Amigo culto

Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro.

Henry David Thoreau

“Eu vou oferecer algo muito importante ao meu amigo oculto, tão importante que o fará culto, não oculto. E o meu amigo é.... Kanziwelo.”

Manuel Kanziwelo sacudiu a inexistente poera das nádegas que retirou daquela cadeira estofada, levantou-se assim que ouviu o seu nome soar naquele restaurante chique, algures na zona nobre da cidade, onde estavam todos os seus colegas, incluindo os seus superiores hierárquicos.

Tinha um certo entusiamo e um ar de graça no rosto que esbanjou ao encarrar os seus chefes, principalmente ao director-geral que o anunciou como amigo oculto, mas quando voltou a sentar-se parecia um recém-viúvo. Estava em pura agonia e extremamente stressado, faltava-lhe uma lágrima no canto do olho para fechar o cenário de desamparado total, tudo porque, contrário as suas espectativas e na sua forma de ver, o presente que recebeu não era equivalente, nem no preço nem na utilidade, ao que comparou para dar ao seu colega oculto.

Tinha as sobrancelhas aguçadas, testa franzida e tremia tanto de nervos, apesar do ar condicionado estar ligado dos seus poros já se libertavam, ensopado ocorreram-lhe várias ideias, mas não as aderiu, visto que todas elas o aconselham a contestar o presente. Pensou, pensou e repensou, conclui em não prosseguir, como deveria ele, logo ele contestar uma decisão do chefe?

Foi o único que, sem regozijo, contribuiu para aquela ovação incomum com aplausos de fazer doer as mãos, em que todos encontravam-se de pé, empenhados em agraciar as palavras que o chefe acabara de proferir depois de todos trocarem os presentes.

Como era final do mês e do ano, já todos tinham recebido os míseros ordenados, daí que era mais fácil fazer aquele espectáculo de vassalagem, uma vez que já haviam sido libertadas todas as hormonas da felicidade. Apesar das férias colectivas que já tinham sido decretadas a partir daquele dia, estavam todos uniformizados, trajados de uma forma incomum ao habitual. Vergavam camisas e blusas feitas de capulana, todos eles exceptuando o boss, como certos colegas de línguas flexíveis o preferiam chamar, pois é, deve haver sempre alguém que se distingue dos demais, mostrando claramente quem é quem dentro da empresa.

Foi depois da explanação do feche se serviram os comes e bebes, por essa decisão, Manuel Kanziwelo, que era bom de garfo e copo, não se animou com a iguaria, nem o whisky velho conseguiu impor-lhe certo ânimo no rosto. Mesmo quando os serventes de mesa começaram a trazer a picanha, sua comida favorita, trouxe-lhe qualquer arrebatamento na alma.

Por essa razão, entre fragrâncias de capulanas novas e sorrisos esbugalhados de funcionários de escritórios, assistia-se um paradoxo: alguém muito triste numa festa, onde todos os colaboradores conversam, animados execepto Kanziwelo, como é óbvio, que olhava para a sua oferta com todo desprezo, os colegas olhavam-no, mas sem aquela atenção que ele precisava, visto que as comidas e as bebidas haviam roubado a cena.

“Poraaaa!, mas que cena é essa de me oferecem livro?, eu sou mesmo azarado, fogoooo!” Disse para si mesmo, queria que alguém lhe tivesse dito algumas palavras alento, um conforto qualquer que fosse para seu contentamento já que ninguém naquele cenário festivo o daria.

“Mas o que vou eu fazer com um livro?” Disse olhando para o presente como quem olha para um cão sarnento, ou qualquer outra coisa repugnante.

“Quem disse ao boss que eu precisava de Ungungunhana, quem disse que eu precisava de história?, é quem este tal de Ungulani Ba Ka Khosa?, ora bolas, nunca mais entro nessa cena de amigo oculto, sempre me dou mal.”

Voltou a embrulhar o livro no papel de presente que acabara de rasgar, dobrou-o sem qualquer afeição, jogou no saco plástico onde vinha o presente e pendurou na cadeira.

Olhou para todos com seu orgulho ferido, pegou numa das garrafas de Johnnie Walker havidas na mesa e virou toda para o copo e, a seco e num único trago, bebeu. Respirou fundo e fez o mesmo processo novamente. Queria embriagar-se para esquecer o infortúnio de receber aquilo que não queria, porém, não conseguiu, então, por qualquer razão que nem ele mesmo entendeu, decidiu abrir o livro.

***

Quando todos os seus colegas abandonaram o local, a maioria já embriagada, Manuel Kanziwelo continua ali, de olhares arregalados como quem descobriu uma mina preciosa, perdido nas entrelinhas das peripécias do último império oposto a ocupação colonial em Moçambique; bem ali, sentido o cheiro das paisagens de Gaza, admirado a bravura do jovem Ualalapi e perplexo com traumas de Ngungunhane, um homem cruel e violento, um tirano que não lhe fugiam comparações. Sorria pela forma cómica que certas estórias eram contadas, como a menstruação de Damboia que enchera o rio de sangue, e a mesma a levou a morte e impotência de alguns homens, o vomito de Manua que encheu barco dos tugas; em fim, analisava o “Game of Thrones” do império de Gaza. Fez, ainda que de forma rápida, uma analogia do último discurso de Ngungunhane com alguma realidade que ele viveu e vive, sorriu e sorria de vez em quando, por vez se entristecia pelas desgraças que atravessam a narrativa.

Quando começo a ler as “Mulheres do Imperador”, as concubinas que acompanharam o Imperador ao exílio e retornam à Moçambique após quinze anos, um dos serventes do restaurante veio ter com ele, porém, este precisou bater várias com o copo na mesa para despertar o novo leitor, assim que desgrudou do livro voltou para o servente, o seu semblante era outro, tinha certo brilho e a pele parecia estar rejuvenescida.

“Senhor, já estamos para fechar.”

“Você conhece Damboia?”

“Senhor, está na hora.”

“Tens que ler este livro, mano.”

“Senhor, eu disse que estamos para fechar o restaurante.”

“Uf... não se pode ler sem incómodos nesta cidade?, mas OK.”

Manuel Kanziwelo colocou o livro no saco plástico, voltou a olhar para o servente que mantilha aquele rosto stressado que há bem pouco tempo ele mesmo ostentava.

“Boas festas, para si Mabiau.”

“Não entendi, mas Boas festas também para si, senhor!”

Levantou-se nas calmas, sem qualquer pressa, assobiando, pendurou nos ombros o saco plástico com todo carinho e cuidado do mundo. Mesmo quando olhou para o relógio manteve a impenetrável calma, saiu devagar e perdeu-se nas entranhas da noite.

 


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