Amanhã é Dezembro…

Amanhã é Dezembro e a certeza de que nada disto é absoluto se alia àquela moça, a memória, e me esbofeteiam a alma até ensopar com recordações o chão desta noite que me suga a língua sem piedade, obrigando-me a falar através destas mãos que só  escrevem asneiras.

? És tão dramático!

Isto não acontece todos os dias, amanhã é Dezembro! Há anos que os meus tímpanos não são fuzilados pelo ensurdecedor

? Sister Bettina

que os aparelhos de som dos vizinhos madjonidjonis disparavam nas suas guerrinhas para mostrar quem tinha a melhor aparelhagem do bairro mesmo que para isso, aquando da sua compra na África do Sul, tivessem de sacrificar os randes dos 10kgs de batata pelos quais os estômagos da família desesperadamente rezaram durante todo o ano para que não faltassem no dia 25 de Dezembro.

Na minha infância, Dezembro sempre foi um mês festivo. Já no início do mês, para além da contagem decrescente para as grandes festas, estávamos todos de férias e podíamos sujarmo-nos até altas horas da noite, vacilo que diariamente rendia aos meus irmãos, meus primos e eu um banho frio que, não digam a ninguém, meu irmão mais velho algumas vezes não tomava e pagando o nosso silêncio nos dava o seu naco de carne ou peixe no jantar que se seguia ao banho dos corajosos. No fim daquele mês haveria roupa nova, refrescos, bolos e todos adultos andariam felizes e distribuir-nos-iam moedinhas!

Apenas as luzes de natal disfarçam esta fria e chuvosa Lisboa. Noutras condições isto se pareceria a um filme deprimente que apenas se ouve a voz de Zaz a cantar

? Tombe, tombe, tombe la pluie en ce jour de dimanche de décembre.

Árvores de Natal gigantes arranham os céus das praças com estrelas, acho que é por uma delas que descerá o nosso senhor Jesus Cristo. Algumas varandas dos prédios foram vestidas com mantos vermelhos que descem janela abaixo. Naquela altura organizávamo-nos para ornamentar as ruas. Tínhamos um cofre que ficava num camião velho, no meio da rua da minha casa, onde todos íamos meter as migalhas que nos davam. Num dos anos aquilo não correu bem porque alguém do grupo com mão quente foi esvaziar o cofre.  Mas isso agora não interessa. Com aquele dinheiro comprávamos balões e outros adereços para ornamentar a rua onde argolas gigantes de papel coloriam o céu.

O tempo dá-nos tudo, mas também leva. Mais que longe da infância estou muito longe da terra onde tudo acontecia. Maputo e os nossos amores gravitam a milhares de quilómetros. A saudade abre-nos os zípers, vai apalpando o céu e quando abrimos os olhos estamos lá, deitados nas profundezas da memória a gritar as aneiras que se confundem com tudo e criam um incêndio, que nenhuma água é capaz de extinguir, na nossa cabeça!

 ? Não diz asneiras, até parece doença! 

Amanhã é Dezembro e não preciso de guardar nenhuma moeda para comprar a caixinha de Dangers, aqueles pequenos explosivos que durante o último mês do ano sempre pesaram os bolsos das minhas calças e toda a vez que os fiz explodir as tias da vizinhança gritaram:

? Hawena vão nos matar de matensão pah!

Cá entre nós sabemos que na verdade Dezembro são apenas quatro dias. Dramas à parte, isso fica para outra hora, o dever nos chama, amanhã é Dezembro e, para não falar de outras ocupações, há simulações de julgamentos a preparar e provas escritas a prestar na faculdade de Direito onde se esconde o tempo que precisamos para sujar nossos blocos de notas até as vozes encontrarem a sua paz!

 


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