Análise crítica de obras

Análise crítica de obras

QUANDO É PREMENTE FALAR
A extroversão não é o meu ponto premente quando pretendo que se saiba, de mim, algo, porém, se o assunto é algo comum, destranco o meu repositório verbal e me expresso. Senão não seria escritor na verdadeira acepção do termo, uma vez que ser escritor é já uma forma de aderir à extroversão. Saramago, numa das suas inúmeras reflexões diz: "A missão do escritor, se existe alguma, é não se calar", pois, pretendo seguir esse eloquente pensamento daquele insigne escritor luso, mesmo estando certo de que, talvez os meus pontos de vista, se situem aquém do real valor dos escritores que pretendo abordar, ou seja, ciente das minhas limitações quanto ao traquejo dos instrumentos da crítica literária.
 
NÃO SOU NINGUÉM
DE: Anísio da Conceição
Começo pela obra: "Não sou ninguém, do poeta ainda em fase iniciática, Anísio da Conceição. O seu caminho, na perseguição da essência literária, particularmente poética, já vai longo, através da militância em incentivos, morais escolares, passando pela participação intensa e interessada em movimentos de carácter cultural, como o Movimento Literário Juvenil (MOLIJU) onde ele ainda milita, em que a literatura é um dos pratos que se servem para qualquer pessoa que escolha esta área para se deleitar, refletir sobre as essências das nossas origens culturais. Naturalmente que menos literatas, mas profundas no sentido onirico, uma vez que abarcam sonhos que a todos embarcam em busca permanente do ser, sempre encrustados na força dialógica, sustentada pela oralidade que nos é, ainda, intrínseca e quotidiana. O sonho foi sempre o factor mais importante de entre os vários que se nos apresentam para o cumprimento das nossa aspirações. António Gedeão, outro vate luso, no seu celebrado poema: "A pedra filosofal", a dado passo: "o sonho é uma constante da vida" e como que colocando uma cereja no topo do bolo, diz: "Quando um homem sonha o mundo avança", ou seja, dá um salto para a frente!

Pois, imbuído desse espírito onírico, ao longo do seu ainda debutante percurso literário, envereda pela sua identificação com quem se propõe dialogar: "Não sou ninguém"! Uma forma sofisticada, quanto a mim, de dizer que ele é alguém a quem se deve prestar atenção na sua proposição. Ele quis dizer: "Eu sou alguém", que se posta no pedestal poético para cantar a alma da sociedade em que se insere. É diversa a temática aflorada neste livro, porém, o ponto fulcral ou essencial da abordagem de Anísio da Conceição, a sua base inspiradora é a afirmação de 2009, no Bairro Chinonanquila, no distrito de Boane, num comício dirigido pelo antigo estadista moçambicano Joaquim Alberto Chissano. Ao acabar de declamar dois poemas. Joaquim Chissano perguntou-lhe sobre o que fazia, ao que ele respondeu que era estudante. O insigne interlocutor prosseguiu: "Vá em frente, tens futuro...". Pois, foi esta interpelação que o fez compenetrar-se mais anda, naquilo que ele próprio já concluíra, mas até que alguém lhe despertasse, até certo ponto, subestimasse, e está expresso no verso tonificador de todas as estrofes do poema de 2005, constante neste livro: "Mistérios da palavra" - "Importa saber que a palavra tem poder".

De facto, o poema referido, de forma recorrente, torna presente que a palavra é detentora do "poder de gerar guerra/Como também de salvar memórias"; de criar e destruir/De destruir tudo e até muralhas"; De ferir e curar/De curar tudo até restaurar escombros/Verdadeiramente espalhadas/Sobre a epiderme das flores"; "De gerar guerra/Como também de combater os bichos/Devolvidos pelas balas inimigas/E libertar os oprimidos/Eternamente"; "De fazer tudo acontecer/Operar milagres como o arquétipo Jesus/..."; "De resgatar almas perdidas/pelo misterioso epíteto da Palavra!"

Nesta obra de estreia, Anísio canta as crianças do seu país, baseando-se na célebre frase de Samora Moisés Machel, primeiro presidente de Moçambique, "As crianças são flores que nunca murcham". Não é, exactamente, através da visão samoriana, mas pelo tratamento a que a criança está sujeita, no desfilar de incongruências que a abalam, no nosso dia-a-dia, senão, vejamos: no poema "Criança desamparada", de 2010: "Danças à luz do dia/Enquanto fomentas desamparo/Em inocentes acácias/Nestas ruelas quase profusas e belas/Deste ultrapassado Xilunguine. Cresces quase sem razão/Aos pontapés perpetuados sucumbes/ pela madrasta que te empresta lágrimas/Na casa da malograda." É, aqui, notória a referência negativa da acção de algumas madrastas, no trato aos seus enteados, precisamente onde a criança já vivera alegrias, no colo mátrio que, por circunstâncias adversas da vida, tal colo fora para a outra dimensão existencial, deixando, um lugar vazio preenchido por uma impostora. Neste capítulo, Anísio esparrama a sua indignação nos poemas: "Não Sou Ninguém", "Criança da rua", "Comércio informal", "Meu pai", "Nascer". Porém, de forma altruísta, estende a sua reflexão holística, universal, ao se referir à criança, sem ser, apenas, a que sofre, como, também, a bem aventurada, no seu país e fora dele, como se pode constatar nos poemas: "Os bem-aventurados", "A um amigo", "Amigo meu".

No capítulo II, o poeta canta os sonhos, partindo de um dito assinado por "O Vendedor de Sonhos", cujo teor é: "O ser humano não morre quando o coração pára de bater, morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante".

No capítulo III, canta, em memória às vítimas de SIDA. Nos capítulos seguintes, canta o que a sua jovem observância lhe tem dado como ensejo de aperceber e reflectir, no seio da sociedade em que, ele próprio é, também, actor. Aliás, no seu suculento prefácio, Bee Yoni, O Dragão, aflora todos os aspectos desta obra, abrindo um sem número de hipóteses para a sua interpretação. O próprio Anísio da Conceição, na sua Nota de Autor, que aparece nos fundos do livro que ora nos apresenta, num gesto raro no nosso panorama literário, de deixar, primeiro, ler a obra, e depois das ilações daí advenientes, cruza-las com as notas do autor. Este exercício, sugerido por Anísio, apela à comunidade interpretativa das obras literárias, em que o leitor é desafiado a participar com a sua visão de intérprete, e poder completar a obra literária, com a sua complementativa visão. Reside neste exercício, o conceito Estética da Recepção, arma fundamental da comunidade interpretativa.É pois, quanto à minha modesta opinião, sem, de forma alguma, pretensões de preterir quem, de justos atributos, traria mais abalizados argumentos a esgrimir sobre a obra poética inaugural "Não Sou Ninguém" de Anísio da Conceição.
 


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