Amosse Mucavele: o poeta urbano

Para dominar uma natureza, deve-se, primeiro, aprender a obedecer-lhe

in O nome da Rosa

Fôssemos convidados a dizer de que é feita a alma de um poeta, partindo da Geografia do olhar, de Amosse Mucavele, talvez mencionássemos o desassossego como matéria-prima, a condizer com a incapacidade de se viver calado. Escolheríamos o desassossego não por julgarmos a palavra razoável e nem por nos lembrar Bernardo Soares ou Costley White. Nada disso, a escolheríamos porque nesta odisseia pela versificação o livro impõem-se como instrumento sintético do que caracteriza Maputo, sobretudo, nesta atmosfera feita de reencontros com o quotidiano, num sprint constante.

Em Geografia do olhar, Amosse Mucavele confere poder aos sujeitos de enunciação, ora numa espécie de introspecção, sonhando em viagem, ora num desabafo, pisando o chão na mesma proporção que os personagens de uma estória real, contada em qualquer entroncamento da baixa da capital. Por isso, os seus poemas, predominantemente curtos, herdam o carácter narrativo do que sucede em Maputo, enquanto espaço de urgências no qual é obrigação enfrentar o pesadelo acordado, para que o sonho possa tornar-se no mínimo verosímil.

Destarte, mesmo sem trazer um tema novo, na forma como o poeta explora a cidade, os seus (des)encantos e as angústias ligadas intrinsecamente, esta geografia percorrida com olhar – preenchida com a íris de um transeunte da palavra, combinando traços de um Okapi ou Bata, curiosamente, um poeta e outro contista – vem com um registo assinalável quanto à preservação da relação homem e espaço, onde desaguam desejos há muito transformados na “Guerra Popular”.

Esta iniciativa literária constitui um ponto de partida de regresso ao local em que o leitor se encontra, se for Maputo ou Lisboa, por exemplo, pelos ecos a transbordarem, em jeito de Retratos do instante, imagens e circunstâncias relativas.

Ao escrever este livro, longe do melhor de si, ainda pode voar mais alto, Mucavele levou em consideração a ideia tão apresentada nesse O nome da Rosa, de Annaud, claro, adaptado do Eco: “Para dominar uma natureza [da literatura, neste contexto], deve-se, primeiro, aprender a obedecer-lhe”. Então, logo se vê o poeta a reconhecer, ao longo dos versos, e a obedecer várias naturezas de que ele próprio se completa, autores como Borges das Ficções, a personificação de gostos e preferências.

O campo de visão desta Geografia de Mucavele tem mérito por nos levar a enxergar como as cidades são centros aglutinadores de mágoas, uma larica que consome o corpo, a esperança. O livro vinca essa ideia de a urbe ser uma nau no alto mar sem bússola, feita de vazios, mas sem que isso signifique o fim, porque os sujeitos poéticos vêem o sol em toda a sua glória. E mesmo a propósito do mar, temos aqui entidades a sugerirem que, se o cimento é uma circunstância de angústias, aquele espaço líquido oferece o encanto e o aconchego, portanto, um farol.

É este poeta feito de cimento e água que encontramos reflectido nesta Geografia, um poeta em formação, produto das suas conjunturas, urbano por excelência.

 

Título: Geografia do olhar

Autor: Amosse Mucavele

Editora: Cavalo do mar

Classificação: 12.5

 


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