendiados do mundo.// O fogo do amanhecer/sobre a erva/ tijolo a tijolo/ da base ao vértice do som”(28).

    O apuramento da Oferenda da escrita “Beijo a beijo/ te venho buscar/ e te entrego/ às mãos/ nasce o sonho” (74), mostra a ligação terna do corpo, que beijando entrega às mãos  a dádiva da escrita, que é sonho nascente, ou o sonho que se evola das palavras que beijadas se transfiguram em poema: “Partilho palavras/que das mãos me nascem”(16).

   O movimento articula vários estados na escrita de Melita Matsinhe, da materialidade do corpo ao fogo da paixão, deste último à etérea dissolução em vento, sonho, estrela ou música, ou podemos recompor em vice-versa, ou em variações: “Como prender o vento/ o canto eléctrico, Walt?” (21). A química da mutação subtil dos estados é a arte alquímica da poeta. E encontramos também o mar, a onda, a água dos rios, a dança dos elementos que se transmutam, tal como o sentido das palavras em mutação, Coreografia dos Sonhos:

 

Rios verticais sulcando-me o peito/ sob as estrelas/ golpeiam o solo em doloroso destino/ e tu danças/ apagando sinas, decretos, contratos,/ por dentro da gravidade da terra! (20)

 

    O poema Cultivo o Amor diz: “Onde as palavras, em dança livre/ na pluma incurável dos sonhos/ pequeninos seres tornam-se,/ é a letra  um canto sem fim: aí cultivo o amor em cartas lunares.” (52).  Cartas lunares, canções, vértices de som, os poemas de Melita Matsinhe tricotam palavras de várias línguas, poliglotam sons do “coração oculto”. São poemas que sonham ser palavras, palavras que sonham ser sons,  em movimento harmonioso e ígneo. Sophia de Mello Breyner e a poesia de língua castelhana estão nos avessos destes ritmos, que tecidos de lua se encantam em fogo.

      Sónia Sultuane, uma escrita da emoção e do prazer

 

Sónia Sultuane, nasceu em Moçambique (Maputo), em 1971. Artista plástica, Sónia Sultuane tem colaborado noutras práticas artísticas como a instalação, a dança e a fotografia. Como poeta conta com quatro obras publicadas, Sonhos (AEMO; 2001), Imaginar o Poetizado (Ndgira, 2006) e No Colo da Lua (Ed Autora, 2009) e mais recentemente Roda das Encarnações (Fundação Fernando Leite Couto, 2016).

No primeiro livro de poemas de Sónia Sultuane, Sonhos a poeta percorre o espaço que vai de si própria para uma outra em que se procura e desafia, “como queria ser a outra dos meus sonhos” (47), feminino sujeito que se quer intenso e pleno no seu sensitivo imaginário: “Menina ainda tornei­?me mulher/ enfrentei o mundo, e a mim mesma” (15).

Um percurso que corporiza gradualmente os sentimentos e sensualmente os convoca em todas as suas contradições: desejo, ausência, saudade, ilusão, sonho, distância, alegria, dor. Imaginando através das palavras, as formas que têm os sentimentos, de tanto os sentir. Imaginando o amor, vivendo­?o nessas imagens que ele encontra nos muitos espelhos da alma: “Amar­?te é algo sem dimensão ou justificação/ é viver sempre na imaginação/…/estar sempre a sonhar” (28).

No seu mundo amoroso, imaginado pela escrita, a poeta tenta regressar à envolvência da infância “deixem­?me no meu mundo doce e infantil, mas meu” (p. 13), experimentando­?se ludicamente, ao brincar com o seu pensamento da emoção, refazendo­?o pela distância: “vou brincando com o meu pensamento,/ tentando encontrar­?me distante,/ mas presente,/ no que és presente, quando és ausente” (38).

Na sua segunda colectânea de poemas, a autora assume quase uma reivindicação da forma de sentir e do ser amoroso, ao escrever sobre a exaltação do prazer, a força erótica e a assumpção de um erotismo social e secularmente negado à mulher. Nessa perspectiva os poemas de Sónia Sultuane são insinuantemente inconformistas pela sua temática sensorial e seu desnudamento emocional.

O poema Africana amplifica o tema da identidade, uma vez que tende a territorializar o feminino. Além desta primeira identidade, e lembrando com alguma ironia o poema Se me quiseres Conhecer de Noémia de Sousa, a poeta assume a sua africanidade: “dizes que me querias sentir africana/ dizes e pensas que não o sou,/ só porque não uso capulana,/ porque não falo changana,/ porque não uso missiri nem missangas,/ deixa­?me rir…”

Quer este poema desenhar um percurso identitário de abertura às diferenças de género, de raça, de língua e de cultura, num continente e num país, que se caracteriza também pela coexistência harmónica de tal múltipla diversidade:

pelo sangue que me corre nas veias,/ negro, árabe, indiano,/ essa mistura exótica, que me faz filha de um continente em tantos/ onde todos se misturam,/ e que me trazem esta profundidade,/ mais forte que a indumentária, ou a fala,/ e sabes porquê?/ porque visto, falo, respiro, sinto e cheiro a África,/ afinal o que é que tu saberás?O que é que tu sabes? (15)

Interrogativa, reticente, dialogal, esta voz percorre os poemas como o sangue nas veias de um corpo amoroso, palavras que são o próprio sujeito em acto de constituição e de revelação: “As palavras que te dou/ são o que sou, /são o que sinto,/ e como me sinto, /essas são as minhas palavras EU.” (29).

No Colo da Lua, é o terceiro livro de poemas de Sónia Sultuane. Há nestes poemas a procura de harmonia de um corpo que quase voa, elegante na sua aspiração ao sonho e à verdade, à pureza das sensações, à celebração do desejo. O poema que dá título ao livro No colo da Lua, diz­?nos da apetência amorosa de expansão e abertura do sujeito ao mundo, da vontade da poeta falar às estrelas, se aninhar no colo da lua, o mágico planeta da noite que transfigura o sonho em realidade:

Quero olhar o céu/ e contemplar a sua sombra dançando / na cadência do meu coração,/ mergulhar no seu infinito,/ no reflexo do azul esver­deado profundo,/ sentir o cheiro do mundo percorrer­?me as entranhas,/ falar às estrelas prateadas, / sentar­?me no colo da lua amando a imensidão do universo,/ saboreando cachos de uvas pretas adocicadas,/ para poder entregar­?me a todos os sabores exóticos, / cantando e suspirando pela vida. (11)

A experiência sensorial torna­?se quase um acto de levitação graciosa em torno das coisas, qual borboleta, cujas asas ou pétalas acariciam o que tocam, e no que é tocado se sentem acariciadas. O corpo vive dessa dualidade de ser quase imaterial, é dança, música, sopro, flor, pétala, esvoaçante, como se pode ler em vários poemas, como por exemplo, Noiva: “Danço nas sombras do luar prateado,/ visto­?me de sari vermelho bordado com missangas douradas/ trazidas de Bombaim / nas árvores imaginárias de vida/ penduro os meus cabelos que esvoaçam na brisa/ trançados com folha de laranjeira e jasmim (...)” (12).

Há uma celebração assumida do prazer e do desejo físico, da comunhão dos corpos, que a escrita de Sónia Sultuane revela. Em Noites de Prazer, o sujeito poético confessional, escreve que não se arrepende de ter transformado um sentimento como o amor na grandeza do seu ser:

não me arrependo (...) De não ter seguido e queimado as etapas da vida, / mas de ter vivido a vida conforme as etapas/ e o fogo do meu coração,/ de não ter omitido as minhas palavras, / mas ter expressado a linguagem do amor,/ de não ter calado o meu coração, / mas tê­?lo ouvido bater descompassadamente,/ de não mentir à minha consciência, / mas de ter sido leal aos meus princípios (...) De não ter sucumbido à vontade carnal, /mas ter amado com a alquimia dos sentidos,/ de não ter deixado o meu coração / ser uma armadilha,/ mas ser a presa dos meus sentimentos (...) (4).

 


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