Amilton Macicame: o berço, os sonhos e o Ventre triangular

Amilton Macicame: o berço, os sonhos e o Ventre triangular

A exposição Ventre triangular, patente na Fundação Fernando Leite, trouxe a possibilidade de Amilton Macicame apresentar-se ao público pela primeira vez. Segundo o artista de Vilanculos, é graças às artes plásticas que aprendeu a sonhar com um mundo possível.

 

Imaginemos um triângulo isósceles ou, se preferir, escaleno. No lado A encontra-se Sebastião Matsinhe, no B está Chaná de Sá e no lado C Amilton Macicame. Todos estes artistas plásticos nasceram na província de Inhambane e, também conectados pela naturalidade, juntaram-se para expor a colectiva Ventre triangular, patente na Fundação Fernando Leite Couto até 30 deste mês.

Dos três artistas plásticos, o mais novo (24 anos) e o menos experiente é Amilton Macicame. Na verdade, Ventre triangular é a primeira exposição do pintor de Vilanculos. Por isso, está a ser algo muito especial, afinal, ao lado dos seus dois grandes “mestres”, Macicame pode, finalmente, apresentar-se aos apreciadores de arte. Mas como tudo começou? Lá vamos…    

Em 2015, Amilton Macicame terminou a 12ª classe na Escola Secundária de Mucoque (Vilanculos). Sem condições para continuar com os estudos, resolveu procurar alguém que o pudesse introduzir no universo das tintas e cores. Assim, deixa para trás o distrito de Vilanculos e viaja para a cidade de Inhambane. Na Casa da Cultura da Terra da Boa Gente, já em 2016, conheceu Chaná de Sá, a quem deve o ABC na pintura. Nos meados do mesmo ano, Amilton Macicame conhece outro artista importante para si: Sebastião Matsinhe. “Depois de passar um ano na cidade de Inhambane, voltei a Vilanculos, onde continuei a trabalhar segundo ensinamentos de Chaná de Sá. Nessa altura, procurava representar aquilo que via no meu ambiente. Depois, senti que estava a ser demasiado realista, mas tinha dificuldades de me livrar disso. Foi quando Sebastião Matsinhe decide ir à minha casa. Ele ficou a trabalhar comigo durante um mês. Nesse período, ele ensinou-me muito”, ou seja, “Vejo Chaná de Sá e Sebastião Matsinhe como dois ângulos desse triângulo que eu sou. O primeiro ensinou-me a captar a realidade e o segundo a compor o poema que me permite expressar o que está dentro de mim”.

Mesmo com a ajuda dos seus “mestres”, o início de carreira de Amilton Macicame tem sido duro. Primeiro, porque tem enormes dificuldades de arranjar material para pintar. A mãe que vende lenha e o pai que é segurança não têm grandes possibilidades. Entretanto, contribuem com o que podem, quando conseguem, de modo que o filho possa ter algumas tintas, geralmente, as que são usadas para pintar paredes. Acrílico nem pensar. Em quatro anos de actividade, Macicame apenas teve a possibilidade de usar acrílico para pintar algumas telas inseridas na exposição quando viajou para África do Sul. “Graças a Sebastião Matsinhe, pude participar num workshop na Cidade do Cabo. Essa viagem foi importante para mim porque, além de intercâmbio, consegui reunir material de pintura doado por vários artistas solidários com a minha causa. Foi graças a esse material que consegui pintar parte das telas que levei à colectiva Ventre triangular”. Quem prestar atenção, adverte o artista, vai constatar que na colectiva estão obras pintadas a óleo e a acrílico. “Isso aconteceu porque nem sempre tive material que pretendi. Por exemplo, agora, já não tenho como pintar”.

Amilton Macicame é filho de uma família com várias carências. Por isso, cresceu sem ousar sonhar alto. “Por exemplo, para que eu pudesse ir à escola, no ensino primário e secundário, tinha de trocar a camisa de uniforme com a minha irmã mais nova. Com o que podia sonhar?”. Então, a sua situação em relação à vida e ao futuro começa a mudar graças à pintura: “as telas ensinaram-me a sonhar. Antes das artes plásticas, eu nunca tinha sonhado em sair de Vilanculos. Quando fui à cidade de Inhambane e, depois, vim a Maputo, pela primeira vez em 2018, foi algo acima dos meus sonhos. Eu cresci com dificuldade de fazer uma viagem de 20 km de carro, porque tudo o que conseguíamos, vendendo lenha, era para alimentação. Agora, imagine que tipo de sonhos esse menino pode ter? Quando piso Maputo pela primeira vez, foi algo incrível. Vi os prédios e achei-os maravilhosos. Depois atravessei a fronteira para África do Sul. As minhas entranhas começaram a mexer-se por causa da emoção. Graças a Sebastião Matsinhe, eu conheço mais a cidade de Cabo do que a minha província. Ele me fez conhecer galerias e museus e percebi que o mundo das artes existe. Isso mudou a minha forma de pensar e de pintar. E passei a viver sonhos acimas dos meus”.

Quando Amilton Macicame tem material, pinta em casa. Durante o dia é mais fácil porque a luz do sol é-lhe suficiente. À noite, recorre à sua lanterna, que, em termos de iluminação, não é satisfatória. Casos há em que, quando amanhece, ao pretender dar retoques na tela, vê que a cor que julgava ter usado na véspera afinal é diferente. Mas não desiste por isso. Fazendo das dificuldades a sua motivação, o artista vai trilhando o seu percurso. Na colectiva Ventre triangular expõe 10 telas, que exploram a relação homem e animal. Para Macicame, as artes plásticas devem contribuir para a consciencialização dos cidadãos e “eu espero que as pessoas possam aprender com as minhas obras”.

 


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